
Poucas encenações contemporâneas conseguem traduzir com tanta precisão uma dramaturgia de conflito para o espaço cênico quanto Cock, texto de Mike Bartlett dirigido por Nelson Baskerville. A montagem brasileira compreende que a força da obra não reside apenas nos embates verbais entre seus personagens, mas sobretudo na capacidade de transformar o palco em um território de exposição emocional. A visualidade construída pelo espetáculo opera como extensão dos impasses internos do protagonista, fazendo da cena um campo de forças onde desejos, inseguranças e expectativas sociais colidem diante dos olhos do público.
A concepção cenográfica de Chris Aizner parte de uma radical economia de elementos. O espaço é delimitado por um quadrado desenhado no chão por linhas brancas e vermelhas, evocando simultaneamente um ringue de boxe, uma arena de combate e o território simbólico das rinhas que inspiraram Mike Bartlett na criação da obra. Essa marcação geométrica simples transforma-se em poderosa metáfora visual dos embates que atravessam a narrativa. Dentro desse perímetro, os personagens expõem suas fragilidades, desejos e contradições sem qualquer possibilidade de fuga. Não há paredes, mobiliários ou elementos naturalistas que amenizem a tensão. Tudo converge para o confronto. O quadrado torna-se uma prisão emocional e, ao mesmo tempo, um campo de batalha onde identidades, afetos e expectativas sociais são colocados à prova diante do olhar atento da plateia.
Essa depuração cenográfica revela um dos maiores méritos da encenação: transformar o vazio em linguagem. A ausência de elementos decorativos amplia a percepção dos movimentos, das pausas e dos deslocamentos dos atores. Cada aproximação ou afastamento ganha valor dramatúrgico. Cada mudança de posição dentro da arena redefine relações de poder. O espaço vazio torna-se densamente habitado pelas tensões emocionais que atravessam a trama.
A iluminação de Wagner Freire desempenha papel decisivo nessa construção visual. Suspensa sobre a área de atuação, a grande luminária central funciona como um mecanismo dramatúrgico que regula a temperatura afetiva das cenas. Outro elemento fundamental da narrativa visual de Cock está no uso recorrente dos blackouts, empregados por Nelson Baskerville não apenas como recurso técnico de transição, mas como parte integrante da dramaturgia cênica. Assim como os assaltos de uma luta de boxe, os apagamentos interrompem momentaneamente o combate para que, instantes depois, os personagens retornem ao centro do ringue ainda mais tensionados. Cada blackout funciona como o soar de um gongo invisível, marcando o fim de uma rodada emocional e preparando o terreno para um novo confronto.
A escuridão repentina produz um efeito de suspensão que impede a acomodação do espectador. Quando a luz retorna, as relações já se reorganizaram, as alianças mudaram de posição e novos golpes verbais estão prestes a ser desferidos. O recurso reforça a metáfora da rinha presente na origem da obra de Mike Bartlett, transformando a progressão dramática em sucessivas etapas de uma disputa na qual não existem vencedores claros. Todos os personagens saem feridos de alguma forma.
A visualidade da montagem também se destaca pela recusa em associar identidade a signos fixos. Os figurinos concebidos por Marichilene Artisevskis evitam caracterizações evidentes ou marcadores sociais rígidos. Em uma obra que questiona justamente a necessidade de enquadrar pessoas em categorias definitivas, a neutralidade das vestimentas torna-se um gesto político e poético. Os personagens existem antes dos rótulos. O público é levado a enxergá-los através de suas vulnerabilidades e não de códigos previamente estabelecidos.
Outro aspecto fundamental da narrativa visual está na maneira como Baskerville transforma os corpos dos atores em principal elemento cenográfico. Sem objetos que disputem atenção, a encenação deposita sua confiança na presença física do elenco. Daniel Tavares constrói um John permanentemente tensionado entre desejo e culpa, enquanto Hugo Coelho, Bruna Thedy e Marco Antônio Pâmio ocupam a arena como forças gravitacionais distintas que atraem, pressionam e desestabilizam o protagonista. O resultado é uma coreografia emocional de extrema precisão, na qual o desenho espacial dos corpos se torna tão eloquente quanto as palavras.
