Aprendiz Chico Guerra fala sobre seu intercâmbio na Suécia

Publicado em: 16/11/2015

Entre agosto e novembro, dois aprendizes da SP Escola de Teatro foram enviados à Suécia para participar de um intercâmbio. Chico Guerra foi um deles. O estudante conta como foi a experiência no exterior. 
 
Por Chico Guerra
 
Quando fiquei sabendo que havia sido escolhido para realizar um intercâmbio de três meses na Suécia, a sensação deve ter sido semelhante a ganhar na loteria, pois eu iria estudar em uma renomada escola de teatro em Estocolmo e ainda teria a oportunidade de passar duas semanas em Gotland fazendo um workshop com Ariane Mnouchkine e o Teatro de Soleil. Por exatos três meses, minha única preocupação seria estudar e ter todos os meus pensamentos voltados para o fazer teatral na chamada capital da Escandinávia.
 
 
Da divulgação dos selecionados para o intercâmbio até o embarque foram mais ou menos três meses: o
suficiente para dar uma revisada no inglês assistindo a zilhões de filmes sem legenda (técnica eficaz para quem tem pouco tempo) e juntar algum dinheiro para as possíveis viagens (afinal nunca se sabe quando, e se, você voltará à Europa um dia). Documentos em mãos, tudo pronto, a aventura começa. São exatas 12 horas de viagem até Munique/Alemanha, de lá voamos para Estocolmo, onde o Simon, diretor da Faculdade, nos esperava para nos levar até nosso apartamento localizado no charmoso bairro de Hammarbjhödgen.
 
 
No 3°dia já pegamos um barco para Gotland, uma região localizada no mar báltico. É lá que fica a pequena ilha de Färo, lugar escolhido para a realização do workshop École Nomade, com o Teatro de Soleil. Nos hospedamos em um hostel dentro de um acampamento militar, éramos dezenas, grande parte dos participantes era constituída de jovens suecos, mas tínhamos também atores da Alemanha, Finlândia, Espanha, Colômbia, Zimbabue e França. Foram duas semanas incríveis e assustadoras, uma confusão deliciosa de línguas e uma única certeza: atores são atores em qualquer parte do mundo. Vi a desenvoltura e a disponibilidade do ator sueco, mas também vi o medo e a frustração quando Ariane não aprovava algo e mandava alguém de volta para o banquinho de espera. A fragilidade é universal.
 
 
O sistema educacional sueco é peculiar, lá eles realmente respeitam o tempo de aprendizado de cada um. Fiquei com a sensação de que naquele país você não precisa ser o melhor, precisa “apenas” mostrar o melhor que você pode fazer. Talvez por isso o workshop tenha sido tão doloroso para boa parte de nossos amigos suecos: eles não esperavam alguém tão incisivo quanto Ariane Mnouchkine, uma pessoa de teatro muito interessante, que tinha sempre soluções simples e geniais para as cenas, mas que também não tinha todo o tempo e paciência do mundo para extrair grandes performances de todos nós.
 
Chico (de regata, ao centro) participa de atividade durante o intercâmbio na Suécia
 
Foram exatas duas semanas trabalhando com as máscaras da Commedia dell´arte, improvisando, jogando. Foi um trabalho simples, mas, ao mesmo tempo, muito complexo. A língua francesa pedia algo, a língua sueca dizia outro, o inglês misturava-se ao português na cabeça de quem estava ali na distante Suécia havia poucos dias, impossível não cometer erros. Entre erros e acertos, todos nós ganhamos muito em duas semanas de aula, um pedacinho do mundo estava reunido ali, numa ilhazinha no meio do nada.
 
 
De volta a Estocolmo começamos a frequentar a Stockholm Academy of Dramatic Arts, renomada escola de teatro e cinema onde passamos dois meses e meio estudando mímica. Tivemos aulas de acrobacia, técnica vocal, balé e  dança moderna. Também tivemos professores convidados para cursos rápidos, como o Método Decroux e o Método Isadora Duncan. Fizemos as aulas em inglês, o que foi bem interessante, difícil no começo, mas, no final das contas, é só seguir todo mundo e ficar atento ao caótico jogo das palavras. Deu tudo certo.
 
 
Estudávamos em período integral, bastante cansativo no início pois o curso era bastante físico e depois de alguns dias era possível sentir a dor do aprendizado em cada músculo. Nossa turma era formada por apenas nove alunos, o que facilitava um melhor aproveitamento das aulas. Tudo era muito intenso, tínhamos tempo para trabalhar. Me senti muito independente estudando naquele lugar, era um aprendizado muito individual, nas aulas de mímica tínhamos alguns horários para que pudéssemos ensaiar as cenas por nossa conta, toda sexta feira deveríamos apresentar nossa proposta para a turma e para a apreciação dos professores envolvidos no processo. Foi curioso ter que trabalhar sozinho, estamos tão habituados a construir tudo coletivamente aqui no Brasil.
 
 
Fiquei completamente encantado pelas diferenças. Em nossa classe, tínhamos cinco colegas suecos, uma finlandesa e uma russa, os professores eram do Chile, Alemanha, Polônia e Suécia. Isso foi muito rico, tenho a sensação de que pude conhecer uma outra parte do mundo além da própria Suécia. Professores estrangeiros trazem uma bagagem distinta, pois cada um veio de um determinado tipo de teatro, de país x ou y. No começo o idioma assustou um pouco, todos falavam inglês, mas a primeira língua deles é o sueco e nas ruas você pode ouvir de tudo, pois a Suécia é uma verdadeira torre de babel. Sem dúvida esses três meses também serviram como um bom curso de inglês.
 
 
Hoje posso dizer que vivi um sonho por três meses, não posso usar outra palavra. Morei em um país seguro, tranquilo, bonito, pude conhecer gente de toda parte do mundo, pude andar de madrugada pelas ruas de Estocolmo sem correr riscos. Foi simplesmente incrível viver em um  país onde tudo funciona. Nos momentos finais já batia uma saudade do Brasil, mas nunca esquecerei da Suécia, foi a grande aventura da minha vida, por enquanto.”

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