Bravíssimo | Berta Zemel por Rodrigo Antunes Corrêa

Publicado em: 15/08/2013

Apresentação do livro “Berta Zemel – a alma das pedras”, de Rodrigo Antunes Corrêa para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2009 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

Dei uma volta ao mundo de Berta
e alguns mistérios chegam aqui.
Vivi um delicioso e fascinante tempo.

Em cena Berta sempre surpreende. Delicada e profunda, sutil e reveladora, minuciosa, artesanal e poética. Incorpora os vários lados da figura que cria. Apropria-se da criatura, ou melhor, é tomada por outra pessoa e, como uma criança feliz, brinca na representação. É uma arqueóloga, uma garimpeira, uma escultora, uma guerreira, uma menina-anjo descobridora das almas escondidas nas pedras (seus personagens preferidos, com interiores múltiplos, cheios de mistérios, com tudo a desvendar).

Muita gente ficou impressionada quando, depois de quase duas décadas e meia, ela subiu ao palco, de novo, e se transformou em “Anjo duro”, uma preciosa delicadeza de retratar o humanismo, propondo métodos alternativos para o tratamento da loucura, unindo artistas e visionários. É um espetáculo de compreensão do ser humano que mistura o real e o imaginário.

Dona de algo quase místico, Berta é uma daquelas atrizes que têm o enigma. Há muito seu companheiro, o ator Wolney de Assis, captou essa magia no ato de fazer teatro e cinema. Ele revela que essa magia parece uma coisa quase mística, em que ela guarda muito de si, para não interferir e deixar a relação do personagem limpo e inteiro.

Berta viveu uma trajetória dura e encantada, passou fome e esteve nas nuvens. Lia e viajava no mundo das fadas, dos reis, das guerras e de Lobato. Foi uma garota um pouco solitária, que preencheu o mundo com muitos sonhos. E os sonhos surgiram e foram plenamente vividos. Hoje, segue o caminho do aprimoramento, se permite a novos desafios e sonhos. 

É uma construtora de personagens, criou um painel deles. Diferentes. Definitivos. A cada trabalho, tece um mundo novo, revelando inúmeras nuances. Esse processo de criação é uma coisa que a inquieta, ela diz: “Repetir não vale”.

A formação do filho tem um enigma, penetra o universo intricado de sombras e gera um novo eu. Dialoga com a cria e sabe ouvi-la. Transmuta, se veste e se sensibiliza dela. Vibra, vai fundo, excursiona pelos labirintos da vida e enobrece o palco.

O lado pessoal de Berta é um recanto, onde ela excursiona mansamente, sem alardes. Afirma: “O palco é o prolongamento de minha vida, preciso me respeitar muito na vida, senão como vou me respeitar no palco”.

Gosta bastante de falar de tudo que gira em torno dos personagens, das criações, de leituras. Muito atenta e com os olhos brilhantes contou que adora dar aulas de teatro. Transpira emoções. É uma atriz única e uma professora ávida por trocar informações, ensinar e aprender. Advoga a liberdade da decisão e a alegria de representar: “Devemos fazer o que é o melhor para nós”.

Dá uma linda e contundente aula de vida nesta biografia.     

“Mãe coragem”, ‘Vitória Bonelli”, “A vinda do messias”, “Anjo duro”, “O milagre de Anne Sullivan”, “Desmundo”, “Casa de Alice”, “Os sapatos de Aristeu” são alguns exemplos de atuações inesquecíveis. Há uma coisa que subitamente explode dentro no palco, na telona ou na telinha. Ela também é uma fera que pega as três linguagens e produz o mistério, a emoção correspondente, a fantástica pontuação, o gesto exato, suas vibrações vão revelando detalhes, segredos. Conhece o personagem, o corpo, a respiração, a voz e a alma, liberta-se. Nele, Berta estampa um facho de luz que toma conta do cenário. Eis o enigma: ela é iluminada!

É muito bom descobrir tantas sensações e histórias interessantes: Pais, colo, amiga, colegas, cabritinho, tristeza, pêssego, Bixiga, Teatro Bela Vista, escola, doença, solidão, sonho, garra, leitura, rádio, desejo, amigos, teatro, certeza, andar, conversar, namoro, voz, canto, música, amor, atriz, balão vermelho, cachorro, televisão, cinema, medo, avião, realização, aulas, praia, chocolate, mar… 

… e o palco: o espaço sagrado de Berta.

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