Vozes femininas em palco

Publicado em: 02/06/2010

Um encontro de quatro vozes femininas emocionou ouvintes na primeira mesa de discussão da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, na noite de segunda-feira, 31 de maio, no Teatro Aliança Francesa.

 

Com mediação de Isabel Setti e performances das cantoras Andrea Kaiser e Andrea Drigo. O tema da mesa de discussão foi o Espaço Direcional, onde Gloria Beuttenmüller, criadora do método, dissertou sobre a voz como instrumento no teatro.

 

Considerada referência no trabalho vocal, Gloria é fonoaudióloga, pesquisadora e professora emérita da Unirio – Universidade Federal do Rio de Janeiro e recebeu prêmio Shell pela contribuição dos trabalhos ao Teatro. Atualmente, participa de diversos congressos nacionais e internacionais.

 

 Um abraço sonoro

 

“É sempre bom compartilhar a vida com os mais jovens. O teatro é a arte de conquistar amigos. A vida é o teatro e o teatro é vida. Eles devem estar sempre unidos”, entoa Gloria no camarim do Teatro Aliança, minutos antes da mesa de discussão.

 

Quando sobe ao palco, a palestrante pede aos técnicos que aumentem as luzes da plateia obscura. “O ser – humano tem de saber gostar de gente; olhar é mais dinâmico quando acontece”, diz.

 

Beuttenmüller descobriu sua verdadeira vocação quando, em meados de 1960, foi questionada por um deficiente visual sobre a estética das palavras, com a seguinte frase: “Há palavras que eu desconheço porque eu não vejo. Eu vejo o sol porque tem calor. Mas a lua eu não sei como é”. E, a partir dessa indagação, percebe que a compreensão do universo simbólico das palavras, se enriquece por meio de imagens internas e pelo aprimoramento dos sentidos.

 

Glória cria o método de trabalho vocal/corporal Espaço Direcional. Após, é convidada para trabalhar a voz de atores de teatro e televisão. “A arte de falar não pode ser apenas por competência profissional, deve ser por competência humana. (…) cada vez que o ator se move, há um deslocamento desse ponto, fazendo com que o som tome a forma do espaço a ser atingido, por meio de um abraço sonoro”, discursa.

 

Para Juliano Casimiro, coordenador dos Cursos de Difusão da SP Escola de Teatro. “É sempre instigador ver diferentes escolas de teatro se mobilizando para estar em um evento de tão grande valia como este. A EAD – Escola de Arte Dramática – e o Conservatório de Tatuí suspenderam aulas para que os alunos pudessem estar no encontro. Só de ver a cara de felicidade das pessoas ao saírem do teatro, já mostra o quão grandiosa foi essa `aula magna´ ministrada de modo tão intimista”, afirma.

 

Janaína Sizinio, estudante do conservatório de Tatuí, participou do encontro para entender o método e atenuar a dificuldade de fazer uso da voz na tragédia “a questão da voz foi discutida amplamente no conservatório, agora é o momento de estabelecer um paralelo entre a parte teórica e prática dos meus estudos”, afirma.

 

 

Glória não termina a mesa de discussão antes de uma colocação: “Quando me convidam para eu passar a minha verdade, saibam vocês: eu encontro a paz.” E, aplaudida pela plateia, levanta calmamente na cadeira e simula “um abraço sonoro”.

SAIBA MAIS

Glorinha Beuttenmüller para ler:

1.    Tragédia: o mal de todos os tempos. Como suavizar a voz nesses conflitos. São Paulo. Editora EME, 2009;

2.    Expressão vocal e expressão corporal. Rio de Janeiro: Enelivros,1974;

3.    O despertar da comunicação. Rio de Janeiro: Enelivros, 1995.