Bravíssimo | Carmem Verônica por Cláudio Fragata

Publicado em: 03/04/2014

Introdução do livro “O riso com glamour”, de Cláudio Fragata para a Coleção Aplauso (leia a obra na íntegra)

 

 

Em primeiro lugar, Carmem Verônica tem chic, para usar uma expressão dela mesma. Em segundo, tem um timing inacreditável para o humor. E, como terceiro e decisivo ingrediente da receita de seu sucesso, tem um talento imenso. A combinação a consagrou na TV dos anos 1960, quando compunha, nos famosos humorísticos de época, madames afetadas e HI-LÁ-RI-AS, para usar outra palavra de seu repertório.

 

A carreira de Carmem começou bem antes dis-so. Com o corpo escultural que Deus lhe deu, estreou no mundo artístico como vedete de Carlos Machado, o mestre do teatro de revista e rei da noite carioca dos anos 1950. O que vale dizer, da Capital Federal, então situada no Rio de Janeiro. Carmem mexeu com a fantasia de políticos, grã-finos e figurões da época, a fina flor do café society que frequentava o Monte Carlo e o Casablanca, as célebres casas de Machado. 

 

Mexeu só com a fantasia mesmo. Jamais levou seu sex appeal a leilão. Carmem é o avesso da ideia que os preconceituosos fazem de uma vedete. Nunca sucumbiu ao poder dos coronéis, como ela conta nesse livro. Responsável, disciplinada e dedicada, considerava o teatro de revista como arte e profissão. Casada há mais de 50 anos com o mesmo homem, ainda hoje não gosta de ser chamada de vedete. No máximo, tolera ex-vedete. Acha que a palavra contém significado pejorativo. 

 

Não concordo muito com isso. Se é que já foi assim um dia, o depreciativo se perde na distante moral dos anos 1950. De Virgínia Lane a Sandra Bréa, as vedetes fazem parte da mais carinhosa memória coletiva. Em nossos encontros, nunca discuti isso com Carmem. Respeito sua opinião. A gente deve sempre respeitar as opiniões de uma diva. E ela foi e sempre será uma diva. Seja do rebolado, seja do teatro, seja da televisão. 

 

Infelizmente, não a vi brilhando como vedete, nem nos palcos de Carlos Machado, no Rio, nem no Teatro de Alumínio, em São Paulo. Com certeza, caso isso houvesse acontecido, eu seria encaminhado ao Juizado de Menores. Minhas primeiras lembranças de Carmem Verônica vêm da televisão, no auge da TV Record de São Paulo, quando já era um adolescente. Vêm de suas impagáveis aparições em programas como Família Trapo, Show do dia 7 ou Praça da Alegria. E essas lembranças fazem parte dos melhores momentos de minha juventude. 

 

Basta fechar os olhos para que a veja chiquérrima, de vestido preto, luvas à la Rita Hayworth e uma longa piteira na mão, interpretando com voz melosa – mas que é a voz natural dela – uma de suas incontáveis ricaças que faziam o Brasil gargalhar. Sempre belíssima – e aqui não vai nenhum trocadilho com a telenovela de Sílvio de Abreu, que a traria de volta ao vídeo, décadas depois, com estrondoso sucesso popular. 

 

Peguei a ponte aérea para entrevistá-la no Rio de Janeiro. Nosso primeiro encontro foi em seu belo apartamento, no Alto Leblon, atulhado de plantas: Aqui não é a Floresta da Tijuca, mas é quase, meu querido! E foi logo me avisando que desconfia um pouco de gente que não gosta de plantas e animais. Entendi como um bom sinal. Também gosto de plantas e animais. Começava a entrar com o pé direito no mundo de Carmem. 

 

Foram três dias de conversas. De conversas e muitas risadas. Ela fez questão de registrar assim nosso encontro inicial: Primeira parte, hoje é uma sexta-feira, tarde de um dia assim meio Bélgica, não está chovendo, mas também não está um sol senegalês. Vamos começar falando da minha entrada no mundo do rebolado, como diria meu amigo Sérgio Porto. E lá fomos nós. 

 

Carmem me contou histórias e mais histórias. Falou-me da infância. Da carreira. Da glória de ser uma das Certinhas do Lalau, a lista de mulheres deslumbrantes escolhidas a dedo por Stanislaw Ponte Preta, codinome de Sérgio Porto. Um time de mulheres lindas, esculpidas pela natureza, sem a enganação do silicone e do botox. A conversa só era interrompida pelas intervenções do pequinês Ching Ling II (sucessor do Ching Ling I), que vinha reclamar a atenção da dona. Ao fim do terceiro dia, tínhamos mais de dez horas de gravação. 

 

Carmem correspondeu ao que eu imaginava. Uma pessoa com o astral lá nas nuvens. E olha que ela ainda se ressentia das dores do acidente que sofreu – um táxi em alta velocidade quase lhe moeu os joelhos. Mas sentia-se revigorada. Voltei a ser bípede, informou-me, fazendo graça, referindo-se à bengala, ao andador e à cadeira de rodas postos de lado porque já desnecessários. Não guardava rancor do taxista que a atropelou: Minha perna vai curar mais depressa se eu ficar maldizendo esse homem?

 

Uma surpresa me esperava na hora da despedida. Carmem disse-me que não havia falado nem metade do que tinha para contar. E quando mencionei nossas muitas horas de gravação, ela retrucou: E você acha que uma vida como a minha cabe em apenas dez horas de conversa? Fazia sentido, mas… 

 

Meses depois, repetimos outra rodada de três dias de entrevistas. Dessa vez, em São Paulo, na casa da atriz Iara Jamra, onde Carmem se hospedou. Amigas desde os tempos de Prima Rica e Prima Pobre, o quadro que fizeram juntas no programa Zorra Total, Carmem aproveitou a estada paulista para fazer uma coisa que gosta muito, mas que faz só quando tem vontade: cozinhar. 

Preparou-nos um delicioso bacalhau ao leite de coco, que transformou nosso almoço de domingo em um momento inesquecível de confraternização e alegria. Dele participou todo o elenco da comédia na qual Iara atuava, porque todos queriam conhecer Carmem de perto. A diva do riso com glamour.

 

Ver este livro pronto me dá um sentimento de dever cumprido. Mas dever cumprido na boa. Com uma profunda gratidão pelas risadas que Carmem me fez rir na vida. O que eu mais quero agora é que as novas gerações saibam de Carmem Verônica. E riam com ela também.  

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