Uma Visita à Rússia de Tchecov – Parte 1

Publicado em: 06/06/2011

O outono paulista parece ter se preparado para receber um pouco da Rússia, especialmente o Teatro Anhembi Morumbi, neste sábado, 4 de junho de 2011. A temperatura fria aliada à tímida luz solar que iluminava a região foram as anfitriãs do público que lotou a sala para assistir a apresentação do Experimento do Módulo Verde da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

No evento, que teve oito horas de duração, cada um dos oito grupos tinha uma hora para se preparar, montar e desmontar o cenário, e apresentar uma cena de 15 minutos, que deveria ter como base o Realismo e “A Gaivota”, do dramaturgo russo Anton Tchecov.

Arkádina é Quem Manda
Iniciando, às 8h30, o primeiro grupo a se apresentar foi o Sete, que inseriu em seu cenário, quase que completamente branco, uma Arkádina caricaturada. Egoísta e interesseira, seus gestos extremamente exagerados e sua constante mudança de comportamento junto com o silêncio e as ações físicas dos demais atores conferiam um sutil toque de humor à encenação.

A apresentação agradou Juliana Jardim, artista residente do curso de Humor da SP Escola de Teatro e orientadora do coletivo. “Tivemos uma complicação com a luz, mas plasticamente foi muito bom. Achei o resultado bastante vivo.”

Juliana explica que interferir na montagem não era função do orientador, mas destaca um entre outros exercícios práticos realizados com seus aprendizes de Humor antes do Experimento. “Como percebi algumas dificuldades, propus atividades para aproximar os atores do texto, privilegiando a forma como eles o escutam e dizem, porque, naturalmente, eles têm tendência a sair falando as palavras. Daí em diante, eles mesmo se prepararam para esta apresentação.”

Entre a Vida e a Morte
Às 09h30, foi a vez do grupo Quatro compartilhar com o público o que preparou. Estudando a fundo a personagem Trepliov e encontrando a pulsão de vida e de morte – conceitos elaborados por Freud –, a apresentação destacou os conflitos internos vividos pelo protagonista, que têm fim quando este se vê rejeitado pela mãe e por Nina, seu amor não correspondido, e decide se suicidar. Erotismo, agressividade e uma certa pitada de humor se misturaram em harmonia. No cenário, elementos simples, como folhas no chão, um tronco de árvore e uma mesa.

A orientadora Lucia Acuña afirma que gostou da cena e completa destacando o que os aprendizes levarão de mais importante dessa etapa. “Acredito que a experiência da presença no palco e as particularidades da montagem são os principais aprendizados que eles adquiriram.”

Mix de Influências
Na terceira apresentação do dia, às 10h30, atores e atrizes do grupo Um adentraram o palco, vindos da entrada do teatro e passando pela escadaria no meio da plateia. Mesclando elementos do Expressionismo e do Impressionismo ao Realismo, a cena se passava primeiro na apresentação da peça escrita por Trepliov e, posteriormente, em um banco no parque.

“Pelo pouco tempo de trabalho que tiveram, era um desafio fazer “A Gaivota”. Mesmo assim, as resoluções que eles encontraram foram muito boas. O mais importante desse processo foi a convivência que eles tiveram entre si, pois puderam se conhecer como artistas das áreas estudadas e se apropriar das diferentes linguagens, além de se acostumar com o dia a dia do teatro”, avalia Cintia Campolina, orientadora do grupo e artista residente do curso de Sonoplastia da Escola.

A Farsa para o Riso
Para encerrar as montagens do período matutino, às 11h30 o grupo Cinco apresentou sua silenciosa cena. Se utilizando apenas de gestos para tratar dos distúrbios e perturbações nas comunicações humanas, o estilo farsesco de ritmo rápido e movimentos repetitivos arrancou muitos risos do público. Na segunda parte da cena, que se inicia logo após o estrondo do tiro que supostamente seria o suicídio de Trepliov, as falas passam a ser utilizadas.

No final, apenas um ator fica no palco, recitando um recado que Trepliov havia deixado, até que ele próprio aparece, com a famosa gaivota morta em suas mãos – elemento que, por sinal, já havia proporcionado várias risadas da plateia nas apresentações anteriores.

Na opinião Brian Penido Ross, artista residente de Direção e orientador do coletivo, o resultado da apresentação não é o mais importante. “O mais espantoso é que o Experimento aconteceu e acontece, o teatro acontece mesmo sob circunstâncias difíceis como essa, em que temos oito estreias no mesmo dia e pouco tempo de preparação. É para se comemorar que eles estejam conseguindo fazer algo bonito.”

Ainda segundo Ross, essa etapa é apenas o início da formação dos aprendizes. “Hoje é o primeiro dia da formação deles. A partir daqui é que eles vão localizar em que acertaram e em que erraram e tentar melhorar.”

Logo que o grupo terminou, às 12h30, o evento teve intervalo de uma hora, para retornar às 13h30 com as apresentações dos coletivos Dois, Seis, Três e Oito.

 

Confira como foi o período da tarde aqui.