Um Hamlet Moderno

Publicado em: 07/07/2011

As festas na Casa da Dinda, na era Collor, e os governos anteriores, alçados ao poder mediante fatalidades e impedimentos, são as fontes de inspiração para as cenas de “OhAmlet – do Estado de Homens e de Bicho”, espetáculo que estreia hoje (07/07), no Espaço Beta do Sesc Consolação. 

 

Baseado em “Hamlet”, de Shakespeare e na fábula “Amlet”, de Saxo Grammaticus, historiador medieval dinamarquês, o espetáculo, com dramaturgia e encenação assinadas por Evill Rebouças, tem dois aprendizes de Direção da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco na equipe técnica do espetáculo Luciana Ramin (criação de vídeos) e Leonardo Mussi (no elenco). 

 

“Este trabalho é muito especial para mim, pois as cenas da peça foram criadas sobre as proposições dos atores. O diretor trazia textos como provocações e, assim, muitas criações surgiram e vieram de todos os lados”, revela Mussi. “Criamos atores-encenadores e isso tem muito a ver com meu trabalho como ator e diretor”, conclui.

 

“Estudar direção na SP Escola de Teatro me fez entender o ‘olhar do todo’. O período de ensaio e o meu ingresso na Escola foram concomitantes, assim, as experimentações feitas em sala de aula contribuíram muito para meu papel no espetáculo”, explica Mussi.

 

Já a criação de vídeo foi realizada por Luciana e pelo grupo 7º Andar (www.andar7.com). Fundado por ela e pelo artista plástico Gabriel Netto em 2008, o 7º andar desenvolve pesquisas estéticas e conceituais com referências nas diversas linguagens: teatro, fotografia, literatura, dança, artes plásticas e cinema; e conta, também, com artistas colaboradores de diversas áreas, que buscam em suas experimentações fundir realidade e ficção, explorando recursos documentais.  

No enredo, os mortos de Elsinore convidam o povo a conhecer situações trágicas e cômicas que permeiam uma disputa de poder. O jovem Hamlet, contrata a Cia. Artehúmus de Teatro para encenar o assassinato de seu pai e, quem sabe, descobrir quem realmente o tirou do poder. 

 

”Um tom festivo, irônico e sarcástico em relação ao poder (seus vícios e virtudes; mais vícios que virtudes) norteou a pesquisa feita para “OhAmlet”. Elementos do passado e atuais da nossa história foram inseridos na montagem, porque poder e governos se sucedem copiosamente. E quem diz se a trama se passa aqui ou na Dinamarca é o espectador”, explica o diretor.

 

A história, já conhecida do grande público, encontra elementos inusitados em cena como o trono de Hamlet, representado por uma cadeira de praia; a posse do rei e da rainha que se transforma em um carnaval; e com Ofélia, já morta, aparecendo em cena com um pote cheio de pipocas de microondas. E, da cena para a trilha sonora, o inusitado permanece com a utilização de músicas de Ray Conniff, Kenny G., Maquillage, entre outros, a fim de remeter aos tempos atuais a história do rei morto por seu irmão, em busca do trono da Dinamarca.

 

Alexandre Mate, orientador do curso de Difusão Cultural Uma Viagem Teatral por Entre as Tentativas do Ilusionismo, descreve a peça como um trabalho corajoso. “’OhAmlet – do Estado de Homens e de Bichos’, assinada por Evill Rebouças, mas fruto de dramaturgia colaborativa (procedimento adotado pela maioria dos grupos de teatro com propostas significativas na cidade de São Paulo, na atualidade), resulta, e no melhor dos sentidos, naquilo que contemporaneamente, de acordo com certas teorias, se designaria um hipertexto. (…) ‘OhAmlet’ é uma obra premida por grande polissemia, por corajoso trabalho de tessitura cujos fios estão organizados para desacomodar. Não se caracteriza, portanto, em obra para inglês ver.”

 

“Permanecemos distraídos. Todos. Espectadores e artistas. Porque somos dessa época, onde a ação é retórica e os dizeres são vazios. Mas há aqueles que ainda são capazes de encontrar brechas. Só que para isso é preciso que entremos, e que convites sejam feitos, como em ‘OhAmlet’. A porta está aberta, senhores, é hora de teatro”, comenta Ruy Filho, artista-convidado do curso de Direção da SP Escola de Teatro e crítico do Guia da Semana.

 

Essa é a décima primeira encenação da Cia. Artehúmus de Teatro, cujo atual trabalho resulta de um ano de investigações realizadas a partir do Projeto OhAmlet – Expedições Poéticas e Públicas, contemplado na 16ª edição da Lei de Fomento para a Cidade de São Paulo.

 

A Pesquisa e a Proposta de Encenação

Por Evill Rebouças

 

Ao trabalharmos a partir do mito Hamlet e não exatamente reproduzir o material dramático e épico criados por Shakespeare e Saxo Grammaticus investigamos o caráter mitológico em diálogo com o tempo presente, ensejando uma articulação entre passagens/personagens mitológicas e que, segundo Grotowski, tal especificidade permite a confrontação com o mito, em vez de identificação. 

 

Tratamos então de assuntos contemporâneos, sem levar à cena tipos ou situações fiéis ao tempo atual, desejando que o espectador realize um ajuste entre o fato/mito e o momento presente. 

 

Munidos por esses deslocamentos, nos pautamos em equivalências significantes, investigando paralelismos entre o mito e as situações emblemáticas que fizeram e fazem parte da cena sóciopolítica e cultural brasileira. No entanto, mais do que mostrar essas equivalências, a intenção é provocar uma tensão entre passado histórico e momento presente por meio de elementos semânticos transpostos para a cena – e não exatamente reproduzir fielmente o fato ou situação. 

 

 

Serviço

 

“OhAmlet – do Estado de Homens e de Bicho”

Quando: Quintas e sextas-feiras, às 21h. Até 29 de julho

Onde: Sesc Consolação – Espaço Beta

Rua Dr. Vila Nova, 245 – 3º andar – Vila Buarque

Tel.: (11) 3234-3000

Ingressos: R$ 10