Alimentando Sonhos Teatrais

Publicado em: 05/12/2011

O clima dentro da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no final da tarde deste sábado (3), parecia ignorar o dia cinzento da capital paulista.  A partir das 16h, aprendizes já começavam a encher o pátio. A razão para esse ambiente tem um nome: Fernanda Montenegro.

 

Em sua primeira passagem pela Escola, a atriz ministrou aos aprendizes uma palestra, com mediação de J.C. Serroni, coordenador dos cursos de Cenografia e Figurino e Técnicas de Palco. O encontro também serviu como abertura para o seminário “Diálogos da SP”, que será realizado entre 13 e 17 de dezembro, com a participação de diversos artistas. 

 

Após uma extensa salva de palmas do público presente, Serroni fez uma breve introdução, relatando como a conheceu e contando algumas experiências teatrais que tiveram juntos. Seguindo o mesmo fluxo, Fernanda começou falando sobre a produção teatral de antigamente, que, segundo ela, era mais densa, ainda que hoje seja mais fácil obter patrocínio.

 

A partir daí, a atriz passou a falar da importância dos profissionais de teatro, os quais definiu como “matéria dos sonhos”, parafraseando Shakespeare. “Temos que fazer o público acreditar que somos essenciais, imprescindíveis, se não, não o atingimos. Isso tem que ser muito forte. Não é possível alcançar uma ‘luz’ se não tivermos essa loucura.”

 

Mantendo sempre o tom de voz sério, porém, levando o público aos risos quando fazia algum comentário demasiadamente realista ou irônico, Fernanda voltou, mais uma vez, ao passado para comentar sobre as fases do teatro das quais participou. “Vivíamos ensaiando de 12 a 14 horas por dia. Isso nos preparou para enfrentar textos longos e complicados. Era uma tortura? Era. Era impossível? Era. Mas quando me perguntam se eu voltaria a fazer tudo de novo, eu digo que sim.”

 

Sempre ressaltando o amor que sentiu, desde o início da carreira, pelo teatro, a artista abordou as diferenças entre o fazer teatral das décadas passadas e a atual situação. Segundo ela, o artista de teatro continua tendo uma vida marginal, mas esta condição, ou seja, “nunca largar a margem”, é vital.

 

As técnicas e ferramentas utilizadas por Fernanda na hora de subir ao palco e interpretar foram assuntos questionados pelos aprendizes que assistiam à palestra. “Na hora de criar uma personagem, o que há da Fernanda e o que há da personagem?”, “Como você se apropria de um texto?” foram algumas das perguntas feitas.

 

J.C. Serroni e Fernanda Montenegro no encontro (Foto: Felipe Del)

 

Enquanto as respondia, a atriz revelava suas maiores dificuldades. “Enquanto não me aposso de um texto, até que eu possa jurar que aquilo partiu de mim, não consigo dormir. Entrar em cena, para mim, não é um deleite, é um tormento, sem o qual não sei viver.”

 

Na parte final do encontro, a artista falou sobre sua opção por atuar também na televisão e no cinema, destacando que apenas o teatro não seria capaz de mantê-la hoje, nem fazendo de três a quatro sessões por semana. 

 

Completando uma hora de conversa, Fernanda finalizou transmitindo sua impressão sobre a SP Escola de Teatro. “Eu acho que a Escola é muito rica, pela sua diversidade, porque está juntando as várias áreas do teatro, ou seja, não apenas o ator e o diretor. Tem essa parte técnica, sem a qual não tem espetáculo. Fiquei muito feliz e surpreendida pelo número de participantes que ela já tem. E morro de inveja!”, despertando risos e sorrisos dos aprendizes.

 

Como conselho para os jovens artistas, a atriz foi bem clara: “Temos que ter a ilusão de que é possível e precisamos crer nela. Está escrito nas estrelas, mas é preciso querer chegar lá. Portanto, eu pergunto a cada um de vocês: você está aqui porque realmente quer? A razão primeira é não poder viver sem isso. Quem tiver alguma dúvida, eu oriento, sinceramente, que vá para casa e reflita.”

 

 

Texto: Felipe Del

 

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