O diretor conduz os atores por uma encenação que exige extrema precisão rítmica, já que a dramaturgia de Mike Bartlett se sustenta em interrupções, pausas, mudanças bruscas de direção e embates verbais que funcionam como golpes sucessivos dentro do ringue cênico. O resultado é um jogo interpretativo vivo, pulsante e profundamente humano, no qual nenhum personagem surge como portador de verdades absolutas.
Daniel Tavares constrói um John atravessado por dúvidas permanentes, evitando qualquer leitura simplificadora da crise identitária do personagem. Sua atuação encontra potência justamente na instabilidade. O ator expõe fragilidades, contradições e hesitações sem recorrer ao sentimentalismo, permitindo que o público acompanhe a complexidade de um homem incapaz de organizar seus próprios desejos diante das expectativas sociais que o cercam.
Entretanto, são Marco Antônio Pâmio e Bruna Thedy que produzem alguns dos momentos mais magnetizantes da encenação. Pâmio cria uma figura marcada pela experiência, pela autoridade e por uma presença cênica que se impõe sem esforço aparente. Sua atuação trabalha com a contenção e com a inteligência do subtexto. Cada olhar, cada silêncio e cada frase pronunciada carregam camadas de julgamento, afeto e manipulação. O ator domina o espaço com rara elegância, transformando sua aparente serenidade em uma força dramatúrgica capaz de tensionar toda a cena. Sua composição revela um personagem que acredita possuir respostas para os conflitos alheios, tornando ainda mais evidente a violência silenciosa dos enquadramentos sociais impostos ao protagonista.
Já Bruna Thedy ingressa na montagem com vigor e frescor notáveis. Sua personagem surge como possibilidade de deslocamento dentro da narrativa, mas a atriz evita transformá-la em mera representação de uma alternativa amorosa. Thedy constrói uma presença luminosa, espontânea e afetivamente disponível, fazendo emergir uma mulher que também possui desejos, inseguranças e expectativas próprias. Sua interpretação encontra equilíbrio entre leveza e intensidade, ampliando a dimensão humana da personagem e impedindo que ela se torne apenas um elemento do dilema central de John. Há uma energia expansiva em sua atuação que modifica o ritmo das cenas e cria contrapontos fundamentais à atmosfera de tensão constante da montagem.
Ao lado deles, Hugo Coelho contribui com uma composição marcada pela explosão emocional, completando um quarteto que opera em permanente estado de escuta. O mérito do elenco está justamente na capacidade de sustentar a densidade dos conflitos sem perder a naturalidade. Em Cock, os atores ocupam o ringue como corpos expostos, feridos e desejantes, transformando cada confronto verbal em um acontecimento emocional de grande potência cênica.
O grande triunfo estético de Cock reside justamente nessa escolha pelo essencial e sua narrativa visual nasce da precisão dos gestos, da arquitetura dos corpos no espaço, da incidência da luz e da inteligência com que o vazio é transformado em significado. O espetáculo compreende que a crise de identidade vivida por John não pode ser representada por imagens ilustrativas. Ela precisa ser experienciada como tensão.
Ao final, o ringue concebido por Nelson Baskerville deixa de ser apenas um espaço de disputa amorosa para se tornar metáfora de uma sociedade que insiste em exigir definições onde existem ambiguidades. A visualidade da montagem transforma essa arena em espelho contemporâneo. Ali, diante de um espaço quase nu, emerge uma das imagens mais contundentes do espetáculo: a de um ser humano tentando sobreviver à violência dos rótulos enquanto busca, desesperadamente, o direito de existir em toda a complexidade do próprio desejo.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

