
O espetáculo A Hora do Boi, apresentado em curta temporada no Atelier Cênico, em São Paulo, com dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, direção de André Paes Leme e atuação de Vandré Silveira, destaca-se no cenário teatral contemporâneo por sua capacidade de transformar uma história real em uma reflexão poética sobre empatia, afeto e a relação entre humanos e animais. Inspirada na notícia de um boi que fugiu para escapar do abate, a montagem constrói uma narrativa visual potente, na qual a simplicidade dos recursos cênicos potencializa a complexidade dos temas abordados.
A força da encenação reside na articulação entre corpo, espaço, luz e palavra. Em cena, Vandré Silveira assume sozinho a responsabilidade de dar vida a três figuras centrais da narrativa: Seu Francisco, o boi Chico e São Francisco de Assis. O trabalho do ator produz imagens cênicas que materializam diferentes estados de existência. Por meio de alterações corporais, vocais e energéticas, o intérprete cria uma visualidade dinâmica, capaz de conduzir o espectador entre o universo humano, animal e espiritual.
A cenografia e o figurino de Carlos Alberto Nunes dialogam com uma estética de síntese, na qual poucos elementos são suficientes para instaurar atmosferas e significados. O espaço cênico não reproduz realisticamente uma fazenda ou um matadouro, mas funciona como território simbólico onde convivem memória, afeto e violência. Essa escolha evidencia uma concepção contemporânea de visualidade, na qual o espectador é convocado a completar as imagens por meio da imaginação.
O figurino constitui um elemento expressivo da visualidade do espetáculo. Composto por sobreposições e retalhos que evocam fragmentos de couro bovino, o traje estabelece uma relação simbólica direta com a condição do animal e com a violência inscrita nos processos de exploração e abate. Ao mesmo tempo em que remete à materialidade da pele do boi, o figurino evita o naturalismo e opera no campo da sugestão poética, permitindo que o corpo do ator transite entre humano e animal. Essa escolha estética reforça a dimensão alegórica da encenação e materializa visualmente a ideia de uma identidade compartilhada entre os seres vivos, um dos temas centrais da obra.
A nova temporada no Atelier Cênico acrescenta uma camada simbólica particularmente relevante à obra. O fato de o espaço ter funcionado anteriormente como açougue produz um efeito de ressignificação que extrapola os limites da cena. O local, antes associado ao abate de animais, transforma-se em espaço de arte, reflexão e escuta. A encenação incorpora essa memória arquitetônica e a converte em elemento dramatúrgico, reforçando o discurso crítico do espetáculo sobre as formas de violência naturalizadas pela sociedade.
A iluminação concebida por Renato Machado e Anderson Ratto desempenha papel decisivo na construção da narrativa visual. A luz delimita territórios afetivos, cria atmosferas de tensão e melancolia e acompanha os deslocamentos emocionais dos personagens. Em muitos momentos, ela substitui a palavra, conduzindo o olhar do público para os conflitos internos de Seu Francisco e para a presença imaginada de Chico. A iluminação, portanto, não atua apenas como recurso técnico, mas como linguagem narrativa.
A construção da visualidade também se apoia na direção de movimento de Paula Aguas e Toni Rodrigues. O trabalho corporal desenvolve uma dramaturgia física que torna perceptível a humanidade do animal e a animalidade do humano. Essa aproximação entre espécies constitui uma das bases éticas do espetáculo. O boi Chico, embora nunca apareça materialmente em cena, torna-se uma presença concreta através da atuação, da sonoridade e das imagens evocadas pelo texto. Sua ausência física transforma-se em presença simbólica no corpo de Vandré, estimulando a imaginação do espectador e fortalecendo o vínculo afetivo estabelecido ao longo da narrativa.
A potência poética da obra é ampliada pelas referências literárias que atravessam a dramaturgia. Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Charles Baudelaire não aparecem como meras citações eruditas, mas como elementos estruturantes da subjetividade de Chico e da própria construção estética do espetáculo.
