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Bravíssimo | Nicette Bruno e Paulo Goulart por Elaine Guerrini

Publicado em: 23/10/2014 |

Introdução do livro “Tudo em família”, de Elaine Guerrini, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

 

Domingo, 11 horas da manhã, na residência da família Goulart, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. “Você resolveu, meu amor?”, pergunta Nicette ao marido, referindo-se ao cardápio do almoço. Definir o prato principal não é mesmo tarefa fácil. Principalmente para Nicette Bruno e Paulo Goulart, que costumam consagrar o domingo à família, aos amigos e aos prazeres da mesa há mais de 50 anos – desde que trocaram alianças no dia 26 de fevereiro de 1954, no altar da igreja de Santa Cecília. “Nhoque com braciola”, responde Paulo, abrindo um sorriso e abraçando a mulher, que ele insiste em chamar de “filhinha”. 

 

Não adianta perguntar qual o segredo da união tão duradoura, uma das mais sólidas do mundo artístico. Se existe receita, ela provavelmente continuará guardadinha na gaveta. O que salta aos olhos, observando o casal de atores no cenário doméstico, é o respeito pela individualidade do outro e a disposição para fazer concessões. Paulo, por exemplo, nunca gostou de café. O que não o impede de tomar um golinho (“mesmo sem vontade”) quando Nicette traz, com todo carinho, aquela xícara fumegante da cozinha. Ela sabe, no entanto, que não adianta insistir com quiabo ou jiló. Aí seria pedir demais. Paulo impõe respeito com 1,85 m de altura, voz grave e gestos largos e decididos. Nicette é do tipo mignon (1,52 m), com movimentos que sugerem doçura e delicadeza. Sempre brincalhão, ele não perde uma piada. Mais compenetrada, ela tende a levar tudo a sério. O marido conta as aventuras de sua vida floreando aqui e ali, buscando sempre os aspectos mais pitorescos. A mulher costuma ir direto ao ponto, soltando os detalhes aos poucos, só se forem solicitados. Quando dividem o palco ou o estúdio de televisão, ela tem uma preocupação maior com o conhecimento e a técnica. Ele entende a necessidade da companheira, mas preza pela espontaneidade. 

 

Em comum, eles têm o brilho no olhar. Típico de quem ainda quer muito da vida. Talvez por isso nenhum dos dois aparente a idade. 71 anos? Difícil de acreditar. Até o nascimento do casal, sempre sorridente, parece ter sido sincronizado. Vieram ao mundo no mesmo mês e no mesmo ano, janeiro de 1933. Nicette é apenas dois dias mais velha que Paulo, o que faz deles dois “teimosos capricornianos”. Um simples olhar é suficiente para que um saiba exatamente o que o outro está pensando. Para evitar que um acabasse terminando a frase do outro foi preciso fazer as entrevistas separadamente. 

 

Durante nossos encontros para a realização deste livro, o casal me recebeu no apartamento de São Paulo e no do Rio de Janeiro, em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas. Como São Paulo sedia os negócios da família, a empresa Nicette Bruno Produções Artísticas, e ambos são contratados da Rede Globo, com núcleo de novelas e minisséries em solo carioca, o jeito foi montar duas casas, com tudo em dose dupla. O que não impede Nicette (“para desespero do Paulo”) de sempre levar uma malinha quando viaja daqui para lá e de lá para cá. 

 

Os dois apartamentos são igualmente aconchegantes, aliando o bom gosto à simplicidade. Nos intervalos e no final das entrevistas, quando dava tempo de tomar mais um cafezinho e comer um pedacinho de bolo, Paulo e Nicette voltavam imediatamente a dividir o sofá. Era “querido” para cá, “filhinha” para lá. As expressões carinhosas até poderiam soar falso saindo da boca de qualquer outro casal com tantos anos de estrada. Mas não dos Goulart, que envolvem todos ao seu redor com uma energia amorosa difícil de ignorar. Por onde passam, conseguem acender uma luz no coração das pessoas. E o sentimento que os une transcende a relação homem-mulher. Estende-se a todas as coisas. É o amor à família, ao próximo e à arte. 

