
Em A Culpa é dos Javalis, apresentado no espaço cênico d’O Andar, a companhia A Motosserra Perfumada transforma um não-lugar em campo de batalha simbólico. O ponto de ônibus perdido no meio do nada, concebido pela cenografia de Rafael Bicudo, funciona como uma espécie de purgatório contemporâneo onde cinco homens permanecem suspensos entre a ressaca de uma festa fracassada e a impossibilidade de compreender o mundo que os cerca. É nesse espaço de espera, tão banal quanto metafísico, que a encenação de Biagio Pecorelli constrói uma narrativa visual marcada pela precariedade, pelo excesso e pela ruína das certezas masculinas. A produção é de Jessica Oehlerick.
O texto de Pecorelli encontra sua força na combinação entre humor corrosivo e observação social afiada. Sem abrir mão do absurdo e da caricatura, a dramaturgia constrói diálogos que expõem as contradições, inseguranças e fragilidades de personagens presos a modelos ultrapassados de masculinidade. O riso surge frequentemente atravessado pelo desconforto, transformando a comicidade em ferramenta crítica. Ao evitar respostas fáceis ou julgamentos simplistas, Pecorelli cria uma escrita ácida que revela, por trás das bravatas e do deboche, um retrato contundente de homens incapazes de lidar com as transformações do mundo ao seu redor.
A visualidade do espetáculo nasce da tensão entre o realismo do ambiente e o delírio das situações. O ponto de ônibus, elemento reconhecível do cotidiano urbano, surge deslocado de qualquer geografia concreta. Não há cidade, não há destino, não há passagem possível. O cenário torna-se uma imagem potente do impasse vivido por aqueles personagens: homens incapazes de avançar, presos a uma espécie de limbo emocional e ideológico. A espera, aqui, não é apenas física; é também histórica. A masculinidade representada em cena parece aguardar um ônibus que nunca chegará.
O figurino de Mariana Cypriano contribui decisivamente para a construção desse universo. As roupas revelam personagens que tentam sustentar aparências já desgastadas, como se os corpos carregassem os restos de uma festa que nunca terminou. Há algo de decadente e melancólico nesses homens que, apesar do discurso agressivo e das tentativas de reafirmação de poder, parecem permanentemente à beira do colapso. O figurino opera menos como caracterização psicológica e mais como vestígio visual de uma identidade em decomposição.
A luz, assinada pelo próprio Biagio Pecorelli, assume papel dramatúrgico fundamental na construção da atmosfera do espetáculo. O desenho luminoso cria zonas de exposição e sombra que refletem as contradições dos personagens, retirando deles qualquer possibilidade de heroísmo e revelando-os em sua fragilidade grotesca. O espaço ganha contornos de arena, confessionário e terreno baldio simultaneamente, ampliando a sensação de que aqueles homens estão encurralados dentro de suas próprias narrativas. Entretanto, na sessão assistida, a operação apresentou falhas perceptíveis de execução, com atrasos em algumas entradas, cortes imprecisos e transições que por vezes quebravam a fluidez da cena. Tais problemas não comprometem a inteligência da proposta luminosa, mas acabam interferindo na plena realização de um desenho que se mostra essencial para a construção da narrativa visual e da atmosfera de desorientação que sustenta a encenação.
O trabalho sonoro de Dugg Mont e a trilha original composta por Ernani Sanchez aprofundam essa atmosfera de instabilidade. Música, ruídos e intervenções sonoras não funcionam apenas como ambientação, mas como elementos que expandem o estado mental dos personagens. A paisagem sonora oscila entre o cômico e o ameaçador, produzindo um efeito semelhante ao da própria dramaturgia: o riso nunca está completamente separado do desconforto.
A aparição de Betty Braite, interpretada com vigor por Camila Rios, no desfecho produz uma ruptura decisiva na lógica visual que até então organizava a encenação. Durante toda a peça, sua existência é construída por meio dos relatos contraditórios, fantasias e paranoias dos homens em cena, tornando-a uma figura quase mítica, projetada pelo imaginário masculino como ameaça, desejo e punição. Quando finalmente surge, Betty desmonta instantaneamente a imagem monstruosa que lhe foi atribuída. Sua presença física concentra uma potência cênica que reorganiza o olhar do espectador e revela o quanto a narrativa anterior era atravessada por medos e ressentimentos. A encenação transforma essa entrada em um acontecimento visual de forte impacto dramático, capaz de deslocar o eixo da comicidade para uma dimensão mais inquietante e reveladora.
O efeito devastador dessa aparição não decorre de qualquer gesto espetacular, mas da capacidade da personagem de expor o vazio dos discursos que a antecederam. Betty emerge como uma espécie de acerto de contas com as fantasias masculinas que sustentam a trama. Sua presença faz ruir as versões construídas pelos personagens, obrigando-os a confrontar suas próprias fragilidades, frustrações e mecanismos de autopreservação. Visualmente, o espetáculo alcança nesse momento sua imagem mais poderosa: não a de uma vingança ou de uma vitória individual, mas a do colapso de uma estrutura simbólica inteira. O que desaba diante do público é a narrativa que aqueles homens criaram para justificar seus fracassos, revelando que o verdadeiro campo de batalha nunca esteve em Betty, mas nas contradições que habitam cada um deles.
Nesse sentido, A Culpa é dos Javalis aproxima-se de uma tradição satírica que utiliza o exagero para expor mecanismos de poder. A encenação faz da caricatura uma ferramenta crítica. Os corpos masculinos em cena oscilam entre a bravata e o ridículo, entre a violência e a vulnerabilidade. O humor surge como estratégia de desmontagem. Cada piada revela uma fissura; cada explosão de machismo expõe um medo; cada gesto de autoridade deixa transparecer uma profunda insegurança.
O bom elenco, composto por Victor Moretti, Bernardo Mendes, Alexandre Tigano, Afonso Bispo Jr e Ernani Sanchez sustenta essa operação com precisão. Os atores constroem figuras maiores que a vida, mas nunca completamente descoladas da realidade. Há uma corporeidade constantemente tensionada entre a performance social do macho e a falência íntima do sujeito. Essa dimensão física da atuação contribui para que a visualidade do espetáculo ultrapasse o texto e se inscreva diretamente nos corpos, transformando-os em territórios de disputa simbólica.
O que torna a proposta da A Motosserra Perfumada particularmente interessante é observar o desmoronamento de um modelo de masculinidade incapaz de lidar com as transformações do presente. O resultado é uma comédia amarga, na qual o riso surge frequentemente acompanhado de um sentimento de inquietação.
O espetáculo deixa a impressão de que os verdadeiros javalis do título talvez não sejam personagens específicos, mas os impulsos destrutivos que atravessam uma cultura ainda presa a velhos pactos de poder. A narrativa visual construída por Biagio Pecorelli transforma esse colapso em imagem cênica. Entre luzes cruas, corpos exaustos, memórias fragmentadas e fantasmas inventados, A Culpa é dos Javalis encontra uma forma singular de representar homens que já não conseguem reconhecer o terreno sob seus próprios pés.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