A influência de Guimarães Rosa manifesta-se especialmente na atribuição de consciência e sensibilidade ao animal. Assim como em Conversa de Bois, onde os animais observam e refletem sobre o mundo humano, Chico ultrapassa a condição de objeto e assume a posição de sujeito da narrativa. A aproximação entre homem e animal dissolve fronteiras hierárquicas e aproxima o espetáculo da tradição rosiana de valorização das múltiplas formas de vida. Além disso, o sertão de Rosa, marcado por dilemas existenciais e conflitos morais, encontra correspondência na trajetória de Seu Francisco, dividido entre a obediência às normas do trabalho e o afeto pelo boi que criou.
Já a presença de Euclides da Cunha introduz uma dimensão social e histórica à narrativa. O universo rural apresentado no espetáculo não é apenas cenário, mas expressão de estruturas de poder que condicionam a vida de homens e animais. Seu Francisco surge como figura igualmente aprisionada por uma lógica produtiva que transforma seres vivos em mercadorias. O drama do capataz e do boi revela a violência de um sistema que reduz ambos à condição de instrumentos, aproximando-se da visão crítica presente em Os Sertões sobre os mecanismos de opressão que moldam a existência humana.
A referência a Charles Baudelaire acrescenta à obra uma dimensão lírica e filosófica. O poeta francês contribui para a construção de uma sensibilidade capaz de encontrar beleza e transcendência em meio à dor. Chico surge como personagem contemplativo, consciente de sua fragilidade e de sua condição de condenado. Sua experiência transforma-se em metáfora da própria vulnerabilidade da vida. A poética baudelariana permite que a encenação ultrapasse o discurso de denúncia e alcance uma dimensão universal, na qual sofrimento, compaixão e desejo de liberdade se tornam experiências compartilhadas.
A evocação de São Francisco de Assis sintetiza muitas das questões levantadas pela montagem. Figura historicamente associada à fraternidade entre todos os seres vivos, o santo opera como referência ética para a narrativa. Sua aparição amplia o debate sobre o antropocentrismo e propõe uma visão de mundo baseada na interdependência e no respeito à diversidade da vida. A visualidade do espetáculo incorpora essa perspectiva ao construir imagens que aproximam homens, animais e natureza em uma mesma esfera de existência.
Um dos momentos mais belos da encenação ocorre na representação da fuga de Chico em direção ao mar. Sem recorrer a recursos espetaculares ou efeitos realistas, a cena constrói uma imagem de rara potência poética por meio da atuação, da iluminação e da sugestão espacial. A travessia do boi transforma-se em metáfora de liberdade, resistência e desejo de sobrevivência, convertendo o mar em símbolo de um horizonte possível diante da violência do abate iminente. A simplicidade da solução cênica evidencia a força da imaginação teatral, permitindo que o público complete visualmente a cena e compartilhe da emoção e da esperança que movem Chico em sua busca pela vida.
Nesse sentido, a obra demonstra como a visualidade teatral pode funcionar como instrumento de reflexão crítica. A encenação não se limita a representar uma história de amizade entre um homem e um animal. Ela produz imagens capazes de questionar práticas sociais, valores culturais e concepções hierárquicas da vida. O espetáculo transforma a experiência estética em experiência ética, convocando o público a reconsiderar sua relação com os outros seres vivos.
Fotografar o ensaio de A Hora do Boi significou participar de um delicado jogo poético entre o olhar do fotógrafo e a presença cênica do ator. Mais do que registrar imagens, o ato fotográfico tornou-se um exercício de escuta visual, acompanhando os deslocamentos emocionais de Vandré Silveira e as múltiplas camadas de humanidade e animalidade que atravessam sua atuação. Em cada gesto, sombra ou feixe de luz, surgiam instantes de rara intensidade, nos quais a fotografia buscava não apenas documentar a cena, mas dialogar com ela. Nesse diálogo silencioso entre palco e lente, ator e fotógrafo compartilham o mesmo ofício poético: perseguir o invisível e oferecer permanência ao que, por natureza, é passagem. A mesma matéria de que são feitos os sonhos. Tudo aquilo que não voa, nem se pode flutuar.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

