Bravíssimo | Cecil Thiré por Tania Carvalho

Publicado em: 28/11/2013

Apresentação do livro “Mestre do seu ofício”, de Tania Carvalho, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, de 2009 (Leia a obra, na íntegra)

 

Cecil Thiré é do tipo low profile – o que hoje em dia é um estilo em desuso. Não gosta de se expor, não vê muito sentido em ficar falando sobre si mesmo. Por isso mesmo hesitou em fazer este livro. Será que tenho alguma coisa para contar? Uma rápida olhada em seu extensíssimo currículo dissipa qualquer dúvida. Cecil tem bastante a contar. Produtor, diretor, ator, tradutor e até mesmo coreógrafo, Cecil faz de tudo em teatro. No cinema, participou do Cinema Novo à chamada pornochanchada – dirigiu, atuou e fez roteiros. Em televisão, começou como galã, passou pelo humorismo como ator e diretor e fez alguns vilões memoráveis como Mário Liberato de Roda de Fogo e o assassino Adalberto de A Próxima Vítima. Além disso, é professor há mais de vinte anos. Gosto de me definir como um intermediário. Sou tradutor, diretor, ator, produtor, eu estou entre a obra e o espetáculo. Mesmo quando sou professor eu estou entre a arte e o aprendiz. 

 

Nossos encontros começaram em julho de 2008, logo depois que terminei o livro de sua mãe, a diva Tônia Carrero. Uma feliz coincidência apenas. Já havia falado pela primeira vez com Cecil pelo telefone em janeiro de 2008, antes de começar o livro de Tônia. Mas compromissos de trabalho, a direção de uma peça em São Paulo, adiaram a nossa agenda.

 

Em fevereiro comecei as conversas com Tônia, que se encerraram em julho, originando o livro Movida Pela Paixão, também da Coleção Aplauso. Em seguida, imbuída dos segredos da família Portocarrero comecei a conversar com Cecil. É claro que imaginava que uma biografia teria tudo a ver com a outra. Surpresa. Embora Cecil e Tônia tenham trabalhado muitas vezes juntos, ele construiu a sua carreira de forma muito sólida longe dela. Contando com a sua generosidade em diversos momentos, o que ele fez questão de ressaltar inúmeras vezes, mas não dependendo dela. Se no começo muitos se referissem a ele como o filho da Tônia, em pouco tempo ele foi firmando a sua reputação, conquistando os espaços até se consagrar definitivamente como o diretor de peças premiadas, como A Noite dos Campeões, A Resistência, entre tantas outras, que marcaram os anos 70. 

 

As nossas conversas foram realizadas na minha casa. Eu e Cecil somos quase vizinhos, ambos moradores do Leblon. No nosso quarto encontro, Cecil questionou o que chamou de bom mocismo. Para os que pensam que com isso Cecil resolveu colocar lenha na fogueira das vaidades alheias, ledo engano. Eu acho uma inutilidade legal ficar falando bem de todo mundo, enaltecendo o que já foi enaltecido pela crítica, não vejo lá muito objetivo nisso não. Quero espalhar um pouco de brasa. Não é falar mal de ninguém não, mas falar mal de mim. Afinal ninguém está mais autorizado do que eu para isso. E se eu falo mal de mim, também posso criticar algumas outras coisas. Leitura edificante é uma pasmaceira. 

 

Com a opção de falar o que pensa ou ser político, Cecil marcou a primeira. Embora tenha ponderado sobre o assunto, como faz habitualmente: não se deve sempre falar a verdade, a não ser na infância, quando a gente se habitua a ela. É preciso que os pais saibam se você escovou os dentes, atravessou a rua, comeu – é uma questão de segurança. Quando a gente cresce demora muito a entender que o legal não é dizer sempre a verdade, mas sim a coisa certa. Acho que não aprendi até hoje. 

 

Foi com extrema sinceridade e refinado humor que Cecil contou as desventuras que ocorreram em sua carreira quando ficou careca; a fama de homossexual que o perseguiu durante anos depois de ter interpretado Mário Liberato em Roda de Fogo; a enorme quantidade de cornos elegantes que fez em sua carreira. Para quem se engana com o jeito sério de Cecil – e, confesso, ter sido sempre uma dessas pessoas – será uma ótima surpresa descobrir seu fino senso de humor. Sou um comediante. A seriedade só existe nos traços do meu rosto. Algo com que não posso lutar. Eu sou carrancudo, e todo mundo supõe um rigor que eu realmente não tenho. Sou uma pessoa rigorosa, sou cumpridor, sou Caxias, chego na hora, essas coisas todas, mas eu não sou tão exigente quanto pareço. 

 

Quando o assunto, porém, é interpretação, Cecil fica sério. Ele se mostra contra o que é usual na interpretação dos atores brasileiros, o método sem método de tentativa e erro. Obsessivo quando se trata de entender o interpretar, Cecil é realmente um mestre do seu ofício – daí o título do livro. Em muitos momentos da entrevista, ele demonstrava seus pensamentos, em vez de somente descrevê-los. Como chorar, como decorar, como entender um personagem, como criar algo totalmente inesperado. Há mais de 45 anos no ramo, sendo que nos últimos 20 dedicados também a ensinar, ele mostra neste livro toda a sua jornada em busca de entender os meandros da interpretação. E adianta para todos que se interessam pela arte de interpretar um trecho de seu método de interpretação, que será publicado em breve e virou o último capítulo deste livro. 

 

Interpretar, segundo Cecil, se resume em uma simples frase: É querer o que o personagem quer. 

 

Simples assim, mas de uma sofisticação… Assim é Cecil. Aproveite!

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