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VER O OUTRO: Bob Sousa entrevista Julia Ianina

Entre documentos, memórias fragmentadas e versões contraditórias, O Caso Lorena transforma um suposto crime ocorrido nos anos 1990 em uma investigação sobre os limites da verdade, da imaginação e da própria condição humana. Estreando como dramaturga, Julia Ianina constrói uma narrativa que ultrapassa o gênero policial para mergulhar em questões ligadas à alteridade, à obsessão, à violência e ao fascínio coletivo pelos mistérios sem solução. Em cartaz no Sesc Ipiranga, a montagem dirigida por Carolina Manica convida o público a atravessar um território onde memória e fabulação se confundem, revelando não apenas os enigmas de um caso, mas também os aspectos mais obscuros e desconhecidos de nós mesmos. Nesta entrevista, Julia Ianina fala sobre o processo de criação da obra, sua relação com os arquivos que inspiraram a dramaturgia e as reflexões que atravessam esse inquietante universo.

Bob Sousa – Em seu texto de apresentação, você pergunta: “O que vejo quando as luzes se apagam?”. De que maneira essa pergunta se tornou o motor dramaturgico de O Caso Lorena e quais zonas da experiência humana você desejava iluminar justamente por meio da escuridão?

Julia Ianina – Essa frase é uma citação à uma musica dos Beatles e é, na verdade, a primeira fala da peça: “what do you see when you turn out the light / I can’t tell you but i know it’s mine”). Ela consegue sintetizar uma ideia que acho muito interessante: o escuro que enfrentamos ao fechar os olhos é algo tão particular que é impossível de ser explicado (ou compreendido) em palavras. É algo íntimo que enfrentamos sempre solitariamente, como o sonho ou a morte.

Assim esse verso acabou sendo uma espécie de disparador da dramaturgia, que se realizou em várias camadas. Tanto na esfera temática – o mistério, o sonho, a morte – quanto em esferas mais concretas, como as sugestões de iluminação que são parte da dramaturgia. (No texto há indicação em cada cena se ela acontece na luz, na penumbra ou no escuro). A Carolina e a Gabrielle (diretora e iluminadora da peça) souberam usar isso muito bem na encenação, preservando minhas sugestões e indo além, ao desenhar imagens muito fortes e impactantes no palco a partir desses contrastes – luz, contraluz, sombra etc.

Minha ideia é convidar o espectador a completar aquilo que não vê com a sua própria imaginação – porque as imagens e a narrativa proposta pela dramaturgia preservam sempre uma zona de escuridão. Por isso, acho que a peça é uma espécie de labirinto particular. Cada expectador percorre um caminho próprio e tem a chance de encontrar uma resposta única.

Bob Sousa – Embora parta de documentos, registros policiais e diários, a peça parece menos interessada em solucionar um crime do que em investigar a impossibilidade de alcançar uma verdade definitiva. Como você trabalhou dramaturgicamente essa tensão entre fato, memória e imaginação?

J.I. – A peça parte de uma série de inversões. Pra começar, decidi falar da obsessão pelos true crimes a partir de um crime inventado – eu brinco que é um “fake true crime”.

Além disso, a assassina confessa o crime, mas a identidade da morta nunca foi descoberta. E os motivos do crime também nunca foram revelados. Não se trata, portanto, de “quem matou?” Mas “por que matou?” Ou ainda: “quem morreu?”

Por isso, para mim, a imaginação, a memória e a projeção estão disfarçadas de investigação criminal para iluminar em cada um a sua própria hipótese. Mas sabemos que essa busca pela verdade dos fatos nunca será satisfatória. A verdade aqui será sempre inacessível ou indecifrável. Esse é o nó que amarra a protagonista e é também um desafio que a dramaturgia propõe ao expectador.

Bob Sousa – A obsessão da personagem Paula por compreender Lorena desloca a investigação para um território íntimo e psicológico. O que a figura do “outro” revela sobre nós mesmos quando tentamos decifrá-lo de forma tão intensa?

J.I. – Eu tenho algumas histórias subterrâneas que dão uma resposta bem concreta às perguntas da Paula. Acho que o texto pode enveredar para interpretações psicanalíticas e também fantásticas. E essas interpretações, ao meu ver, são complementares, não excludentes.

Mas o que me interessou investigar foi essa obsessão por um outro/outra que a gente rejeita – uma criminosa, uma assassina. Alguém que representa o horror, o abominável, e de quem buscamos nos afastar. Mas na peça o que acontece é o oposto – essa outra me atrai porque também diz algo sobre mim.

