Antonio Fagundes por Carlos Hee

Publicado em: 18/04/2012

Antonio Fagundes faz parte daquela galeria de atores que podem subir ao palco, ler a lista telefônica (um calhamaço que não existe mais) e prender a atenção da plateia durante o tempo em que permanecer em cena. Ele tem o que se convencionou chamar de star quality, um nível superior ao carisma. Vai além disso, supera o talento e o próprio carisma. Funciona como uma atração incontrolável e sedutora sobre o público. A primeira vez em que vi Antonio Fagundes em cena foi em 1969, num elenco recheado de atores tarimbados, como Altair Lima, Armando Bógus e Aracy Balabanian, ao lado de jovens atores como ele, Sonia Braga, Ney Latorraca e Nuno Leal Maia. O espetáculo era “Hair”, um acontecimento na cena mundial e, naturalmente, levando multidões ao Teatro Belo Vista, na encenação brasileira de Ademar Guerra

 

Antonio Fagundes (Foto: Divulgação)

 

Fagundes,  com 20 anos de idade, já se sobressaia no meio de tantas feras. O jovem ator que vinha do Teatro de Arena explode em cena, dois anos depois, ao lado de Zanoni Ferrite num dos grandes espetáculos do início dos anos 1970, “Castro Alves Pede Passagem”, uma montagem com texto e direção de Gianfrancesco Guarnieri e produção de Olthon Bastos. A mágica do teatro no embate de dois grandes atores – Zanoni e Fagundes –que travavam um duelo de talento na arena do Teatro Galpão. Nesse mesmo palco, Fagundes retorna pouco tempo depois para encabeçar o musical da Broadway “Godspell”. A ascensão, em pouco menos de quatro anos, transforma o ator de teatro em astro de televisão e sua trajetória é conhecida de todos. 

 

O que poderia ser confortável, a partir de então, dá a Fagundes a possibilidade de ousar no teatro. Em 1975, constrói uma parede, literalmente, todas as noites fazendo o pedreiro do monólogo “Muro de Arrimo”, de Carlos Queiroz Telles. Dava início então à nova carreira, a de produtor, que desemboca, anos mais tarde na Companhia Estável de Repertório, a CER. E é nesse momento que eu deixo de ser apenas mais um no público de Antonio Fagundes, para trabalhar com o ator e produtor Antonio Fagundes.

 

Em 1985, quando ele lotava o Teatro Cultura Artística, fazendo “Cyrano de Bergerac”, nosso contato era de ator e jornalista. Nessa época, eu, repórter do Jornal da Tarde, fazia reportagens sobre estreias teatrais e várias vezes entrevistei Fagundes. Uma das entrevistas mais deliciosas foi quando ele trouxe Gerald Thomas de Nova York para dirigir “Carmem com Filtro”, seu namoro com o teatro experimental. Entrevistar a dupla, ator e diretor, foi um daqueles presentes da profissão, quando é permitido acompanhar de perto o que é fazer teatro. A paixão pela cena e as possibilidades que o teatro proporciona a quem vive dessa grande arte. Gênios reunidos, cada um em sua seara, produzindo aquele que foi um dos espetáculos mais premiados do ano de 1986.

 

Com “Carmem com Filtro” nasceu a Companhia Estável de Repertório. Uma tarde, Antonio Fagundes telefona para a redação do Jornal da Tarde e convida, a mim e a Regina Ricca, para participar da CER. A ideia era criar o Jornal da CER, para ser enviado a todos os espectadores cadastrados da companhia. Um número sempre crescente, já que as produções sempre contavam com casa cheia. Tanto no Teatro Cultura Artística como no Teatro Brigadeiro, que passou a ser a sede da companhia de repertório capitaneada por Antonio Fagundes. 

 

As reuniões com ele eram quase todas as semanas, no bar ao lado do Teatro Brigadeiro, antes da sessão de “Nostradamus”. Fagundes fazia questão de discutir a pauta e cada reportagem que seria feita com o elenco da companhia. Assim como ele permanecia na bilheteria, recebendo o público, comandava cada edição do Jornal da CER. Centralizador e rigoroso. E não posso dizer que essas reuniões eram exatamente agradáveis. Sempre havia uma discussão acalorada entre jornalistas e o homem de teatro. O ponto de discórdia (dando um cunho dramático à ação) era sempre a questão da paixão. Um homem extremamente apaixonado pelo teatro, Fagundes exigia o mesmo de quem o cercava. E, para jornalistas, a paixão tem um grau de intensidade diferente daquela que tem um ator pelo palco. Numa dessas discussões, quando Fagundes pedia um texto mais apaixonado, meu argumento acabou demonstrando a ela a diferença entre atores e jornalistas: enquanto os primeiros exercem sua profissão em grupo, que pode ser comparado a uma bacanal, o jornalista é um solitário masturbador em frente à sua máquina de escrever. A partir desse dia, as reuniões passaram a ser divertidas e o Jornal da CER cumpriu sua tarefa até o final da Companhia Estável de Repertório.

 

Depois desse curto período trabalhando com Fagundes, encontrei com ele algumas poucas vezes, mas sempre com muita simpatia. E jamais deixei de assistir a um novo trabalho dele. Mesmo porque é um prazer estar numa plateia absorta no trabalho apaixonado de um ator que domina plenamente palco e plateia. Um ator que hoje, 18 de abril, completa 63 anos e permanece com a mesma energia que exibia há mais de 40 anos.

 

 

Leia outras homenagens aos principais artistas do teatro nacional aqui.

 

 

Texto: Carlos Hee

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