Bravíssimo | Dina Lisboa por Maria Aparecida Morais Lisboa

Publicado em: 12/12/2013

Apresentação do livro “Moldando emoções… A vida me fez assim… Atriz, mulher de teatro”, de Maria Aparecida Morais Lisboa, para a Coleção Aplauso (Leia a obra, na íntegra)

 

 

(…) Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E saber que será assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue.

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade.

És tu. 

(Cecília Meireles, Cântico II) 

 

 

Só a magia da arte nos faz lembrar o que existe lá no fundo e com ela vem a estranha sensação de estarmos ligados à alguma pessoa, a algum lugar, com gosto de saudade. Coisas presentes que nos abrem o mundo das ausências… saudade não seria isto? 

 

Quando as coisas despertam e fazem brotar no coração, surgem a mágica, os fios das lembranças, os fios invisíveis da saudade e da esperança e, a partir dali, no lugar presente, temos nos olhos, a marca da esperança. 

 

Como deve ser com qualquer um que ame e esteja longe e nada tenha nas mãos, a não serem palavras, memórias… 

 

O mergulho nestas experiências do passado, nestas lembranças, transforma a redação deste livro num grande desafio: reelaborar o caminho da atriz Dina Lisboa pelas veredas das artes cênicas. Como recriou formas de agir, de pensar e as incorporou no campo artístico. 

 

A partir da década de 1930, como mulher interiorana, Dina desenvolveu estratégias que lhe permitiram um ajustamento às circunstâncias do mundo das artes, como revelam Coisas Minhas dentre tantos muitos guardados que, certamente, gostaria de que existissem para sempre. 

 

Num exercício laborioso, fecundo, construiu nas artes cênicas um modo exclusivamente seu de se viver, moldou emoções e impressões pertinentes a tudo a seu derredor.

 

Uma figura de mulher obstinada, convicta, altruísta, de espírito generoso, com muita propriedade inclinou-se para o ofício da teatralidade. 

 

Representar. Representar sempre! Numa imensa capacidade de doação de si mesma, conseguiu ultrapassar os próprios limites. 

 

Na Escola de Arte Dramática de São Paulo – EAD, constatou-se o avanço na aprendizagem de uma arte que possibilitou à Dina um reencontro com sua plenitude e realização pessoal e, o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC, se constituiu então, como uma oportunidade a mais para se colocar em dia consigo mesma, enfatizando a relação do seu papel de atriz com compromisso social e cultural de cidadania. 

 

Autores, diretores, companhias teatrais, cole-gas… com eles, por eles e por intermédio deles, Dina lapidou a sua arte e demonstrou uma postura de luta dentro da história, sabendo que por meio do seu trabalho imprimia sua marca, seu estilo, rompendo às vezes com as normas vigentes. 

 

Críticas, prêmios… Dina marcou o protagonismo feminino no campo das artes cênicas com seus traços fortes e modernos. Tornou-se uma figura de vanguarda na Comissão Estadual de Teatro, na defesa da sua classe artística e, importante personalidade na construção e desenvolvimento do Teatro Infantil, culminando com a realização do I Festival Paulista de Teatro Infantil. 

 

Muita arte se produziu no seu tempo. Muitos outros atores e atrizes também se celebrizaram, a maioria registrada na Coleção Aplauso, confirmando que o expressionismo artístico foi um importante veículo condutor de um processo evolutivo, o qual eliminou paulatinamente em todos os segmentos sociais as desigualdades determinadas pela diferença de gênero. 

 

Na complexidade do universo socioeconômico político e cultural foi possível fazer das artes cênicas a atuação construtiva do ser humano, isso possibilitou a Dina interferir nela, construindo e desconstruindo, enfim, refazendo o sentido da vida, de pujança e de produção. 

 

Nesse criar e recriar que a vida artística lhe proporcionou, Dina se sobrepôs às vaidades, às intrigas, aos egoísmos e ao esquecimento… tornando o seu refúgio em Angatuba, a condição ímpar de continuar a viver. A vontade, no entanto, muda de rumo. 

 

Portanto, escavando um vasto acervo de relíquias familiares guardadas num antigo baú, driblando o pó do tempo é que vamos reconstruir o tempo da atriz Dina Lisboa.

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