Bravíssimo | Marcos Flaksman por Wagner de Assis

Publicado em: 13/03/2014

Introdução do livro “Universos paralelos”, de Wagner de Assis, para a Coleção Aplauso (leia a obra na íntegra)

 

 

Antes de qualquer coisa, gostaria de convidar o prezado leitor a iniciar a leitura desta obra pela parte final, onde se encontra o capítulo dedicado a listar os trabalhos do nosso homenageado, o cenógrafo Marcos Flaksman. Mas não dê apenas uma leve olhada. Preste atenção por alguns minutos.

 

Trata-se dos últimos 40 anos da vida cultural brasileira. Um universo onde esteve gente como Fernanda Montenegro e Fernando Torres, Paulo Autran, William Shakespeare, Bertold Brecht, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Carlos Vereza, Antonio Pedro, Celso Nunes, Mozart, Garcia Lorca, Villa-Lobos, Sonia Braga, Hector Babenco, Fauzi Arap, Oduvaldo Vianna Filho, José Vicente, Eurípedes, Elis Regina. Mais? Gustav Mahler, Sófocles, Eugene O’Neill, Paulo Afonso Grisoli, Jean Paul Sartre. A lista não pára e passa da centena. Parece infinita. E cheia de luz. Todos esses talentos, de uma forma ou de outra, compõem um deslumbrante painel da carreira de um grande nome da arte dramática brasileira. Eles são o universo de Marcos Flaksman. 

 

É realmente uma obra portentosa. Mostra o quanto um homem pode fazer pelo teatro ou pelo cinema. E, para variar um pouco, pelas óperas, pelos shows, pela arquitetura do espetáculo. Vale, com justiça, começar com elogio. Porque as palmas aos atores dos espetáculos ou filmes mencionados também foram encaminhadas para ele. Sua obra é exemplo de como coxia e bastidores são vitais para seus realizadores. Foi com esses autores, atores, gênios maiores ou menores, que Marcos construiu uma estrada própria – cenográfica talvez – para contar sua história, muito verídica, que estende-se além das fronteiras de incontáveis palcos brasileiros, faz uma curva em palcos europeus, um pit-stop em Hollywood e volta pra cá.

 

A Coleção Aplauso tem a virtude de ter, entre seus leitores, muitos estudantes. Não por acaso, esta também é uma preocupação na confecção das biografias. E foi justamente pensando neste público que, impressionado, me deparei com a obra de Marcos. Todo mundo que pretende fazer teatro ou cinema deveria conhecê-la. 

 

Arquiteto por formação, graduado em cenografia e arquitetura teatral, ele ostenta créditos de diretor, figurinista, diretor de arte, production designer e, de quebra, quase guerrilheiro nas horas mais duras das décadas de chumbo. Sua arte, sua arma. Doce mistério, o mesmo ímpeto que o fazia lutar pelo Brasil livre movia-o a um galpão de cenários velhos para roubar madeiras para suas montagens quando dinheiro era pouco e vontade de fazer peça era muita. 

 

Hoje, Marcos parece um senhor-menino (ou seria um menino-senhor?) que ainda quer brincar de recriar mundos em duas, três ou quantas dimensões forem necessárias. A pesquisa iconográfica de suas peças e filmes demorou 18 meses e percebe-se que, infelizmente, o tempo venceu em alguns casos e os registros se perderam. Entretanto, entre caixas e mais caixas com papéis, projetos, negativos, fotos em sépia, recortes de jornais, encontravam-se juntos momentos inesquecíveis do teatro brasileiro. O passado brilha mesmo na poeira do tempo.

 

Como não poderia deixar de ser, o profissional tão acostumado a recriar mundos em seus mínimos detalhes também demonstrou extrema atenção a este projeto. Na verdade, aqui vai um segredo: lá no cantinho de seu hard drive, numa pasta tímida e escondida, havia um arquivo com algumas linhas jogadas sobre suas memórias. Literatura, eis um novo universo a ser desvendado.

 

Talvez por isso, Marcos fez-se dono do seu discurso e colaborou nos verbos e predicados do texto literalmente. Evitou todo e qualquer julgamento de valor, com muita propriedade. Poderia fazê-lo porque tem bagagem suficiente para ensinar grande parte da nova geração que busca seu espaço nos palcos e telas brasileiras. Mas não o fez. Deixa as aulas e as críticas para os cursos que ministra.

 

Todavia, não deixou de contar com prazer detalhes de seu trabalho, desde a ideia à realização. São exemplos de quem inventou sem medo. Errou algumas vezes, como o tal espelho invertido. Mas, principalmente, são histórias que complementam as imagens com riqueza de detalhes. Por isso, ao relembrar, ele não se arrepende; ao refletir sobre o presente, não teme; ao pensar no futuro, Marcos deixa os olhos brilharem esperando apenas quando será a próxima vez que poderá experimentar um novo universo. Será um novo ângulo ainda intocado? Uma nova forma de usar a luz? Quem sabe é a arte. Ela é quem dita as regras a serem quebradas. Deixa somente pistas para o entendimento do homem novo que renasce a cada espetáculo e filme. Até porque o trabalho vai ser gerado da explosão criativa que só acontece àqueles que sabem o que é brincar de deus, mesmo que pequenos, temporais, falíveis e conscientes de suas naturezas humanas. Não por acaso, este é um livro sobre universos paralelos. De Marcos Flaksman.

 

Com a palavra… Marcos Flaksman

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