Bravíssimo | Irene Stefania por Germano Pereira

Publicado em: 06/03/2014

Introdução do livro “Arte e psicoterapia”, de Germano Pereira, para a Coleção Aplauso (Leia a obra na íntegra)

 

Dois olhos azuis

Quando falei para a Irene Stefania que a Imprensa Oficial, por meio da indicação de Rubens Ewald Filho, queria fazer uma biografia de sua vida, ela não acreditou. Ficou calada durante alguns segundos. Depois de uma semana veio me dizer que não queria, estava agradecida, mas preferia recusar. Olhando para o seu rosto sardento (por sinal, não muito diferente do meu), que emoldurava os seus profundos olhos azuis que protagonizaram filmes como Lance Maior, O Mundo Alegre de Helô, Cléo e Daniel, senti-me no dever de convencê-la. Afinal, eu sabia, pelas pesquisas que fiz, que Irene foi por uns poucos anos uma unanimidade nacional. Uma raridade: uma autêntica estrela de nosso cinema (não de televisão), de que todo mundo gostava, admirava, premiava. E que no auge da carreira, por razões até então misteriosas, tinha dado uma de Greta Garbo e abandonado a vida artística. Por que razão? 

 

Qual o mistério que se escondia por trás daqueles fascinantes olhos azuis? Não digo que foi fácil convencê-la. Reclamei seu lugar na história de nosso cinema, argumentando o fato de que este é um país sem memória, de que ela tinha muito a contar, que seus admiradores nunca a esqueceram. Que ela foi o primeiro amor de muito jovem dos anos 70. Não sei o que a fez mudar de ideia, qual foi a minha persuasão. Lembro-me de dar um forte abraço e selarmos nosso novo trabalho juntos. 

 

Conheço Irene desde 2001. Trabalhamos juntos em Antígona, de Sófocles, numa montagem do Grupo Os Satyros, dirigido por Rodolfo García Vázquez, onde ela interpretava a Mãe Eurídice. Mas foi só no começo de 2006, quando estávamos atuando novamente juntos em De Profundis, texto de Ivam Cabral, a partir da obra de Oscar Wilde, direção também do Rodolfo, em cartaz no Espaço do Satyros, que aconteceu este livro. 

 

Foi um processo muito instigante para mim. Não se esqueçam que Irene como psicoterapeuta profissional está mais acostumada a ouvir do que falar. Tem ouvidos superapurados, treinados. A gente se reunia na sala de sua casa, ocasionalmente na cozinha, num bairro arborizado de São Paulo. Era sempre no começo da tarde e o ritual começava com café e bolachas. Sempre que fazia uma pergunta mais séria, ela ficava um tempo pensando. E respondia com a maior seriedade e lucidez. Quase como se estivesse se analisando. Não como atriz, fazendo pose ou cena, mas como um ser humano interessado em se conhecer melhor, se aperfeiçoar. Foi assim que pude me aproximar mais de seu trabalho e de sua trajetória. Por vezes como espectador/contemplador. Depois, quando chegou a hora de rever o material digitado, Irene foi de extremo rigor. Sempre com delicadeza, procurava a palavra exata, a expressão correta para cada situação. 

 

Outro momento marcante foi quando, com a ajuda de sua filha, Irene foi selecionando as fotos de sua vida (um momento que não esqueço foi algo que ela me contou: o pedido da filha, que colocássemos uma foto de Irene lendo o jornal. Era para representar uma faceta dela. Irene é uma leitora voraz de jornais. Motivo de brincadeiras na família e até do Toco, o cachorro deles). 

 

Irene é uma pessoa fascinante. Defino sua trajetória como uma ou várias buscas do essencial. Ela, tanto na arte como na psicoterapia, atravessa aquilo que aparece como obstáculo aparente e vai em busca de algo primordial. Não foi à toa que deixou o cinema quando estava no seu auge. A pornochanchada tinha tomado muito espaço no cinema brasileiro e Irene não queria protagonizar esses filmes. Isso não quer dizer que havia um preconceito nesta sua postura. Não. Porém, além de não lhe apetecer, queria algo mais estimulante para o ser. 

 

Estava preocupada com questionamentos mais sérios, mais humanos e num âmbito universal. 

 

Precisava encontrar a Psicologia. Irene queria apreender si própria, o outro e o mundo. 

 

Esta biografia não é apenas um relato de acontecimentos históricos de sua vida. Ela é também uma reformulação de todo o seu passado, através de um olhar vivo e presente. Significados atribuídos por experiências já atravessadas tomam maior valor com a sabedoria adquirida. Isso era muito consciente no seu posicionamento, em cada pergunta minha, buscava, não somente no arquivo do passado, aquela situação específica, mas também o que sentia, intuía e pensava atualmente sobre os diversos fatos. Acredito que somos duplamente beneficiados. No primeiro momento, ela nos dá o relato das experiências no seu sentido factual; num segundo momento, ela nos dá a análise pormenorizada e fenomenológica de como atribui valores a esses fatos subjetivos. 

 

Isto é visto sem divisão alguma, mas como um todo. Sua análise de se autobiografar se aproxima, guardadas as suas devidas proporções, de um aforismo de Nietzsche, O fato em si não existe, tudo é interpretação. 

 

Irene mensura-se numa perspectiva ampla: É a atriz, é a psicoterapeuta. Mas ela não é só isso, arte e psicoterapia, que são as formas de dois veículos que utiliza para trafegar neste mundo. Irene transcende seus próprios rótulos. Antes de qualquer coisa é uma pessoa que está preocupada com o mundo, quer entendê-lo, busca uma expansão do ser. O cinema, por um momento, ficou sem uma estrela, mas Irene se tornou um ser humano muito mais completo, realizado, pleno. E como uma estrela brilha por muitas eras, Irene ressurgiu no teatro, no cinema e nos oferta, restabelece o seu encanto.

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