Um fraque para tocar Beethoven, por favor…

Publicado em: 04/02/2014

* Por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

No documentário “Santiago”, de João Moreira Salles, de 2007, há uma cena em que, numa noite, Santiago, o mordomo da família Salles (que dá título ao filme), de fraque e tocando Beethoven ao piano, é flagrado por João, então ainda criança. Estranhando que Santiago estivesse assim vestido em seu dia de folga, João pergunta o porquê do fraque. “Porque é Beethoven, meu filho”, responde o mordomo!

 

Dia desses, alguém me disse, feliz com seu novo iPad: “antigamente, tínhamos de esperar até a meia-noite para ver episódios de ‘O gordo e o magro’, que a TV Bandeirantes veiculava nesse horário ingrato”. Verdade! Hoje, através do Youtube, por exemplo, é fácil encontrar qualquer um ou todos os episódios desses filmes antigos e curiosos, precursores do cinema e do humor, que vieram na esteira dos gênios de Charles Chaplin e de Buster Keaton, como se sabe. Essa facilidade de se obter qualquer coisa, do sublime ao raro, do extraordinário ao inacreditável, é sem dúvida um progresso. Ou não? 

 

Que bom, encontrar Sarah Vaughan, cantando o que se queira, com sua voz azul, escura e quente, seu impecável fraseado, suas muitas oitavas, num link da internet! Ela que nos fazia viajar para longe, quando podíamos, e descobrir lojas escondidas em ruelas estrangeiras que vendiam gravações empoeiradas e definitivas dos grandes do século XX. 

 

Mas, sem querer ser saudosista, a dificuldade de se conseguir certas produções da arte e da cultura, da música, da literatura e do cinema, valorizava ainda mais aquilo que se buscava. E, mais do que isso, criava-se um ritual de fruição para contemplar o que havíamos garimpado: chegar de viagem, convidar amigos, e colocar o tal vinil histórico na vitrola era um momento quase epifânico, como um ritual ao qual nos dedicássemos. A Voz Maiúscula iria brotar dali da vitrola, como se estivéssemos na iminência da aparição de uma divindade descida do Olimpo. 

 

Próximo a um culto, o ritual inclui operações humanas essenciais, como espera, ensaio, renúncia, reserva, assepsia, foco, fé e desejo, entre outras.

 

A facilidade de se acessar uma audição perdida de Maria Callas, transformada num clipe, e assisti-la num iPhone, na fila do caixa do mercado, é um desrespeito. Heresia: a ausência do fraque, em certas ocasiões, é profanação!

 

Claro, estamos numa democracia! Cada um ouve o que quiser, onde quiser, como quiser. Ninguém há de querer regular a fruição do prazer, instituindo cultos compulsórios para a contemplação do belo! E quem decidiria que obras são sublimes?

 

Porém, há uma grave questão em jogo na banalização das obras de arte e no acesso indiscriminado a qualquer som ou ruído ou letra, poesia ou prosa, que a cultura e a história e o tempo cuidaram de valorizar. 

 

Todos devem ler Proust! Melhor dizendo: todos devem poder ler Proust. Ter acesso a ele! Porém, e isto é importante, NADA se extrairá dessa leitura, a depender do modo como ela se opera. O texto da boa literatura é habitado em cada esquina por vozes que só se deixam despertar quando o gesto do leitor é de um tipo específico, que exige vulnerabilidade e entrega. Dito de outro jeito: o I Ching, quando consultado, NÃO responde a qualquer pergunta. Existe um modo de formular as indagações, modo esse que implica e captura aquele que interroga. Só daí O Grande Livro Oriental o escutará. 

 

Problemático o desejo de eliminar qualquer hiato, qualquer demora na realização de desejo; situação que, no limite, extinguiria o próprio desejo – pois desejo nasce de falta. Problemático o imediatismo dos dias que correm, e que o mercado alimenta. A urgência, a intolerância a qualquer atraso. A necessidade de se obter o que quer que seja sem ter trabalho nenhum, numa compulsão a se preencher todo vazio, queimando etapas fundamentais. O resultado desse estado de coisas será a extinção dos rituais. Numa ilusão de eliminar dores e lutos, o sujeito do século XXI se desconecta de si – para estar eternamente conectado num canal alienante, miragem de felicidade.

 

Luto é ritual por excelência e pré-requisito para civilização. São gravíssimas as marcas no corpo, verdadeiras amputações, dos lutos não vividos e não elaborados. Ausência de luto produz uma humanidade anestesiada e entupida de desejos fabricados por máquinas. Humanidade manipulada, cujas necessidades são artificialmente criadas, numa onda sedutora. Humanidade robótica. Humanidade desumanizada.

 

Os avanços tecnológicos, evidentemente, facilitam a vida. No final do século XIX, com o advento do telefone, a relação do homem com o espaço geográfico foi drasticamente afetada. O aparelho veio para cancelar distâncias: a partir de então, alguém na Sibéria poderia falar conosco aqui em São Paulo, em tempo real, sem que tivéssemos de esperar meses a fio, até que um navio com uma carta vinda da Rússia, trazendo a voz de uma pessoa ausente, aportasse em Santos.  

 

Já o computador altera a nossa relação com o tempo de uma maneira que está aí para ser descoberta. Tudo a um mero clique do dedo indicador, nessa banalidade que estamos verificando! “Esperar” é verbo com os dias contados. Entretanto, sem espera não há gravidez nem parto. 

 

A tecnologia trouxe inúmeras transformações em campos diversos. As noções de privacidade, por exemplo, têm se modificado perigosamente. Nunca se viveu uma era de tão intensa exibição e narcisismo. Quase como se o intuito fosse abolir qualquer segredo. E, na exposição despropositada de segredos, há algo de muito perverso! Algo de podre na Dinamarca! Segredo revelado sem rito é profanação! Esta palavra outra vez…

 

Segredo, sagrado, profano e rito são elementos de uma mesma equação. Teatro é rito desde a sua origem; e rito é pacto com o deus. E isto mesmo que não se acredite nele: não é necessário ser religioso para sofrer com a escassez dos ritos. Pois o ritual é afirmação de mistério, é reconhecimento de um não saber essencial de que somos compostos. É conexão com o coletivo e coloca o homem numa posição de salutar humildade.

 

O rito faz uma afirmação categórica a cada sujeito humano, num sussurro, como que dizendo: “houve outros antes de você; há outros agora mesmo à sua volta; haverá outros também depois de você. Este aqui é um solo sagrado. Em nome da cultura, e da herança, tenha seu desejo limitado e aguarde. Você está condenado a se dedicar àquilo que sobreviverá a sua existência individual. Condenado a ser generoso. Não rompa esta corrente. Pois esta é a sua humanidade”.

 

Observação: do filme “Santiago”, guardo não mais que uma recordação, sujeita às armadilhas da memória. Se o fraque não era um fraque (teria sido uma casaca?), se Beethoven não era Beethoven… perdoe o leitor, mas o espírito da coisa segue sendo o mesmo!




 

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