Desesperado Esperançoso

Publicado em: 29/11/2021

Chá e Cadernos 100.70
Mauri Paroni

Chegava o frio do inverno. Sem recursos para custear o aquecimento, acordava com a metade da face oposta ao travesseiro literalmente gelada. Isso aumentava a fome, mal aplacada pelo café. Comia pouco e ia para a escola caminhando na neve com cuidado. Quase lá, diante da vitrine de uma confeitaria, imaginava comer as delícias ali expostas. Um dia, avistei uma colega que, ao perceber a situação, repartiu comigo o seu café da manhã: uma briosc (croissant milanês bastante leve, crocante e morno, recheado de creme de ovos, açúcar e noz moscada), um cappuccino. E o calor da confeitaria.

Eram signos invertidos: ela avistava a neve de dentro do calor, o que lhe significava um frio literário. Digamos assim. O gelo que eu sentia nos ossos me significava a fome latente no estômago. E uma só solidão, aplacada naquela manhã. Romance? Não, não, encantava-nos a vivência que aquilo provocava no trabalho de um texto do maior autor popular do Renascimento italiano. Eram falas de estômago, frio e fome. Dario Fo o descreveu assim: “Um mestre do palco extraordinário, pouco conhecido… mesmo na Itália. Mas foi, certamente, o maior dramaturgo que a Europa da Renascença teve antes do advento de Shakespeare. Estou falando de Ruzante Beolco, meu maior mestre, junto a Molière, ambos atores-autores, tão ridicularizados pelos principais escritores de seu tempo. Eram especialmente desprezados porque se valiam da cena cotidiana, da alegria e desespero das pessoas comuns, da hipocrisia e da arrogância dos poderosos, da injustiça constante”. [Sobre Ruzante, ler aqui: https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/papo-com-paroni-ruzante-autor-de-falas-em-musica].

Isso me bastava para mandar às favas aquelas teorias dos bacanas esnobes tipo Actor’s Studio, versão fajuta – o Actor’s de verdade levava em conta a significação da realidade e não a realidade em si, pra lá de improvável se imposta a despropósito numa representação. [Sobre o real Actor’s Studio, há esta excelente entrevista com Alberto Guzik e Robert Castle: https://www.youtube.com/watch?v=D7ZQgKOscmU ]. Tentava filtrar criticamente o que me diziam. Sentia o valor que a entoação da palavra tinha para ela, cultora da elegância respeitosa do mundo formal. Para mim, era uma tradição esvaziada pelas crises infinitas das formalidades teatrais emersas numa sociedade desigual. Hoje, percebo que ter vivido aquela dialética foi um privilégio. Menos pela atenção (dela) à situação e mais pela fome (minha), a qual não conseguia esconder. Fome visceralmente ligada ao texto que Dario Fo usava tão bem. [sobre Dario F: https://www.spescoladeteatro.org.br/coluna/uma-entrevista-com-dario-fo ] Tratava-se de uma língua inventada de e para camponeses, lavradores, pobres – os peões das propriedades que Ruzante administrava para um nobre. Misturava os dialetos e as línguas vulgares. Foi um percurso inverso a Dante, que “disciplinava”, com o latim, o dialeto florentino do século XIII. Ou o percurso inverso ao dos jesuítas que “disciplinaram”, através da Língua Geral (depois, Nheengatu), as centenas de formas sonoras dos indígenas Tupis e Guaranis das reduções massacradas pelas bandeiras paulistas, no século XVII.
[ https://pt.wikipedia.org/wiki/Nheengatu ; e
https://www.spescoladeteatro.org.br/coluna/narracao-personagem-conflito-contemporaneidade ]

Mestres: Robert Castle durante entrevista com Alberto Guzik


Palavras, palavras, palavras: Gramática da Língua Brasílica.

