Bravíssimo | Miguel Magno por Andréa Bassit

Publicado em: 10/04/2014

Introdução do livro “O pregador de peças”, de Andréa Bassit para a Coleção Aplauso (leia a obra na íntegra)


Este livro não era para ser um livro, mas sim uma peça de teatro. Uma peça sobre as inúmeras peças que habitavam o mundo do ator Miguel Magno.


Conheci Miguel em 1992, quando ele ensaiava o espetáculo Porca Miséria, com Regina Galdino, minha companheira e parceira de trabalho. Da amizade deles nasceu a nossa, minha e dele. Durante os anos de convívio ouvi Miguel contar histórias que ele viveu no teatro ou que de alguma maneira conheceu – fazia isso naturalmente, como um modo de se expressar, de se comunicar. Ele costumava imitar o jeito, a voz das pessoas – hábito totalmente compreensível para um comediante nato –, falava de cantoras, tias, professoras, camareiras, empregadas, santas, atrizes, mulheres… Talvez por isso ele tenha sido um ícone na interpretação de personagens femininos. Quando estreou Quem Tem Medo de Itália Fausta?, ao lado de Ricardo de Almeida, seu grande parceiro de cena, não sabia que estava assinando seu nome no hall do Teatro Brasileiro. O espetáculo, em que eles transitavam por diferentes personagens femininas, tornou-se um enorme sucesso que se repetiu durante anos e até hoje é tido como referência no desenvolvimento do teatro besteirol – palavra que não revela a complexidade e a inteligência desse artista. 


Formado em Letras pela USP, Miguel Magno tinha amplo conhecimento de literatura, línguas e arte em geral. Seu repertório pessoal ia desde orações a pequenas e hilariantes curiosidades do seu cotidiano, ou universo artístico, até citações filosóficas, poesias, trechos de Shakespeare, Fassbinder… Amava Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade… 


Ao longo de sua riquíssima carreira, Miguel viveu situações das mais diversas. Ganhou e perdeu amigos queridos, fez papéis grandes e pequenos, sentiu o sucesso e a falta dele, fez televisão, teatro, trabalhou e conviveu com artistas como Aracy Balabanian, Antonio Abujamra, Thales Pan Chacon, Fernanda Montenegro, Alcides Nogueira, Myrian Muniz, Zezé Polessa, Regina Casé, Diogo Vilela e muitos, muitos outros colegas de São Paulo e do Rio de Janeiro, que são parte da sua família teatral. 


No final de 2006, eu o convenci a registrar suas histórias para que pudéssemos fazer uma peça. Fizemos dez encontros em que gravamos seis horas de depoimentos, nos quais eu deveria me basear para escrever o texto teatral. Mas, por ironia do destino, as histórias engraçadas foram dando lugar a uma biografia pessoal, que não deixava de fora o humor peculiar de Miguel. A peça não aconteceu, não conseguimos patrocínio. E, dessa vez, o tempo foi implacável: nos dois anos que se seguiram, Miguel teve vários problemas de saúde e faleceu no dia 17 de agosto de 2009.


Na sua missa de sétimo dia, Edison Paes de Melo – que junto com Irene Ravache ajudaria a produzir a peça – falou comigo sobre algo que eu já tinha em mente: consultar a editora Imprensa Oficial para transformar em livro a peça imaginada – ideia que o próprio Miguel chegou a expressar em determinado momento. Imediatamente, comecei a organizar os depoimentos e escrever a biografia. Procuramos a editora, que avaliou a proposta. O texto foi lido e aprovado para publicação na Coleção Aplauso, que, como Miguel fazia, tem hoje a função de imortalizar personagens do teatro brasileiro.


Assim, este livro não é somente um registro de um período importante do nosso teatro; é a realização de um desejo. O desejo de revelar o universo de coisas e pessoas que Miguel guardou cuidadosamente em sua memória. Como o poeta que ele tanto adorava, Miguel Magno guardava seus rebanhos – rebanhos cercados pelo teatro. Teatro que ele vivia e pregava, nos fazendo rir, admirá-lo e amá-lo sempre. Miguel, singular comediante, foi e é um inesquecível pregador de peças.

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