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VER O OUTRO: Bob Sousa entrevista Vandré Silveira

Celebrando 25 anos de trajetória artística, Vandré Silveira encontrou em A Hora do Boi uma das expressões mais maduras de sua pesquisa como ator e criador. Inspirado na história real de um boi que fugiu para escapar do abate, o espetáculo transforma uma notícia de jornal em uma reflexão sensível sobre afeto, violência, liberdade e coexistência entre espécies. Sozinho em cena, Vandré transita entre diferentes personagens e estados de presença, conduzindo o público por uma narrativa que combina teatro físico, lirismo e crítica social. Em cartaz no Atelier Cênico, espaço que anteriormente funcionou como açougue, a montagem ganha novas camadas simbólicas ao ressignificar um lugar historicamente associado ao abate animal. Nesta entrevista, o ator fala sobre o processo de criação da obra, suas referências literárias e a recepção do público diante de um espetáculo que convida a repensar as relações entre humanos e outros seres vivos.

Bob Sousa – A história de um boi que foge para não ser abatido tornou-se o ponto de partida para uma obra profundamente poética. Em que momento você percebeu que aquela notícia continha material para uma reflexão teatral tão ampla sobre empatia e liberdade?

Vandré Silveira – Essa proposição quem trouxe foi a Daniela Pereira de Carvalho, responsável pela dramaturgia. Eu havia sugerido os três personagens: Seu Francisco, o boi Chico e São Francisco. Sempre admirei a história do homem Francisco de Assis e desejava fazer um espetáculo que tocasse nesse amor fraternal que ultrapassa o limite especista. Como a própria Daniela gosta de dizer, por questões da magia do Teatro, ela teve contato durante o processo de escrita do texto com essa notícia real do boi que foge da Fenagro (feira agropecuária em Salvador-BA) e vai em direção ao mar. Os banhistas tentam contê-lo, sem sucesso. Essa notícia serviu de inspiração para conectar esses personagens na dramaturgia. Essa concretude do fato real nos impactou na medida em que um ser senciente, o boi, capaz de sentir sensações, emoções e perceber o mundo ao seu redor, escapa da morte pela mão do homem e em seu desespero foge para a imensidão do mar. Um desenlace triste, mas que no espetáculo ganha um outro contorno, de redenção e liberdade.

Bob Sousa – Em cena, você interpreta Seu Francisco, Chico e São Francisco de Assis. Quais foram os principais desafios para construir corporal e vocalmente essas três presenças e, ao mesmo tempo, manter a unidade dramatúrgica do espetáculo?

V.S. – Há uma partitura corporal, psicoemocional e vocal para cada presença. São registros distintos que em alguns momentos se mesclam. Esse é o maior desafio. Estar na corporeidade do boi Chico, por exemplo, mas na vocalização e emoção de Seu Francisco ou o inverso. E o mais interessante é receber o feedback do público de que ele reconhece com precisão a mudança da dinâmica dessas presenças.

Bob Sousa – A visualidade de A Hora do Boi aposta na sugestão mais do que na representação realista. Como foi o processo de criação das imagens cênicas, especialmente da emblemática sequência da fuga de Chico em direção ao mar?

V.S. – O diretor André Paes Leme responsável pela encenação escolheu dar foco ao trabalho de ator. Os poucos elementos cênicos colaboram para construir o universo desse homem que trabalha numa fazenda matando bois. As imagens se constroem a partir do jogo que se estabelece entre as personagens e a dinâmica das mudanças dos registros de corpo, voz e emoção. A luz concebida por Renato Machado e Anderson Ratto também cria atmosferas importantes durante o espetáculo, assim como o cenário e figurino de Carlos Alberto Nunes que sugere o chão de matadouro lavado de sangue, com as carcaças penduradas e o figurino com os cortes da carne bovina. A cena final de fuga para o mar resume a natureza do trabalho que aposta principalmente nos recursos do intérprete para contar a história sem maiores artificialidades.

Bob Sousa – O espetáculo dialoga com autores como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Baudelaire. De que forma essas referências literárias contribuíram para a construção da subjetividade de Chico e para a dimensão poética da montagem?

V.S. – Chico é um poeta de alma sensível que aprendeu a amar literatura ouvindo as leituras de Rosa, filha do patrão, na varanda durante as noites de insônia. Ao contrário de Seu Francisco que é submisso, cartesiano, sem capacidade de imaginação e poesia. No encontro de ambos, acontece a transformação pelo afeto. O homem e o boi, subjugados pela estrutura capitalista de poder que confere insignificância ao sujeito, o objetifica e o descarta como uma peça substituível nessa engrenagem cruel, e ao mesmo tempo trata o animal como mera fonte de proteína. A poesia, a literatura e o afeto são armas poderosas contra a opressão e a morte. Além disso, essas citações também estabelecem atmosferas e imagens, como por exemplo no momento em que Chico cita “Os sertões” de Euclides da Cunha fazendo referência ao estouro de boiada.

Bob Sousa – A nova temporada acontece no Atelier Cênico, um espaço que já foi um açougue. Como essa memória arquitetônica e simbólica reverbera na experiência do espetáculo e na recepção do público?

É de grande beleza ressignificar um espaço que outrora disponibilizava partes do boi como mercadoria e que atualmente se tornou um espaço de criação simbólica e artística. Dar voz ao animal com o espetáculo ‘A hora do boi’ no Atelier Cênico me parece um ajuste de contas. Precisamos desconstruir a equivocada superioridade humana na visão antropocêntrica. Os animais não estão à serviço da humanidade.

Bob Sousa – Você afirmou que a arte pode despertar reflexões capazes de gerar mudanças concretas. Após as temporadas realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, quais retornos do público mais o marcaram e fizeram perceber o alcance transformador de A Hora do Boi?

V.S. – As pessoas saem bastante impactadas. Algumas manifestam a questão do consumo de carne. O espetáculo faz repensar essa escolha também. É um espetáculo que toca a questão animal, mas principalmente joga luz sobre a necessidade de mudarmos a maneira como nos relacionamos com os recursos naturais do nosso planeta, com os outros seres e com os nosso semelhantes. E o amor é a força mais poderosa do universo. É com esse sentimento que compartilho esse trabalho. E por isso ele tem chegado de forma tão potente no espectador. A partir do afeto de um homem e um boi discutimos todas essas questões, porque afeto é facilmente reconhecível e identificável, é humano.

Leia a crítica de A Hora do Boi por Bob Sousa

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

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