Bravíssimo | Louise Cardoso por Vilmar Ledesma

Publicado em: 31/07/2014

Introdução do livro “A mulher do Barbosa”, de Vilmar Ledesma, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

 

 

Que atriz escolhe interpretar uma cachorra na comemoração de seus 25 anos de carreira? Louise Cardoso, sim senhor. Encantada com uma personagem canina, Louise fez de Sylvia um de seus sucessos. Muita gente não compreendeu essa escolha, peça-chave para entender a atriz, produtora e diretora, que no exercício de seu ofício prioriza o jogo lúdico, a brincadeira teatral. Diversão e arte. 

 

Passaram uns bons seis meses desde nosso primeiro contato e as entrevistas para esse livro. Às voltas com as gravações da novela Como Uma Onda, Louise esperava por uma semana com poucas cenas para conversarmos com calma, o que acabou não acontecendo. Nosso primeiro encontro só ocorreu nos últimos dias de junho 2005, quando a cidade maravilhosa vivia seus dias de inverno, com frio e chuva. Como boa carioca, Louise detesta frio e aproveitava sua primeira semana de folga, mas nem pense que o trabalho estava ausente de sua cabeça. Na semana seguinte, ela começaria a gravar um programa para tevê a cabo, pesquisava para uma peça que acabou não se concretizando por falta de tempo livre em sua agenda e já estava comprometida com a minissérie JK. Louise Cardoso não pára e simplesmente não consegue se imaginar sem fazer o que mais gosta: trabalhar.

 

Às voltas com as rendas de bilro. Foi assim que a encontrei em seu apartamento carioca. O bilro era herança da mulher de pescador que viveu na novela. Adepta da meditação, encontrou no ato de fazer renda uma outra maneira de meditar. E não foi a primeira vez que incorporou algo de uma personagem; nos anos 80, ao interpretar uma taróloga na novela Champagne, começou a estudar tarô e esse conhecimento virou parte de sua vida. E recentemente teve aulas de pintura para a artista plástica da novela Páginas da Vida. 

 

Louise gosta de falar, conta histórias deliciosas, é brincalhona e seriíssima também. Costuma se lançar a todos os trabalhos que escolhe e foi assim com este livro. Antes de começarem as entrevistas, houve uma divertida troca de e-mails, o que estabeleceu uma certa intimidade, e quando ficamos cara a cara parecia que já nos conhecíamos de longa data. Foram três longas sessões seguidas, que começavam no meio da tarde e só acabavam quando estava escuro. O complemento veio depois via computador ou telefone. Louise mora em Copacabana, numa rua que é pura história, e da varanda de sua casa tem uma bela vista para um vasto pedaço de mata tropical, um daqueles arroubos da natureza de que só o Rio é capaz. Doida por verde, ela sempre namorou esse pedaço do bairro e faz sete anos reside ali, pertinho da rua onde nasceu. 

 

No final de 2007, Louise comemorou seus 30 anos de carreira com a montagem de Mãe Coragem e Seus Filhos, de Brecht. A peça era um de seus sonhos e ela a considera seu principal momento no teatro nesses anos todos. Agora, no último trimestre de 2008, concorre aos principais prêmios por essa atuação. Já em seu primeiro papel, o Gato na peça O Dragão, ela ganhou o prêmio de atriz revelação. Engana-se quem pensar que era um espetáculo infantil, tratava-se de uma fábula política que chegou até a enfrentar problemas com a censura, bem de acordo com o clima repressivo da primeira metade dos anos 70. Foi meio pelo lado da bagunça que o teatro começou a entrar na vida de Louise. É que ela costumava aprontar no colégio e para “domar” esse seu jeitinho lhe colocaram para organizar as peças que ali eram apresentadas. Logo estava no Tablado, a célebre escola de teatro de Maria Clara Machado (ela apontou o meu caminho na vida, me traçou a direção, ela diz) e não muito tempo depois ali dava aulas de improvisação. Havia pouca diferença de idade entre a professora Louise e seus alunos – ela chegou até a aumentar uns aninhos – e por suas mãos passou meia Globo, de Miguel Falabella a Fernanda Torres, para não estender muito a lista dos ex-pupilos.

 

Teatro e Cinema vieram praticamente juntos, mas a televisão teve de esperar um pouco. É que como a turma do teatro nos anos 70, ela tinha preconceito com o veículo. Foi a convivência com Ziembinski, o diretor polonês, que acabou com essa resistência e lhe abriu novas portas. Louise tinha medo de virar “papel de bala” e por isso sempre esteve atenta às escolhas profissionais. Estava nas capas de revistas como a mocinha da novela ao mesmo tempo que comandava seu grupo de teatro alternativo e atuava em todos os filmes que lhe interessavam. Uma trajetória nada a ver com a busca pelo estrelato – e chegou a recusar a mocinha de uma novela das oito que Janete Clair criou para ela – Se vivesse aquela heroína eu teria de dar adeus para as minhas outras atividades todas. Logo depois, estava no humorístico Viva o Gordo, trabalhando com uma turma de comediantes fantásticos, como Jô Soares, Costinha e Henriqueta Brieba. O temperamento conciliador e a capacidade de entender a cabeça das pessoas a levaram a abraçar a produção de seus espetáculos, a partir de Fulaninha e Dona Coisa, montado em 1990. Desde então a Louise Cardoso Produções Artísticas está em plena atividade.

 

O cinema é uma paixão e seu currículo tem 26 filmes, isso sem contar os curtas-metragens. E vem muito mais por aí. Em outubro de 2008 ela finalizava Do Começo ao Fim, de Aluisio Abranches e já se preparava para Tempos de Paz, de Daniel Filho, baseado na peça de Bosco Brasil. Entre os inesquecíveis está Leila Diniz. Mas como Louise Cardoso é uma criatura completamente peculiar, adivinhe em qual filme ela aprendeu muito sobre cinema? Foi em Os Vagabundos Trapalhões. Com o veterano J.B. Tanko descobriu tudo sobre lentes, numa espécie de cursos intensivos que ela, inventadeira de primeira, adora fazer. Outro capítulo é dedicado ao TV Pirata que inspirou o título A Mulher do Barbosa. Brinco que passei tanto tempo estudando teatro para ficar conhecida assim. Tanto tempo após o fim do programa ela continua sendo chamada assim nas ruas. 

 

O nome desse livro, aliás, demorou a surgir. Por algum tempo se chamou Mordida de Cobra, referência a um ditado antigo que seu pai usava para defini-la quando garota: elétrica, agitada, Louise parecia mordida de cobra. Mas o ditado se revelou enigmático e as pessoas não sabiam o que a expressão significava. Foi assim que voltamos a este A Mulher do Barbosa, que já tinha sido pensado lá no início e tem tudo a ver com a atriz que prioriza o jogo lúdico na arte de representar.

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