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Bob Sousa entrevista Louise Hèlene

A artista Louise Helène investiga a conexão entre linguagens artísticas com um gesto de ruptura que é também um gesto de exposição radical. Em A festa do abandono, apresentada pela primeira vez ao vivo no Teatro Iqué, seu corpo deixa de ser apenas suporte e se transforma em campo de inscrição de memórias, afetos e violências silenciadas. Reconhecida por uma trajetória consolidada no teatro, coroada pelo Prêmio Bibi Ferreira, Louise desloca sua pesquisa estética para uma dimensão profundamente autobiográfica, sem perder de vista o alcance coletivo de sua obra. Ao tensionar a experiência íntima do abandono paterno com a realidade estrutural brasileira, a performance constrói um ritual cênico que oscila entre lamento e reinvenção. A tinta vermelha que recobre o corpo não apenas materializa a dor, mas também instaura um território simbólico onde ausência e presença se confundem. Nesta entrevista, Louise Helène reflete sobre os atravessamentos entre arte e vida, sobre o corpo como linguagem e sobre os limites e potências de transformar feridas pessoais em experiência compartilhada.

Bob Sousa – Em A festa do abandono, seu corpo se torna suporte e linguagem ao mesmo tempo. Como se deu o processo de decisão de colocar a própria experiência no centro da criação?

Louise Helène – Colocar meu corpo e minha experiência no centro da criação foi um processo natural da evolução desse trabalho. Sou atriz e passei 10 anos consecutivos nesse lugar. Quando descobri a pintura, ela primeiro fez sentido no corpo de outras pessoas… até chegar no meu. A partir daí, não consegui conter o impulso nem o desejo de sentir, ao vivo, tudo que a tinta no meu corpo poderia gerar como criação.

Bob Sousa – A performance parte de uma vivência íntima, mas rapidamente se expande para uma dimensão coletiva. Em que momento você percebeu que essa história não era apenas sua?

L.H. – Quando pessoas que conheciam meu trabalho por fotos e vídeos agora o veem ao vivo, elas relatam o impacto que sentem. Tanto na primeira quanto na segunda apresentação de “A Festa do Abandono”, algumas pessoas me escreveram dizendo que se conectaram. Que, ao me verem viver e concretizar aquela cena, se sentiram integradas e, de alguma forma, curadas – porque presenciaram e participaram diretamente da minha catarse.

Bob Sousa – A tinta vermelha aparece como elemento central da cena. Que simbologias e sensações você buscou ativar com essa materialidade?

L.H. – A tinta vermelha me veio como insight num ritual de ayahuasca. Então, foi uma escolha intuitiva. Mas ao tentar reproduzir a imagem que vi durante a consagração – eu, vestida de festa, com um balde de tinta vermelha na mão, pintando tudo ao meu redor – eu entendi: o vermelho é símbolo de morte, renascimento e vida. Quando me banho de tinta vermelha, a sensação é de estar morrendo e renascendo ao mesmo tempo.

Bob Sousa – Sua trajetória no visagismo sempre esteve ligada à construção de personagens. O que muda quando o corpo em cena não representa, mas se apresenta?

L.H. – Tudo muda. Ao me propor a criar ao vivo, com o testemunho e a presença de uma plateia inédita, minha relação com a criação se transforma. Porque tudo que nasce naquele momento precisa ser absolutamente novo – inclusive pra mim. Eu entro em cena sem saber o que, nem como vai acontecer. E o exercício de me manter presente, em conexão com tudo e todos que me cercam, faz desse trabalho a coisa mais arriscada que já me propus a fazer na vida. Não tem ensaio. Não tem rede de proteção. Não tem nada em que eu possa me ancorar se algo sair do planejado. Porque, justamente, não há planejamento. Só existe impulso, ação e reação.

Bob Sousa – A obra transita entre dor e celebração. Como você equilibra essas duas forças sem que uma anule a outra?

L.H. – Não sei como equilibro. Acho que é buscando ser honesta com o que sinto. Sou feliz e triste por ser quem sou. Celebro minha dor, porque se não o fizesse, adoeceria. Tive que aprender a integrar a alegria e o desespero de ser quem sou e de ter a história que tenho. Meus rituais de ayahuasca me prepararam pra entender, mentalmente, emocionalmente e fisicamente, que a única forma de atravessar e aceitar uma dor como o abandono foi aprendendo a integrar e celebrar esse acontecimento.

Bob Sousa – Ao abordar o abandono paterno em um país marcado por essa realidade, que tipo de escuta ou resposta você espera provocar no público após a experiência?

L.H. – Eu espero sensibilizar quem assiste. Não posso querer mais do que isso. Fico extremamente comovida em saber que o trabalho comunica, emociona e transforma. Sou um ser humano me propondo a reviver e celebrar meus abandonos, convidando quem está perto a fazer o mesmo. Vivo esse processo de verdade, porque de outra forma ele nem existiria. Humanizar quem está ali, gerar conexão – pra mim, é o maior presente que eu poderia receber.

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