Gosto muito das histórias de fantasmas e dos duplos, muito comuns na literatura fantástica (Hoffman, Bioy Casares, Henry James). Acho que sempre há algo poderoso em olhar para si mesmo como um estranho – ou para um estranho como um desdobramento de si. O ator faz bastante esse trajeto, ele busca entrar na psique de seus personagens, idealmente, sem julgamentos morais. Sinto que é um exercício de alteridade interessante e quis partir disso para uma personagem – ser hipnotizada por uma assassina, buscar olhar o mundo pelos seus olhos e se perder pelo caminho.

Bob Sousa – O espetáculo dialoga com o fascínio contemporâneo pelos chamados true crimes. O que essa atração coletiva por histórias de violência e mistério revela sobre os medos, desejos e contradições da sociedade atual?

J.I. – Acho que essa é a pergunta que me moveu a escrever e a peça é o desdobramento dessa pergunta inicial em muitas outras. De qualquer forma, acho que vivemos em uma sociedade que se sente desconfortável nas zonas cinzentas. Essa busca por dividir o mundo entre bons e maus, o certo e o errado, acho que encontra conforto nas histórias de crimes. É um universo onde eu posso odiar alguém, condenar e julgar enquanto me sinto segura – porque não é comigo. Existe o alívio porque não sou a vítima. E por outro lado, tenho permissão para odiar alguém – que não sou eu e nunca seria, porque sou “boa”, sou uma “pessoa de bem”. Eu acho interessante retomar o exercício de lembrar que somos todos humanos e que podemos estar dos dois lados do espelho.

Bob Sousa – Há uma dimensão quase metafísica na obra, que transforma um caso policial em uma reflexão sobre identidade, morte, desejo e alteridade. Como essas questões filosóficas surgiram durante a escrita e de que forma elas estruturam a narrativa?

J.I. – Quando pensei na narrativa básica de “O caso Lorena” já tinha a intenção de percorrer caminhos bem concretos para saltar para questões mais amplas, que extrapolassem a mera averiguação de fatos e esclarecimento de mistérios. Mas a maneira como isso se deu foi muito surpreendente. Intuitivamente fui me deixando levar por imagens e sensações que cada vez mais me aproximavam do sonho ou do pesadelo. Nesse sentido, os filmes do David Lynch talvez sejam a influência mais marcante que percebo na minha escrita, mesmo que de maneira não intencional. Foi algo que percebi a posteriori e que sinto bem presente nessa dramaturgia. Sou apaixonada pelo universo do Lynch, mas a verdade é que parti de uma história bastante linear, com começo meio e fim, e no processo me percebi apagando as linhas, questionando minhas certezas e, principalmente, me permitindo tomar decisões e caminhos de maneira intuitiva. Agora olho e penso que isso tem muito mais a ver com o material que eu estava acessando – o sonho, a fantasmagoria, algo que me descobri tateando no escuro.

Bob Sousa – O Caso Lorena marca sua estreia como dramaturga. Ao ver esse texto, criado inicialmente em um núcleo de pesquisa dramatúrgica, ganhar corpo na cena através da direção de Carolina Manica e do trabalho dos atores, o que você descobriu sobre sua própria escrita e sobre a potência do teatro como espaço de investigação do invisível?

J.I. – Na primeira cena da peça eu proponho um exercício ao público. Imaginar o rosto de alguém que você não conhece. A partir do momento que iluminamos esse rosto no palco, é possível lembrar do que você imaginou? Acho que essa brincadeira consegue exemplificar o que sinto ao ver meu texto encenado. Quando escrevi tinha uma peça na cabeça, diferente da que fizemos. Mas durante todo o processo me surpreendi muito positivamente com o texto e dou esse crédito totalmente à equipe, que se debruçou sobre o que escrevi com um olhar muito generoso e talentoso. Acho que a Carolina Mânica entendeu completamente o desafio que a dramaturgia propunha e desenhou sua encenação de maneira muito inteligente e precisa, ampliando o impacto das palavras ao criar imagens fortes e poderosas. Outro acerto dela foi a escolha da ficha técnica. Todos ali deixaram sua marca. E ver meu texto na boca de atores que eu admiro tanto é um tipo de sonho virando realidade. É realmente mágico ver tudo isso acontecer e lembrar que tudo começou com você, escrevendo sozinha em sua casa. É a mágica do teatro.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

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