Bravíssimo | Cleyde Yáconis por Vilmar Ledesma

Publicado em: 07/11/2013

Apresentação do livro “Dama discreta”, de Vilmar Ledesma para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, de 2004 (Leia a obra, na íntegra)

 

Depois de alguns telefonemas, encontrei Cleyde Yáconis no primeiro dia de outubro de 2003. Ela mora em Jordanésia, pertinho de Jundiaí, a 40 km do centro de São Paulo, e aproveitou uma reunião de trabalho para nos conhecermos e conversar sobre o livro. Ao meio-dia, exatamente o horário combinado, ela apareceu. Cleyde é pontualíssima e detesta atrasos. Vinha à cidade acertar seu próximo espetáculo, cujo título mantém em segredo. Só adiantou que era uma peça de época e sobre corrupção. 

 

O cenário desse encontro inicial foi numa doceira no bairro do Itaim, próximo ao Teatro Escola Célia Helena, o local da reunião da atriz. Rosto limpo, nada de jóias e muito menos afetações de grande dama do teatro brasileiro, ela está longe de aparentar os 80 anos que completaria um mês depois. O porte é de rainha, mas Cleyde Yáconis é toda simplicidade. Nossa primeira conversa durou quase uma hora e ela bebeu um ice tea gelado, isso porque não tinha natural. Nossa conversa só foi interrompida quando Cleyde viu um passeador de cachorros, segurando pela coleira vários au-aus, e ficou observando atenta a passagem da trupe. Cleyde adora cachorros e seu xodó é Felipe, que reina na casa de Jordanésia, e tem três filhas. Depois de uma hora de conversa, acompanhei-a até o estacionamento e ela saiu dirigindo rumo à sua casa. Cleyde adora dirigir e, como prefere evitar avião, enfrenta a estrada sempre que está gravando novela ou fazendo teatro no Rio. 

 

Cleyde marcou o nosso próximo encontro para dali a três dias, no começo da tarde do sábado, em sua casa. A casa da atriz fica numa rua sem saída, construída no centro do amplo terreno, rodeada de árvores frutíferas, roseiras, hortênsias e o muro coberto de azaléias. “Conhece lixia?”: é com zelo e carinho que ela apresenta suas árvores. E como trilha sonora tem sempre o cantar dos pássaros. 

 

No interior da residência, simples e confortável, Cleyde reservou uma parede para cada uma das mulheres de sua vida: a mãe e as duas irmãs, as três já falecidas. Na sala de estar, em frente a uma janela bem iluminada, estão fotos dos principais trabalhos da irmã Cacilda Becker. Num canto da mesma peça, uma parede menor tem fotos de espetáculos dela, umas cinco ou seis, as que ela mais gosta. Os retratos da mãe Alzira e da irmã Dirce estão na parede dos quartos. Em cima de uma cômoda, objetos que a mãe adorava, como uma gaitinha de boca, que foi presente de um namorado dela. 

 

Foram quatro sessões de entrevistas, algumas vezes com mais de um mês de pausa entre elas, e a última na metade de dezembro. Todas começaram praticamente do mesmo jeito. Era eu chegar, sempre nas primeiras horas da tarde, tocar a campainha e esperar o caseiro abrir o portão. Cleyde estava sempre na varanda, escorada na mureta, emoldurada pelos galhos de plantas. Depois dos cumprimentos, sentávamos no sofá da sala para a conversa. Com aquela voz grave, pausada e marcante, ela não é do tipo que recusa perguntas, embora não seja de falar muito e tenha um jeito todo especial de ser modesta. 

 

No final da primeira sessão, fui presenteado com um pote de geléia de jaboticaba, deliciosa, preparada pela própria Cleyde. E quando acabou outra, acho que a terceira entrevista, numa tarde especialmente calorenta, Cleyde precisava ir até a ótica, ali pertinho, e ofereci uma carona. Cleyde, Dadá (que foi babá do filho de Cacilda e acompanha a família há mais de 50 anos) e o cachorro Felipe foram me apresentar a principal atração turística de Jordanésia, o caipiródromo. É uma espécie de ginásio, localizado num terreno imenso e, ela me informa, passa quase todo ano inativo, com exceção de uma semana, quando se apresentam por lá os artistas sertanejos, daí o nome caipiródromo. “Pode um lugar que não tem nem atendimento médico para a população gastar dinheiro com essas coisas?”, ela observava.

 

Cleyde é assim, cheia de preocupações sociais e indignada com as tramóias do poder. E se mantém ativíssima aos 80 anos e 53 de teatro. Um mês antes de nosso primeiro encontro ela esteve em Salvador para receber o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte, este ano dedicado ao teatro. No dia da última entrevista, confirmou por telefone sua presença na cerimônia de entrega da Comenda da Independência, concedida pelo governo do estado de São Paulo. E alguns dias depois, saía o resultado da premiação da Associação Paulista de Críticos de Arte, e Cleyde levou o Grande Prêmio da Crítica de 2003. 

 

Na primeira semana de janeiro de 2004 estive com ela para deixar uma cópia deste livro e uns dez dias depois, numa tarde de sábado, voltei para conversarmos a respeito. Ela não pediu para cortar nada, apenas, íntima do português, sugeriu mudanças em algumas frases que estavam de maneira muito coloquial e pareciam sem sentido. Claro que ela tinha razão.

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