Bravíssimo | Mauro Mendonça por Renato Sérgio

Publicado em: 18/09/2014

Introdução do livro “Em busca da perfeição”, de Renato Sérgio, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, de 2010 (Leia a obra, na íntegra)

 

Mestre Nelson Rodrigues já dizia: O ser humano é capaz de tudo, até de amor sincero, só não é capaz de ser imparcial. Isso é uma verdade assustadora, aliás, como tudo, ou melhor, quase tudo que ele definiu, falando e escrevendo. Mas há exceções, uma delas exatamente aqui. Porque, embora admirador desse grande ator (com alma de comediante) chamado Mauro Mendonça, consegui ser imparcial. Deve ter sido porque a riqueza da vida íntima e profissional dele dispensa não só parcialidades, mas também truques, disfarces, imagens, metáforas, adjetivos, elogios ou críticas, cabalas, cambalachos, cambalhotas literárias, rapapés e salamaleques. Basta ouvi-lo, ou melhor, saber ouvi-lo (é meticuloso e detalhista, campeão dos pormenores, minúcia é com ele mesmo: em cada reencontro tem sempre alguma pequena retificação ou acréscimo ao que disse na conversa anterior). O problema é conseguir ouvi-lo, coisa que no labirinto das escalas praticamente diárias de gravações só acontece jogando xadrez, gamão e sinuca com o calendário e o relógio, com muito engenho e arte, de preferência, se possível, com um duende básico a tiracolo. 

 

Mas vale a pena esperar pelas brechas da agenda e o risco que se corre de que elas sejam poucas e breves, porque o homem tem é o que contar! 

 

Cercado de mães, pai, irmãos, filhos, netos e personagens em dezenas de porta-retratos de todos os tipos e tamanhos, ele mexe e remexe em velhos e montanhosos compartimentos mineiros íntimos, vai ao fundo dos seus baús internos e se desnuda como num remake de Dona Flor em que fosse não Teodoro Madureira, mas Vadinho, o outro marido. Então a memória dele se acende, enquanto o cachimbo se apaga, repetidas vezes (e o isqueiro, pléc, pléc, pléc, custa a funcionar). 

 

Na verdade, tudo nele, a vida toda, foi tão rico e tão intenso que certas passagens seriam cômicas se não fossem trágicas e vice-versa. De vez em quando até dá impressão – e aqui não vai nenhum exagero – de que a gente está diante de uma sinopse de novela. Nada mais coerente, aliás. O velho menino tímido de Ubá transformou-se, pouco a pouco, palmo a palmo, palco a palco, personagem a personagem, tela a tela, tipo a tipo, em uma das expressões mais autênticas dessa grande arte que é fingir que somos outros. Ser e não ser. 

 

Era uma primavera carioca suave como poucas, nesta cidade que um dia já foi maravilhosa, com temperaturas civilizadamente suportáveis, entre uma e outra frente fria que – contrariando famosa frase de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta – o Rio de Janeiro não conseguiu desmoralizar. 

 

Foram sempre em fins de tarde, nossas conversas, com aquele vozeirão tonitruante ecoando pela mata atlântica, tendo como imponente testemunha silenciosa, a Pedra da Gávea – que nasceu com o mundo e com ele vai morrer – do alto de seus 842 metros de altura e seu desenho nítido de um rosto humano esculpido pela chuva, o vento e o tempo que não para. 

 

Parecia um flashback. Pisando aqueles paralelepípedos, a caminho do casarão onde ele mora, a sensação era de ter voltado a um Rio antigo do qual não sobrou nada, só saudade. De repente, poderia haver o olhar de mormaço da Capitu de Machado de Assis em alguma janela do caminho, a contar meus passos. Ou, a qualquer momento, eu poderia ter a subida honra de cruzar com o João Romão de Aluísio Azevedo, quem sabe até com o próprio João Paulo Alberto Coelho Barreto – também registrado João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Barreto – essencialmente João do Rio, flanando pela alma encantadora daquela rua bucólica do bairro carioca de São Conrado, sem nem sombra de qualquer espigão pra quebrar o encanto, enfim o clima. 

 

Sensível, aplicado, buscando a perfeição em seu ofício, eis aqui alguém que se aprimorou a vida inteira. Assim se pode sintetizar a trajetória desse mineirinho danado, tão cuidadoso com seu ofício que, texto já decorado, na ponta da língua, passa todas as falas com outros atores, para estar nos trinques, na hora do gravandooooo! Dono de uma incansável capacidade de trabalho, no caso dele, de luta. Atravessou muitos mares e vários desertos de todos os tipos (não só os cenográficos). Enxugou tempestades particulares, maremotos emocionais. E depois de muitos palcos e estúdios, paulistas e cariocas, chega agora até nós, de cabeça recauchutada e alma reconfigurada, com a pelo menos aparente sensação do dever cumprido, portanto, bem perto da chamada santa paz com (quase) tudo e (quase) todos, inclusive a crítica. E principalmente – que é o mais importante – com ele mesmo, depois de 39 peças de teatro, 53 novelas, 8 minisséries, 18 teleteatros, 23 participações em seriados, 15 Casos Especiais e 19 filmes, em exatamente 53 anos de carreira profissional, contados desde o dia 20 de dezembro de 1955, quando recém-contratado pelo TBC, o histórico Teatro Brasileiro de Comédia, ele participava da primeira leitura da peça A Casa de Chá do Luar de Agosto. 

 

Esse é Mauro Pereira de Mendonça, nome de personagem de romance água-com-açúcar, destino de grande ator, que entre mil e uma façanhas cênicas exercidas no teatro, no cinema e na televisão, contracenou com Cacilda Becker, esse sim, um dado mais que suficiente para coroar com fecho de ouro e grand-finale, qualquer biografia. 

 

Mas ele tem outras cartas na manga do currículo, conforme a gente pode ficar sabendo. É só virar a página.

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