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A Performance do Desejo – A história de Iza Monteiro

Publicado em: 24/01/2013

Sentada em uma das poltronas daquele voo, seu coração batia acelerado. Tentou recontar o tempo desde que havia saído do Brasil: 17, 18 horas, não tinha certeza. Estava ansiosa e enjoada. Os minutos passavam e nada acontecia. Ajeitou-se no assento. O tempo congelou, como que agarrado aos ponteiros do relógio. Olhava rapidamente para os lados e já não disfarçava o pavor. Fechou os olhos e respirou. Antes de levantar e ir em direção à aeromoça, se rendeu à frase que espreitava seus lábios: “Isso foi a maior besteira que fiz em minha vida”. Mirou a funcionária sorridente que disse: “Olá, posso te ajudar?”, “Sim, posso te contar um segredo?”, e atalhou: “Estou com 54 cápsulas de cocaína no meu estômago”.

 

Esse episódio aconteceu com Iza Monteiro, na Alemanha, em 2009. Ela passou mal durante a conexão que seguia para Holanda. Ao confessar que carregava drogas dentro do seu corpo, Iza iniciaria uma jornada de dor e culpa. Na terça-feira da semana passada, sua história foi contada durante a extensa programação do 8º Encontro do Instituto Hemisférico de Performance & Política. Em torno das 23h, o terceiro andar da Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco já estava pronto para assistir a “Estéticas do Desejo: 12 com Iza”: Uma mesa e duas cadeiras, uvas sob a mesa e enfeites natalinos – o ano novo hispânico . Ela sentou ao lado do colombiano Carlos Monroy enquanto aguardava o público se acomodar no espaço. 

 

Quando tudo estava pronto, ele iniciou: “Durante a passagem do Ano Novo, os hispânicos têm o costume de comer 12 uvas, representando os 12 meses do ano, e fazer um pedido para cada mês”, explicou enquanto distribuía as frutas ao o público. “Vamos imaginar que estamos prestes a comemorar a passagem do ano e contar os segundos. Quando chegar a hora, façam um pedido e comam uma uva”, ensinou.

 

No intervalo para o “Ano Novo”, Monroy perguntou ao público onde estavam durante a chegada de 2013. Algumas pessoas compartilharam praias, sítios e amores até que ele interrompeu: “Faltam 10 segundos para o Ano Novo. Vamos contar?”. E as vozes se uniram. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Aplausos, gritos, abraços e sorrisos. E a plateia, ainda reticente, entrou de vez no clima, naquela pequenina bolha atemporal. Iza apenas observava e sorria.

 

Atualmente, ela é cristã protestante, dona de um salão de cabeleireiro e casada com um sueco há pouco mais de 4 anos. Ao final da performance, confessou que estava feliz e também preocupada. “Fiquei imaginando se o Carlos ficaria bem, e se as pessoas entenderiam o que passei”, disse. Os dois se conheceram por amigos em comum e no primeiro dia Iza contou o fato a Carlos. “Já fazia mais de meia hora que estávamos conversando e eu não sabia o que pensar, nem acreditava que era ela”, lembrou ele. Quando se convenceu, a reação foi óbvia: “Precisamos contar isso para mais pessoas. O que você viveu é incrível e precisa ser conhecido”.

 

De volta ao terceiro andar, tudo seguia em comemoração. A atenção voltou-se a Carlos quando o colombiano segurou uma uva e uma taça com água, olhou para todos e disse: “A wish!” (um desejo), e engoliu a fruta, sem mastigar. Iza, atenta, não conseguiu disfarçar ansiedade. Monroy tomou um gole e olhou para ela. Ele passava bem.

 

Diferente dele, aquele dia não tinha sido fácil para Iza. O plano era que ambos participassem da performance. Os dois já estavam sem comer há muitas horas e à tarde, ela “ensaiou” engolindo uma uva. Momentos depois, foi levada ao hospital. “Fiquei preocupado com ela e decidimos que apenas eu participaria”, contou Carlos. 

 

Carlos Monroy de costas, à esquerda e Iza Monteiro, à frente (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

A performance seguiu, enquanto a dupla conversava com a plateia. Iza narrou os fatos que se seguiram à confissão: “A polícia me prendeu e fiquei num pequeno ambulatório no aeroporto, recebendo soro. Lá eu já tinha vomitado muitas capsulas, mas ainda sobraram 17. Fui levada ao hospital para que retirassem o restante. Perdi 4 metros de intestino e fiquei em coma por mais de duas semanas”, relembrou ao mostrar a cicatriz. 

 

E aos poucos, expressões de choque se distribuíam pelas faces do presentes. Eles queriam detalhes da hiostória, Carlos segurava uma uva, enquanto Iza respondia, dizia “a wish” e um tomava gole d’água. Perto das 10 uvas, Carlos já tinha dificuldades, mas a ação ainda se repetiu por muitas vezes. “Acho que engoli mais de 20 uvas”, contou Monroy. 

 

Quando se recuperou da cirurgia, Iza foi chamada para depor: “Confessei tudo, que tinha servido de mula, e mais, mula isca. Colocaram uma cápsula aberta para que se rompesse no meu estômago. No meu voo tinha mais 40 mulas e enquanto eu saía, denunciei todas”, afirmou. Iza foi julgada inocente e a quadrilha foi presa. Passou dois anos na Alemanha fazendo serviços comunitários, estudou e conheceu seu marido.

Nesse momento a pergunta que todos queriam fazer foi feita: “Por quê?”. A família de Iza era evangélica quando se assumiu homossexual. “Fui reprimida e tinha que namorar meninas, me diziam que iria para o inferno. Deus era um monstro para mim”, contou. Diante desse cenário, ela passou a se distanciar da igreja até que descobriu o serviço de mula. “Achei que aquilo iria mudar minha vida para sempre”, e ironicamente completa: “E mudou mesmo, agora para melhor”.

 

Em torno de tantos desejos por aceitação e uma sexualidade em harmonia, Carlos conectou a performance sobre o passado de Iza ao Ano Novo hispânico. “Penso que a cada cápsula que ela engolia, havia sonhos e vontade de viver. E também os desejos de quem oferecia aquele trabalho, desejos cruéis que orbitam no dinheiro, no crime e nas drogas”, explicou.

 

Perto das 25 uvas, Carlos anunciou a última. Visivelmente afetado, ele agradeceu: “A sensação é muito ruim. O corpo não aceita essa imposição, imagino um pouco do que ela tenha sofrido. Mas também fico feliz por essa chance de ‘por os sapatos do outro’, de sentir o que o outro sente. E para mim basta: a wish”, e engoliu a última sob aplausos.

 

Enquanto se abraçavam, mais uma pergunta: “E o que Deus significa para você, agora?” Iza para, pensa um pouco e responde: “Frequento uma igreja que me aceitam como sou. Quanto a Deus, ele não é mal quanto me faziam pensar. Ele é visto na bondade das pessoas, em ajudar os outros. Talvez ele não exista também, mas se existir é alguém muito amoroso”, finalizou sorrindo.

 

 

Texto: Leandro Nunes

 

 

 

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