‘A confissão de um masoquista’ por Marcio Aquiles

Publicado em: 21/12/2014

Há algo de estranho nos últimos dias de outono polonês. A grama ainda está verde nos campos silvestres. Outro fenômeno singular deu-se nos palcos do Teatro Fredry sexta-feira (19) à noite em Gniezno, no centro-oeste da Polônia. 

 

A diretora Aline Negra Silva e o cenógrafo Felipe de Oliveira, aprendizes da SP Escola de Teatro selecionados para uma residência artística na cidade, promoveram a estreia de seu espetáculo “A confissão de um masoquista ou Labirinto do mundo e o paraíso do chicote”. 

 

Plateia ansiosa. Espectadores curiosos para saber mais sobre como os encenadores brasileiros irão conduzir o texto sobre sadomasoquismo e exploração do trabalho do autor checo Roman Sikora. É uma dramaturgia potente, carregada de significações implícitas e muito voltada para o texto. Falado em polonês, naturalmente. Sobrepondo esses desafios – e com a ajuda de uma intérprete para trabalhar com os atores –, nossos aprendizes criaram uma montagem pautada com força nas ações físicas, mas sem deixar que a linguagem corporal ofuscasse a torrente verborrágica inerente da peça. 

 

O diretor artístico da casa, Lukasz Gajdzis, e a encenadora escolheram um elenco que adequa-se com perfeição aos personagens de Sikora. Atores profissionais de muita técnica, os poloneses são afeitos à uma gestualidade mais evidente, não deixando margens para dubiedades ou incertezas na ação. Os atores encenam com uma postura elegante, ombros eretos, costas retilíneas… A entonação é bem estudada, explorando várias faixas do espectro sonoro. 

 

(Foto: Dawid Stube)

 

A direção conseguiu imprimir uma estética própria para a montagem, mesmo havendo certos dogmas perturbadores na cena polonesa, como a intensidade da luz no palco e plateia, deixando a impressão de que esqueceram a geral e luz de serviço acesas. Quebrando paradigmas, convenceram o diretor artístico a criar uma atmosfera um pouco mais dark, condizente com a dramaturgia, suavizando o desenho de luz.

 

Chegamos com tudo na terra de Ziembinski, onde novos projetos e parcerias já começam a brotar para 2015. 

 

* Poeta, dramaturgo e crítico de literatura e teatro, Marcio Aquiles coordena o programa de intercâmbios e relações internacionais da SP Escola de Teatro

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