 

A arte foi justamente a desculpa que o destino encontrou para colocá-los frente a frente. Aos 19 anos, a carioca de Niterói e o paulista de Ribeirão Preto conheceram-se no palco e trocaram os primeiros beijos nos camarins durante os intervalos do espetáculo Senhorita Minha Mãe (1952), no Teatro de Alumínio, localizado na Praça das Bandeiras, em São Paulo. Para Paulo foi amor à primeira vista, assim que foi testado por “aquela baixinha exigente” para o papel de galã da Companhia Nicette Bruno e seus Comediantes. A estrela que só pensava em trabalho precisou de mais tempo, mas não demorou até ver aquele “rapaz bonitinho” com outros olhos. Desde o momento que saíram de uma festa de mãos dadas, sinal de início de namoro firme nos anos 50, nunca mais se desgrudaram. Dividiram as tarefas e fizeram todos os ajustes necessários para que o casamento desse certo sem que ninguém precisasse abrir mão dos sonhos profissionais. Quantas vezes Paulo não estava trabalhando no Rio, enquanto Nicette gravava em São Paulo? Nem por isso deixaram de se ver. Os dois sempre se revezaram nas visitas, não deixando a tal chama apagar. Até equilibrarem a vida financeira, apertaram o cinto e enfrentaram as dificuldades com bom humor. Trabalharam juntos, construindo os cenários das próprias peças, se fosse preciso. Suas trajetórias confundem-se com a história do teatro e da televisão no Brasil. 

 

São mais de 50 espetáculos teatrais e quase 40 novelas e minisséries no currículo de cada um. Com façanhas profissionais costuradas à vida pessoal, souberam administrar os egos artísticos sob o mesmo teto. Um sempre vibrou pelo sucesso do outro. Inclusive nas montagens domésticas, em que subiram juntos ao palco. Muitas vezes acompanhados da mãe de Nicette, Eleonor Bruno, e dos três filhos, Bárbara Bruno, Beth Goulart e Paulo Goulart Filho, que também enveredaram pela carreira artística, enchendo os pais de orgulho. E também de preocupação, já que filho de artista geralmente pena para conseguir sair da sombra da família. Até os netos, a quem foi transmitido inevitavelmente o gosto pelo palco, acabaram seguindo os passos de Paulo e Nicette. Como Vanessa Goulart. E já surgiu uma nova geração (será de atores?) com a bisneta Bruna, de um aninho, filha de Eduardo di Micheli, que contracenou com a avó Nicette na novela Louco Amor (1983). 

 

Juntos, formam a família de atores mais unida do Brasil. Quando dividem o palco costumam comentar, seja no café da manhã, no almoço, seja no jantar, a reação do público na performance anterior. Como ocorreu mais recentemente, quando Nicette, Paulo, Bárbara, Paulinho e Vanessa contracenaram no espetáculo Sábado, Domingo e Segunda (2003), de Eduardo De Filippo, em São Paulo, no Teatro das Artes. Os encontros servem não só para afinar a sintonia artística e profissional, mas para reforçar a união e o bom humor dos Goulart. Nos seus barulhentos almoços de domingo, quase todos passam pela cozinha. Nem que seja só para levantar a tampa da panela e dar uma espiadinha… 

 

No dia em que Nicette preparava um camarão ao catupiry, alguns fizeram mais que isso. Louco por condimentos fortes, Paulo sapecou o prato de pimenta e saiu da cozinha, sem que Nicette percebesse. Quando a família, já faminta, se sentou à mesa, ninguém conseguiu comer de tão apimentado. Conhecendo o marido tão bem como só Nicette conhece, ela foi logo lhe puxando a orelha. Paulo defendeu-se, dizendo que tinha colocado “só um pouquinho”. 

 

O que Paulo não esperava é que Nicette já tivesse dado um toque extra de pimenta, sabendo que o marido gosta tanto. Na mesma hora, Eleonor, que a família chama carinhosamente de Nonoca, assumiu a culpa: “Paulo gosta tanto de pimenta que eu também coloquei um pouquinho”, revelou. Nem preciso dizer que Paulo foi o único a devorar o camarão. Estava uma fogueira.

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