Bravíssimo | Isolda Cresta por Luis Sérgio Lima e Silva

Publicado em: 08/05/2014

Introdução do livro “Zozô vulcão”, de Luis Sérgio Lima e Silva, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Leia a obra na íntegra)

 

Ela me escolheu para escrever sua biografia, e foi imantada em minha vida através de duas saudades queridas – Isabel Ribeiro e Norma Suely – também suas amigas. Acredito que essa escolha foi a partir delas, Isabel pelo livro que escrevi para a Coleção Aplauso, e Norma pelo site que fiz à curadoria. Isolda está presente nas duas estórias, é citada em Iluminada, e depõe em vídeo no Memorial Norma Suely: é você, quero que escreva meu livro, você tem tempo, você aceita?

 

Fiquei supersurpreso com o convite, mas estava ocupado, lançando o meu primeiro livro. Assim mesmo nos encontramos duas vezes em seu apartamento na Lagoa, e foi definitivo. Havia uma excitação nela, uma urgência em realizar, como que estivesse olhando o relógio do tempo. 

 

Fiquei impressionado com o esboço de sessenta páginas que começou a escrever nos anos 70 sobre sua vida, e que burilou no decorrer dos anos, o conteúdo, a riqueza de detalhes da narrativa e a sinceridade absoluta no tom coloquial que imprimiu, revelando uma estrada bem percorrida e uma chama de vida efervescente presente em cada momento. Vulcânica. Pedi que me desse alguns meses para me organizar, mas fomos atravessados por sua inesperada partida no dia 4 de abril de 2009. 

 

Era mesmo pra ser assim… 

 

A partir do material escrito pela própria Isolda, na primeira pessoa em todos os sentidos, e com a colaboração da sua filha Ana Christina, sobrinha, netos e amigos, mergulhei no universo de Zozô. 

 

Era uma vez… 

Isolda da Costa Pinto nasceu em São Paulo no dia 18 de junho de 1929. Filha do engenheiro João Baptista da Costa Pinto e de Rosetta da Costa Pinto, carioca filha de emigrantes italianos, professora de piano e cantora, ela é a segunda filha do casal, antecedida pelo Maninho, Ivan da Costa Pinto, oito anos mais velho. Bem-nascida, foi criada em berço de ouro na zona sul do Rio de Janeiro, onde passou a infância e adolescência, e se casou com o médico mineiro Miguel Renato de Andrade com quem teve duas filhas: Ana Christina e Ângela Vitória. Até aí brincou de casinha, até aí levou uma vida comum como tantas moças do seu tempo. 

 

Com as filhas chegando na adolescência, aconteceu uma guinada no seu processo de vida: nasceu a paixão pelo teatro, a descoberta da identidade de atriz que aflorou no seu íntimo. Rompeu com o casamento quando o marido colocou obstáculo, e assumiu o nome artístico de Isolda Cresta, sobrenome em homenagem ao bisavô Fortunato Cresta. 

 

O temperamento de atriz já rondava Isolda em muitos momentos de uma vida familiar bastante movimentada. Em criança, gostava de ficar doente para ser o centro das atenções, assim como no dia a dia expressava seus sentimentos com espontânea dramaticidade. Quando a vida corria tranquila, vivia uma comédia de costumes, quando a barra pesava, uma tragédia grega tomava conta de seu mundo. 

 

Mas a opção pela carreira de atriz veio de encontro a isso, e ela se soltou, se encontrou como mulher e fez desabrochar um talento inato até então em ebulição. O senso de justiça e a solidariedade que exercitou na juventude como voluntária da obra social da Igreja Santa Margarida Maria, na idade adulta a transformaram numa autêntica guerrilheira dos inesquecíveis anos de chumbo da ditadura militar. Este momento de ruptura com a vida burguesa, seguida da opção pelo teatro e pela militância política, marca o início deste livro. 

 

Deixo o leitor com a palavra da biografada, seu temperamento impetuoso, ardente e corajoso, qual uma rocha magmática natural que se derrama na superfície da terra, cuspindo fogo, assumindo atitudes e encarando a vida com intensidade avassaladora. 

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