Bravíssimo | Ilo Krugli por Ieda de Abreu

Publicado em: 20/03/2014

Introdução do livro “Poesia rasgada”, de Ieda de Abreu para a Coleção Aplauso (leia a obra na íntegra)

 

 

Ilo Krugli e o Teatro Ventoforte se misturam.

 

Ao se deter sobre a vida do argentino naturalizado brasileiro Ilo Krugli, 78 anos, fundador e diretor do Teatro Ventoforte, a Imprensa Oficial expõe ao público uma referência para todos os grupos que trabalham com a linguagem da animação e a arte-educação no Brasil. 

 

Instalado com seu teatro no tombado Parque do Povo, no bairro paulistano do Itaim, Ilo Krugli, nascido Elias Kruglianski, está no Brasil há mais de 30 anos. Filho de judeus poloneses que imigraram para a Argentina, passou a adolescência em Buenos Aires. 

 

Com uma vida plena de aventuras e descobertas, deixou seu país em 1959 para, como muitos de sua geração, fugir do eurocentrismo. Percorreu a América Latina, escolheu ficar no Brasil, mas não abandonou as periódicas viagens pela Eu­ropa e Américas. 

 

Esteve no Chile dirigindo o grupo de teatro Manos, dissolvido pelo exército de Augusto Pi­nochet. Às vésperas do golpe, ouviu de Salvador Allende em conversa rápida: Eu gosto muito de crianças, também sou uma criança que às vezes gosta de jogos perigosos. Embora reconheça que em todos os países latino-americanos houve golpes de Estado, espera não ver jamais o que se passou no Chile em 1973. 

 

Anos depois, no Rio de Janeiro que sempre o encantou, contava a História de um Barquinho basicamente com as mãos, mostrando a flor Irupê e a breve vida da borboleta. 

 

No Rio conviveu e trabalhou com intelectuais que contribuíram para fortalecer seus talentos, como os educadores Augusto Rodrigues e Anísio Teixeira, o poeta Ferreira Gullar, a psiquiatra Nise da Silveira, todos em volta da Escola de Arte do Brasil (EAB). 

 

Foram as apresentações do Teatro de Ilo e Pedro, em 1966, durante os festejos de inauguração do Parque do Aterro do Flamengo, que deram origem ao Teatro de Fantoches e Marionetes Carlos Werneck de Carvalho. Ilo Krugli orientou a construção desse teatro, criando um palco adaptável a diferentes técnicas de bonecos, de acordo com a época. O Carlos Werneck foi reinaugurado em 1995 e o sucesso de seus projetos levou a Secretaria da Cultura a criar a Coordenadoria de Teatro de Bonecos e Animação. 

 

Foi também no Rio que o dramaturgo inaugurou uma nova maneira de pensar o teatro, que considera, antes de tudo, uma forma de conhecimento. Tudo começou com o trabalho em educação que realizou na periferia do Méier, no Centro de Arte e Criatividade Infanto-juvenil. Mais interessado em cruzar os portões da escola, Ilo e seu grupo vão para a comunidade e fazem a festa, na tentativa de eliminar a distância entre quem faz e quem vê. 

 

Os espetáculos do Ventoforte sempre abrem em direção ao público, à festa popular. Algumas montagens de As Pequenas Histórias de Lorca terminavam na rua. O Mistério das Nove Luas começava na porta dos teatros. 

 

Nos anos da ditadura militar, Ilo está no palco com Histórias de Lenços e Ventos, peça que mar­cou a trajetória do teatro para crianças no Brasil. Utilizando bonecos, lenços, latas, instrumentos musicais e objetos, o grupo conta a história de Azulzinha (um lenço) e seu amigo Papel (um pedaço de jornal) que enfrentam o poder do rei Metal Mau. Sem impostação e ambientada nos quintais da infância, a peça fala de liberdade, afetividade e uma vida melhor, baseando-se em textos de autores como Federico García Lorca e Victor Hugo.

 

A aventura de Ilo Krugli e o Teatro Ventoforte é, principalmente, estética. Foi a sua força poética transportada para o palco que introduziu um jeito de conversar com crianças e adultos, circulando com naturalidade nos dois universos. E esse jeito tornou-se um exemplo e uma referência para várias gerações de artistas e educadores. 

 

A busca das raízes do homem sempre foi uma preocupação do Ventoforte. Como a nossa sociedade é fruto da união das mais diversas culturas e povos, a criança pode ser a raiz, porque é uma coisa verdadeira, é a cultura arcaica, primitiva do homem, diz Ilo. Seguindo essa linha, o trabalho com crianças e jovens tem sido alimento para as encenações, elemento de ligação entre o homem e o mundo. Com isto, conquisto o fundamental para sobreviver e continuar. 

 

Em meio às circunstâncias políticas e à trajetória pessoal do seu fundador, o Ventoforte surgiu em 1974 como um teatro de resistência. Suas peças falam das realidades mais cruéis e agitam sempre a bandeira da liberdade. Mas sem panfletismo e sim como metáfora poética, esclarece o diretor, que cita Lenços e Ventos, História de um Barquinho e as Quatro Chaves como exemplos dessa escolha temática. 

 

Foi o caráter de resistência que fez o Ventoforte ser um dos ganhadores do Prêmio Teatro Cidadão (2002), instituído pelo Departamento Municipal de Teatros. São mais de 40 prêmios ganhos ao longo de três décadas, 30 peças, inúmeras viagens por países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Premiado em Cuba, o grupo irá representar o Brasil nos palcos da Holanda, Bélgica e Itália, entre março e abril de 2006. A premiada Bodas de Sangue será apresentada no Wereld Musiek Theater Festival (WMTF), evento europeu que ocorre desde 1996 e mostra produções de músicos e artistas de outros continentes. 

 

Enfrentando constantes dificuldades para manter o espaço no Itaim, cedido pela Caixa Econômica Federal, Ilo Krugli realiza ali oficinas para formação de novos talentos, acolhe outras trupes, atende à comunidade em volta, e ainda faz apresentações grátis de seu premiado repertório. Nesses 50 anos de carreira, por suas mãos já passaram mais de 300 atores.

 

Nesses tempos em que cada vez mais os espaços são determinados e condicionados por processos econômicos dependentes e produtos culturais impostos e massificados, o Ventoforte consegue produzir peças em um cenário independente. 

 

Música, dança, invenções e poesias compõem o teatro desse diretor, dramaturgo, ator, poeta e artista plástico. Em meio a retalhos, sucatas, bordados, bonecos, atores e público, ele vai tecendo o espírito de festa que caracteriza suas apresentações. Cada peça é uma aventura que envolve, diverte e faz pensar. Como poucos, Ilo realiza a magia do teatro de animação, seres inanimados criam alma e vida, sejam bonecos sofisticados no palco e na plateia, ou simples objetos como uma folha de papel à mercê dos ventos ou da mão pesada do homem. Suas palavras, ao contrário da elaboração estereotipada de alguns textos infantis, falam da vida com vitalidade. De forma simples e delicada, o Ventoforte trabalha com a substância intrínseca (e muitas vezes esquecida) de cada um de nós, abordando questões difíceis, como as desigualdades, os sonhos e as angústias dos humanos, chamando as crianças (principalmente elas) para uma participação especial na construção de um mundo melhor.

 

Como Lorca, Villafane e outros famosos poetas andarilhos, Ilo Krugli é o artesão paciente, o criador de verdadeiras joias onde se esconde a alma das coisas e dos seres. Como costuma dizer, fazemos teatro para que os nossos pés e mãos não esqueçam sua longa e maravilhosa história de artesãos do movimento da alma do homem no amar e criar.

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