Sem romantizar, vivi o teatro paralelamente à experiência factual do frio, da fome e da necessidade. Dirigia de maneira performática, como se diz, porque associava profissão e convívio à cozinha – lugar que produz conhecimento a partir da organização prática da informação. Colegas costumavam chamar-me para cozinhar, pois aprendi a improvisar boas refeições com quase nada. Ninguém tinha dinheiro. A maioria era de famílias operärias. O dinheiro era suado e contado, mesmo para quem vinha de famílias abastadas, conforme parcialmente reorganizado na sociedade italiana do pós-guerra. Coisa desejável na reorganização que urge na atual pôs-pandemia. Havia também a prática de frequentar os refeitórios operários subvencionados em que se respirava um certo igualitarismo. Havia protestos e lutas por melhorias ou constituições de didáticas pluralistas, travadas no nível da subsistência. Essa foi uma das grande lição: política cultural como projeto de uma sociedade justa, para além das tantas histórias cômicas e dramáticas do quotidiano.

Estórias nascidas na urgência da sobrevivência parecem clichê. Mas são o mastro principal da continuidade das artes do palco – e mais delicadas que qualquer outra arte porque recordam um pertencimento humano pré-industrial. São uma linfa vital para o convívio pacifico. São necessidade expressiva. Personagens de credibilidade, portadoras de uma ação que modifica a trama – no caso da narratividade – ou a existência – no caso da performatividade, são concretas. Já as personagens “verossímeis”, degeneradas pelo mainstream televisivo do importante-é-estar-pronto, são rasas.

Gosto de me perguntar se esse conceito é o melhor, dentre os poucos parâmetros que possuo, para se exprimir um juízo crítico além do estético, ainda que a estética não seja irrelevante na vida humana. Oponho-me, critica e visceralmente, às mensagens do big brother, cujo uso do fluxo vital acaba falsamente legitimado pela “reality” [show]. Resultam de um uso viciado pelo consumismo do momento. Fora o mau gosto ou, pior, a hipocrisia truculenta! Sobre esta, trago o exemplo vivido, há séculos, pelo filósofo neerlandês Baruch de Espinosa e o banimento de seu meio religioso, afetivo e familiar, oposto a um elogio posto ao pé da sua estátua em Haia.

O banimento de Espinosa (texto original em português) (*)

“Os Senhores do Mahamad [Conselho da Sinagoga] fazem saber a Vosmecês: como há dias que tendo notícia das más opiniões e obras de Baruch de Spinoza procuraram, por diferentes caminhos e promessas, retirá-lo de seus maus caminhos, e não podendo remediá-lo, antes pelo contrário, tendo cada dia maiores notícias das horrendas heresias que cometia e ensinava, e das monstruosas ações que praticava, tendo disto muitas testemunhas fidedignas que deporão e testemunharão tudo em presença do dito Spinoza, coisas de que ele ficou convencido, o qual tudo examinado em presença dos senhores Hahamim [conselheiros], deliberaram com seu parecer que o dito Spinoza seja heremizado [excluído] e afastado da nação de Israel como de fato o heremizaram com o Herem [anátema] seguinte:
“Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza […] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar […] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar pela boca nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.” ”

O monumento feito em homenagem a Spinoza em Haia foi assim comentado (…) em 1882: “Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas — pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus.”

***

Há quem traga gente melhor, mas eu só posso me servir do que lutei para conseguir pensar – coisas que nos retornam à fome dos inícios, associadas tristes da fome que que temos visto voltar a famílias, artistas e a poetas em situação de rua. São nós, amanhã, excetuada a gentalha rentista dos extermínios banalizados pelo consumismo. Excetuada a canalha entranhada na rede e na linguagem daquele touro feito de isopor dourado posto nos templos; alimentada pelo cancelamento de vidas escravizadas; pelo cancelamento da Cultura.
Qualquer cancelamento de uma expressão crítica à desgraça é pior que a própria desgraça.

(*) fotos e textos de Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Espinoza