A Performatividade e seu Rastro por Cadu Witter

Publicado em: 03/05/2012

O ator e professor de teatro Cadu Witter acompanhou o segundo Experimento do Módulo Azul da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no último sábado (28), e relatou suas impressões sobre cada um dos oito núcleos. Veja abaixo suas palavras sobre os grupos 1 e 2.

 

 

A performatividade é algo muito em voga no cenário teatral atual e como tal encontra inúmeras possibilidades de aplicação na vida e na arte. Sabemos que essa palavra vem de performance, que está associada à execução de algo. A partir daí, muitos teatrólogos e artistas em geral dirão que na performance os agentes não ficam pensando, fazem.

Assim foi, o último sábado (28) foi inteiro de apresentações! Uma experiência fascinante e reveladora, mas que não permite a absorção plena e imediata do que se vivencia ou observa. Carece de reflexão.

O núcleo 1 pede ao público que entre. Somos recebidos com muitas palmas, enquanto anunciam a ficha técnica. O jogo já está instaurado! Os atores aplaudem calorosamente enquanto entramos, mas seriam os aplausos para nós ou para eles mesmos que são anunciados sem cessar ao microfone?

 

Daniele Aoki e Fernanda Tessaro, do núcleo 1 (Foto: André Stefano)

Agora os atores mostram espelhos à plateia. É brilhante o jogo no qual algumas das pessoas se vêem no espelho, que por ter dupla face espelhada, relfete no outro lado o ator, este fala um texto que a plateia responde acenando com a cabeça como se fosse para ela, mas que pode perfeitamente ser para o próprio ator.

Por que necessitamos nos ver, ou ao menos desejamos acreditar que aquilo que está sendo dito é em relação a nós ou para nós? Somos uma sociedade altamente egocentrada e, assim, incapazes de perceber que a fala pode ser para outra pessoa. É a sede pela atenção, pelo olhar, carência frustrante que fica escancarada a partir das relações que não se estabelecem, mas que se projetam em cena.

Será que nos vemos? O que vemos? E para que olhamos? Não é preciso resposta, sabemos o quanto somos capazes de olharmos para nós mesmos e nos vermos e o quanto isso pode ser deturpado pela imagem que projetamos. Mas isso é outro assunto.

“Instáveis!”. Alguém anuncia e as ações que seguem passam a ser narradas. Ator 1 faz isso, ator 2 faz aquilo. Não há distinção de gênero. Muito branco no cenário e figurino.

Algumas importantes questões são levantadas e há uma forte crítica na leitura do teatro convencional e na leitura dos pontos de vista dos intelectuais do teatro contemporâneo. Tanto uma visão quanto a outra são trazidas aumentadas pelas ações dos atores. Aliás, é perceptível o belo trabalho sobre um roteiro de ações que passa a ser improvisado, enquanto presentificação daquele plano e enquanto redimensionamento do projeto a partir do jogo presente.

Mídia e sua necessidade, a dicotomia “voz” e “corpo” e o retorno de atores para a ativa são alguns dos temas abordados sem desprezo e sem a pretensão de esgotamento. É claro que a mídia faz toda a diferença na divulgação de um espetáculo, por óbvio não podemos mais dissociar a voz do corpo no trabalho do ator e há muitas e diversas razões para se trazer de volta uma velha atriz aos palcos, mas não é esse o foco central do trabalho, são desculpas para o jogo que não se rompe, para o pacto que bravamente se afirma e o público está inteiro ali, com os atores e com toda a produção.

Uma pergunta encerra a apresentação e fica com as pessoas que deixam a sala: “Você me vê?”

O que eu vejo? Fico com isso… preciso pensar.

Na próxima sala, certo desconforto e nervosismo. A diretora e parte da equipe falam com imperatividade, lidando como podem com as dificuldades dos perigos que as escolhas trouxeram ao núcleo 2.

 

Experimento do núcleo 2 (Foto: André Stefano)

Há um vão! O desejo é de olhar pra ele mais de perto, de explorá-lo melhor, de apreciá-lo do alto onde nos colocaram. Não pode sentar! É pra ver em pé! Não toquem no corrimão!

Tantas ordens, tantas vontades em meio a uma frase que se repete anunciando o início oficial da apresentação: “corpo sem desejo”!

No vão, um aglomerado de pessoas que estão plastificadas por uma tela de filme começa a se mover e criar individualidades. O indivíduo no coletivo. Corpos insinuam uma exposição. Sons de alguém que batuca nas grades de ferro.

“Gosto de ferro!”. É o som, a cor e o sabor da cena, ferro. Gosto de ferro em toda parte. Há uma mulher com frio, enquanto um homem se masturba. “Ele não vai parar.”

O ritmo é o grande amigo desta cena, oscila com primor e colore as ações que permeiam os desejos primitivos, o sexo, o tesão, a trepada. “Tira ele daqui agora.” Desejos, olhares convites. Mas eles estão na vala, separados de nós por uma enorme altura e por um filme plástico transparente? A plateia se inclina buscando a cena, mas estão todos seguros em seu lugar de espectador, como seria se essa divisão não existisse?

O texto e as ações físicas vão transformando o ambiente num local eufórico que sugere a cada um a busca de sua primitividade. Os corpos que se movimentavam com vigor agora estão inertes, ao chão.

Deixo a cena com a certeza de um processo que ainda fomentará muita coisa em todos os envolvidos, mas feliz com a consciência e maturidade das escolhas feitas em cada uma das apresentações. Ambas intensas no tema, pois falam do humano, mas capazes de acessar lugares diferentes de reflexão.

São muitas experiências que ainda carecem de amadurecimento! É feliz o lugar onde toca a performatividade, porque permite o rastro.

 

 

Veja as impressões de Cadu Witter sobre os outros núcleos do Experimento:


A Performance e a Magia por Cadu Witter
Luz! Luz! Luz!
Meu Reino por um Pote de Baunilha por Cadu Witter

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