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Bravíssimo | Rubens Corrêa por Sérgio Fonta

Publicado em: 16/10/2014 |

Introdução do livro ” Um salto para dentro da luz “, de Sérgio Fonta, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

 

Quando o jovem repórter entrou, pela primeira vez de dia, no Teatro Ipanema, o bairro carioca que dava nome àquela casa de espetáculos já estava eternizado na poesia e na melodia da dupla Vinicius de Moraes/Tom Jobim. Ipanema fervilhava. Toda a moda começava ali, toda a gíria, todo o sonho, toda a mudança de costumes. Ipanema era a bela mulher dourada, cantada em prosa, verso e desejo. Mas na cabeça do jovem repórter, também repleta de prosa, verso e desejo, havia bem mais que isso. O Teatro Ipanema era o reduto de montagens de alta qualidade, como O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov, e O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Fernando Arrabal. E nele trabalhava outra dupla de criadores tão forte quanto a dupla Tom e Vinicius, embora sua linguagem fosse a do palco, da paixão pelo teatro: Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque. De seus corações e olhares sobre a arte e a vida surgiriam, mais tarde, inúmeros outros trabalhos incensados pelo público e pela crítica.

 

Naquela tarde ensolarada de Ipanema, porém, o jovem repórter só pensava que entrevistaria Rubens Corrêa, um grande ator, que exibia uma performance admirável vivendo o imperador de uma Assíria desvairada e onírica, ao lado de José Wilker. O rapaz estava um pouco ansioso, pois já tinha visto, na noite anterior, a montagem do texto de Arrabal e ficara fascinado. Agora estaria cara a cara com seu entrevistado, longe dos palcos e das luzes. Jamais poderia imaginar que aquele mundo, um dia, também seria seu e que o jornalismo seria colocado em segundo plano – sendo democraticamente distribuído mais tarde, em suas atividades, com a mesma entrega – para dar lugar ao ator e escritor que já moravam nele, mas ainda dormiam, insabidos. Também jamais poderia imaginar que acabaria assistindo ao espetáculo dirigido por Ivan de Albuquerque por nove vezes mais. Hoje ainda 12 se lembra de cada momento do espetáculo: ao entrar na pequena sala do Teatro Ipanema, com suas 280 cadeiras, o público deparava-se com uma espessa floresta verde engendrada pelo cenógrafo Arlindo Rodrigues e complementada por uma iluminação inspirada. Quando o espetáculo começava, porém, a luz mudava e percebia-se que a mata densa era apenas a distribuição de longos fios repletos de pedaços de jornal vindos do teto e iluminados por refletores com gelatina verde que envolviam toda a plateia. Os fios eram recolhidos, desapareciam como por encanto de nossos olhos e, então, iniciava-se O Arquiteto e o Imperador da Assíria, com poucos objetos cênicos, o palco praticamente nu e um barulho ensurdecedor para anunciar a chegada do homem que vinha de longe, o imperador, um voraz embate entre o urbano e o selvagem. O que dizer das atuações de Rubens, senhor do seu espaço, comandante irrevogável, dilacerado e definitivo, e de Wilker, pleno como o arquiteto? Dois belos momentos de teatro. E o que dizer da belíssima trilha sonora criada por Cecília Con-de? E da encenação com direito a pietás, missas mozartianas e um enorme e misterioso chapéu branco de mulher?

 

O jovem repórter não poderia sequer supor que, durante seu período como jornalista, faria muitas outras matérias com Rubens, não só para o 13 Jornal de Ipanema, onde realizava reportagens e entrevistas, como também para o Jornal de Letras. Também não poderia supor que, muitos anos mais tarde, o próprio Rubens dirigiria Flor do Milênio, um roteiro seu a partir de poemas de Denise Emmer e que seria encenado com Fernando Eiras, Ana Beatriz Nogueira e Isabel Teresa. E, mais uma vez, não poderia supor que o mesmo Rubens, já nos anos 1990, leria um denso texto seu, tencionando dirigi-lo após concluir a segunda temporada de Artaud!, seu grande legado de ator para todos nós. Não deu tempo, pois a morte o levaria em 1996. Mas o que aquele jovem repórter, nos remotos anos 1970 e mesmo muito tempo depois, jamais poderia imaginar em tempo algum é que, no século XXI, ele estaria completamente mergulhado em pesquisas, depoimentos, imagens e memórias para escrever um livro sobre nada mais, nada menos que o próprio Rubens Corrêa. 

 

Agora o livro está pronto. 

 

Meu caro e querido amigo, espero ter conseguido ser fiel ao seu generoso mosaico humano e possa filtrar, nestas páginas, pelo menos parte da imensa luz que você significou para os que tiveram o privilégio de sua convivência, para seus colegas e admiradores. Viva seu trabalho14 incansável, refinado e apaixonado. Viva tudo o que você representou e dignificou no teatro brasileiro. Não foi pouco. Viva você!

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