Bravíssimo | Leilah Assumpção por Eliana Pace

Publicado em: 17/07/2014

Introdução do livro “A consciência da mulher”, de Eliana Pace, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

 

Haja coragem para sentar diante da mulher que, há 35 anos, escreve sobre a nossa (minha e dela) geração, revelando o desenvolvimento da consciência feminina da metade do século XX para cá, e ter que anunciar: vou escrever sua autobiografia. Ela, animada, topa a empreitada – estou louca para falar – e logo me oferece, com dedicatória e tudo, um exemplar de Na Palma da Minha Mão, seu primeiro livro em prosa, que marca sua estréia na literatura, e que escreveu para poder se comunicar com a filha então adolescente: Tem elementos aí que você pode ir trabalhando.

 

Leilah Assumpção me amedronta porque ali, na verdade, há um relato biográfico ou, como ela mesma descreve em um dos capítulos, um pensador particular seu, quase um diário. Não – responde ela – esse é um jogo de sedução que fiz com Camila… Mãos à obra. 

 

Leilah tem como companheiro de vida, há mais de 25 anos, Walter Appel, financista e seu maior incentivador – ele se realiza artisticamente ao produzir algumas das peças da mulher; ela dedica seus trabalhos a ele. Camila, a bela filha do casal, é formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e se aperfeiçoa na carreira, inclusive no exterior. Recentemente, pregou um susto na mãe ao mostrar a Leilah seus primeiros textos – crônicas e contos – bastante elogiados em oficinas literárias que ela freqüenta. Próximo passo: um livro. 

 

Conversamos umas tantas vezes, sempre na belíssima e confortável casa da família, talvez seu primeiro lar físico, como ela apresenta, com direito a obras de arte e recordações de cenários, um récamier com panos, sedas e veludos, peixinhos vermelhos em um imenso jardim e um cachorro pequenino de nome destoante: Trovão. Foram entrevistas curtas, sucintas, porque a desenvoltura de Leilah se expressa com mais força em sua dramaturgia. Fechamos este livro em julho de 2004 e, no final de janeiro de 2005, ela me ligou pedindo que a ouvisse um pouco mais, pois havia colocado um ponto final na luta para desenvolver Ilustríssimo Filho da Mãe, a história de um homem tentando se libertar. Rubinho Ewald me deu seu aval para retomar o livro e tivemos novo encontro no início de fevereiro, quando, como amigas, antes de iniciarmos a última entrevista, festejamos, nós duas, a boa forma adquirida nos últimos meses. 

 

Leilah Assumpção é uma das personalidades mais fortes de uma geração de autores que cresceu na repressão política e social. Apesar da censura, esse grupo – José Vicente, Antonio Bivar, Consuelo de Castro, Mário Prata, Flávio Márcio e Naum Alves de Souza são alguns desses nomes – é responsável por um teatro de resistência feito de depoimentos valiosos das décadas de 60, 70 e 80 sobre a igreja, o sexo e o amor, o medo e a repressão. A produção dramatúrgica de Leilah Assumpção entre 1968 e 1970, quando nosso país vive a plena ditadura militar, marca o momento em que o teatro brasileiro se altera por conta das tensões sociais emergentes.

 

Leilah Assumpção batalhou pelos direitos das minorias, lutou pelos direitos humanos e participou de movimentos em defesa da mulher sem pudor de ser chamada de feminista. A vitalidade de sua obra está na composição de figuras femininas densas em busca do autoconhecimento e da auto-expressão, por meio das quais aborda os conflitos sociais, a conquista da liberdade sexual, os jogos de poder e o mundo em mutação. Na visão da Profª. Drª. Ana Lucia Vieira de Andrade, na obra Margem e Centro, 2006, Leilah Assumpção é um marco na dramaturgia. Com ela começa um diálogo com a mulher e com o feminismo. 

 

Além de peças teatrais, Leilah Assumpção incursionou pela televisão, escrevendo minisséries, casos especiais e telenovelas. Com Ilustríssimo Filho da Mãe, sua peça mais recente, ela acredita ter encerrado um ciclo de sua obra. 

 

Leilah Assumpção não se deslumbra com a fama e o sucesso, e a vaidade que se orgulha de cultivar é a intelectual. Continua colhendo elogios e prêmios no Brasil e no exterior – recebeu, por Fala Baixo, o Molière e o prêmio da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, também atribuído, em 2001, a Intimidade Indecente. Agora se prepara, com muita preguiça, como confessa, para rever cuidadosamente toda sua obra. As 11 peças em que discute o espaço público e privado da mulher, nas quais despontam alguns dos mais fortes personagens femininos da dramaturgia nacional, vão fazer parte de uma antologia com apresentação da crítica de teatro Carmelinda Guimarães. Afinal, são documentos de uma época marcada pela repressão e pela rebeldia à ordem constitucional estabelecida e, como tal, merecem estar disponíveis para consultas. 

 

A vida e o ofício de Leilah Assumpção estão neste livro, vistos por sua ótica. Acredito ter desempenhado nele o papel que me coube: o de recolher suas memórias para poder transmiti-las, com o máximo de fidelidade, aos seus mais ardorosos admiradores, entre os quais me incluo. O prazer de ouvi-la foi superado, apenas, pela confiança, generosidade e oportunidade de convívio.

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