Viciados

Publicado em: 02/10/2013

por João Branco*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vício consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula de “A tempestade”, de Shakespeare, em apenas 45 dias, com uma equipe de 24 elementos, onde, só por raras vezes, se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estreia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa, nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole das mais variadas, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Por que fazemos; por que teimamos; por que nos importamos; por que nos sacrificamos; por que nos sujeitamos; por que sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa; por que somos por vezes tão masoquistas? Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles, no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: por que fazemos teatro? Cada um dos cerca de 30 participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que ficaram na minha memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vício do que esta?

Mas o teatro é um vício diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer, tendo em conta todas essas aparentes sequelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificativas que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como os viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou, no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas.

Uma atriz cabo-verdiana escreveu, há poucos dias, num comentário no Facebook, a seguinte frase em crioulo (a língua materna de Cabo Verde): “jent mestê tiatre pa no pode senti max jent”, ou seja e traduzindo para o português, “a gente precisa do teatro para se sentir mais gente”. É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta  perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. García Lorca já o tinha dito – e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos – sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cênica têm o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um clichê, mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas!

Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, no próximo fim-de-semana, vai nascer uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, vai se apresentar com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estreia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em início de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respectivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com os quais tenho cruzado nesta caminhada. É por isso que faz sentido falar de vício. E hoje também faz sentido recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luis Miguel Cintra: “Para cada nova companhia de teatro que nasce deveriam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficará um pouco mais brilhante nos próximos dias.

*A coluna de João Branco é publicada mensalmente. Clique aqui para ler outras colunas.