Vic Militello por Raul Barretto

Publicado em: 21/02/2013

O Pior Espetáculo em Cartaz

Por Raul Barretto*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

“Boa noite. Inacreditável que vocês tenham vindo. Nós avisamos… Mas mesmo assim vocês vieram nos assistir. Bem-vindos ao pior espetáculo em cartaz na cidade. O crítico veio e escreveu que é tão ruim, que é quase bom. Ficamos preocupados, precisamos piorar. Aqui, o público é sempre o mesmo, o espetáculo é que muda a cada semana.”

Assim a divina Vic Militello iniciava o seu espetáculo “Teatro de Terror”, sucesso Cult absoluto nos palcos do Rio e de São Paulo, no início dos anos 90, sempre à meia-noite. Era o nosso “Rock Horror Show”. Tive o prazer de participar deste evento durante muitas semanas e considero esta experiência como uma das minhas maiores escolas de teatro e de humor. Ensaiávamos um dia para “não correr o risco de ficar bom” , dizia a Vic. Nos encontrávamos na sexta-feira, algumas horas antes do espetáculo e combinávamos as cenas.

Interrompo esta narrativa para anunciar que dentro de algumas linhas , logo abaixo, apresentarei para vocês o incrível JOAQUIM, O HOMEM-BOMBA.

Era uma trupe de, em média, 20 pessoas, sempre com algum convidado ilustre do teatro, da TV e do circo. Gente como Rosi Campos, Zé do Caixão, Capitão Sbano. Além deles, os filhos dos artistas, as netas da Vic, valia tudo, afinal de contas tratava-se do pior espetáculo em cartaz. Detalhe fundamental: no elenco fixo, sempre contávamos com a presença única e especial do Gibe, um dos maiores cômicos que este País já teve e que era, junto com a Vic, a grande alma do espetáculo. O roteiro tinha duas partes: na primeira, apresentavam-se quadros e, na segunda, resgatava-se uma das clássicas peças do vasto repertório de circo-teatro como, por exemplo,   “O Céu Uniu Dois Corações”, “Ferro em Brasa”, “Os Monstros Também Choram”.  

 

A propósito, não percam, ainda hoje, nesta mesma crônica, nossa novela de suspense: “NÃO TEM NINGUÉM EM CASA”. 

E em alguns minutos JOAQUIM , O HOMEM-BOMBA, que já estará posicionado.

Uma característica constante do espetáculo “Teatro de Terror” era a participação coletiva do público e, para isso, a “riquíssima produção”, comandada pela MULHER COBRA, sempre preparava algum adereço para distribuir a todos os espectadores, transformando-os ora em figurantes de grandes épicos do cinema, ora em claque que atendia aos comandos escritos em placas, com interjeições, aplausos, risos etc.  Um que era constante era o chinelinho de plástico, que funcionava como cédula eleitoral. Num determinado momento, a Vic anunciava à plateia:

“Chegou a hora da tua participação. Aqui, Você Decide qual Drama circense NÃO quer ver montado na semana que vem. Apresentaremos três traillers, com atores diferentes, e, ao final, vocês votam atirando seus chinelos nos atores”.

Aí, fazíamos três cenas, absolutamente toscas, sempre com mortes no final, quando entrava a Vic , pedia para os cadávares “rolarem” mais próximos ao proscênio para receberem as chinelinhos, à medida que  apontava a cena. E ela mesma procedia a contagem dos “votos” e anunciava a escolhida para NÃO ser montada na próxima semana.

(Ouve-se uma grande explosão, seguida de um gemido e fumaças).

Por motivo de força maior, infelizmente, hoje não apresentaremos  mais JOAQUIM, O HOMEM-BOMBA. Mas informo que em seu lugar apresentaremos agora nossa novela de suspense, já anunciada anteriormente, “NÃO TEM NINGUÉM EM CASA”.

(entra um contra-regra trazendo uma mesinha com um telefone,a Vic anuncia com todas as letras em maiúsculo:  -“O CENÁRIO!!”).

(O contra-regra coloca a mesa no palco num foco de luz e sai, deixando a cena vazia. O telefone toca: triiimmm, triiimmm, triiiimmm, triiimmmm)

(tempo, pausa, a Vic volta e anuncia: “- Acabamos de apresentar ‘NÃO TEM NINGUÉM EM CASA’”.)

O melhor de tudo era a condução da Vic. Nunca vi melhor apresentadora ou mestre-de-cerimônias. Cada comentário, a plateia vinha abaixo.

– E, agora, a MULHER COBRA.

(Entra uma atriz, vestindo roupa dourada, com um bloquinho à mão e uma caneta. Invade a plateia pedindo para a pagarem e a Vic, a cada cobrança, mandava: “- Ela cobra. Ela cobra. Acabamos de apresentar a MULHER COBRA”).

Claro que toda esta cansativa explicação fica muito aquém do que era aquele espetáculo. Quem viveu viu… O motivo para eu citar trechos deste espetáculo é que nele eu pude conhecer o trabalho de uma das maiores artistas deste País, e que, lamentavelmente , vive no mais puro esquecimento. Digo artista porque a Vic Militello não é apenas uma atriz magistral, ela é uma criadora fenomenal, uma diretora fabulosa, uma verdadeira enciclopédia viva do circo-teatro brasileiro. Ou seja, ela é merecedora de uma reverência constante e de uma disputa permanente por um de seus vários talentos.

Sempre que ela faz alguma coisa, quer seja na TV, no cinema ou no teatro, ela é premiada, muito bem criticada, e, novamente, esquecida. E o teatro, o cinema e a TV a esquecem permanentemente.

Não entendo este esquecimento, este desprezo pela memória de grandes artistas, esta desvalorização da tradição circense, teatral e cinematográfica, da qual ela faz parte. Não estou falando de homenagem em vida, de placa de agradecimento, e sim de capacidade de trabalho, criatividade, conhecimento acumulado e não disponível, ao menos no papel, porque muito deste conhecimento ainda se propaga de modo oral, e vê-la em ação é ver este material virando arte.

Parece que as atuais velocidade e superficialidade das informações contribuem para nos afastar ainda mais do resgate de valores tão profundos da nossa cultura. Minha tentativa com estas mal traçadas linhas é apenas a de acender uma pequena lanterna sobre essa figura maravilhosa, na esperança de que possamos contribuir para que ela nunca saia dos holofotes do público. E que ela possa ainda nos brindar com toda sua arte. O danado é que é difícil iluminar uma estrela com uma lanterna, o que me leva a pensar que talvez o que nos impeça de ver essa majestade seja justamente o excesso de luz que emana deste verdadeiro Sol que é a divina Vicenza Militello.

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Raul Barretto, é ator, produtor, diretor de produção, palhaço e coordenador do curso de Humor da SP Escola de Teatro