Olfato, sexo, postura ereta!

Publicado em: 05/05/2014

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

1- Das sensações humanas, o sentido mais preservado e afastado das palavras é o olfato. Soterrado hoje, houve um tempo em que ele reinou. Há milênios, para o homem, os cheiros faziam uma sinfonia de discursos. Fato que segue acontecendo, por exemplo, com os cachorros. As informações que eles recolhem e disparam – a partir do faro – são como uma enciclopédia lotada de comunicados, palavras, informações, mensagens e notícias sobre o mundo. Os cães devem ter muitos adjetivos para qualificar odores. “Que cheiro mais geométrico!”, talvez eles pensem, ao visitar um arquiteto…

 

Pra nós, é difícil descrever um cheiro. “Notas cítricas!”, dizem perfumistas; “amadeirado!”, dizem enólogos. Sabor e olfato caminham juntos e às vezes quase coincidem, mas ainda encontramos mais maneiras de qualificar um sabor do que uma fragrância. Sabores podem ser ácidos, salgados, doces, azedos, amargos, picantes, insossos… Um sabor aveludado cobre a língua, como a protegê-la. O vinho, se não for bom, pode “amarrar a língua”!

 

O olfato também nos dá informações, mas ele parece ter um vocabulário menor para se expressar. Ninguém diz: “que cheiro bonito”. Os cheiros não são bonitos nem feios. A beleza está fora do território do olfato. Será que a estética ainda não chegou lá?! Cheiros, grosso modo, são apenas bons ou ruins.

 

Organismos primitivos não são dados a grandes elaborações. Aproximam-se daquilo que é agradável e afastam-se daquilo que é desagradável. Essa é toda a sua ciência. O sistema de detecção estético das amebas discrimina tão somente prazer e desprazer. Mais que isto, ele não informa!

 

Apesar desta pouca informação, há sabedorias secretas na rotina de um protozoário. Imersos quase que exclusivamente na pura biologia, navegam as águas fundas dos processos primários, e estão mais perto do “início de tudo” do que qualquer outra forma de vida. Estão mais perto também, por consequência, do “antes do início”, do “antes de tudo”, do “antes de qualquer coisa”, do “antes de ser”, do “ainda não sendo”… Fazem fronteira com o inorgânico! Acaso possuiriam um depósito de saber mineral? Sabedoria da pedra!

 

2- Um pouco como as amebas são os cheiros para nós. E não é por que o olfato seja um sentido não visual. É, antes, porque ‘bonito-feio’ são categorias muito mais secundárias e elaboradas do que ‘agradável-desagradável’. Categorias estéticas requerem dispositivos sofisticados. Ou não?!

 

Esses dispositivos vão se afastando do corpo e, por assim dizer, se des-sensorializando! Vale dizer: des-sexualizando! Mas, por mais sublime que seja o produto da criatividade humana, a sua conexão com o corpo nunca se perde: como uma âncora, mesmo a ideia mais abstrata e elevada não perde nunca seu lastro com a sua raiz sensorial. E pode se re-sensorializar (re-sexualizar), e refazer e recuperar sua ligação com o corpo e com as sensações.

 

Mesmo uma palavra pode, subitamente, revelar a sua porção corporal. Poesia talvez seja isto: a revelação de uma origem sensorial das coisas. Um poema nos toca, fisicamente. No início, sensações!

 

3- No vasto universo de forças heterogêneas que compõem o mundo, forças caóticas que nos impactam e desorganizam, adjetivar é um dos métodos de que dispomos para tornar familiar aquilo que é estranho. Tentativa de criar abrigo ao nosso desamparo fundador. Depois de nomear os objetos, nós os qualificamos. Em seu processo colonizador, os adjetivos chegaram tarde e em reduzido número ao continente olfativo.

 

Ao lado do olfato e do sabor, a audição é também um sentido não visual. Mas ela avançou muito mais adiante pelas avenidas asfaltadas da cultura. Embora a linguagem musical também se situe distante das palavras, ela acedeu ao patamar das qualidades há muito tempo. Tanto assim que o binômio “bonito/feio” se aplica perfeitamente ao campo sonoro, e podemos dizer com naturalidade: “que linda canção!”.

 

4- Os cheiros são um império à parte; enterrados, como uma civilização pré-histórica! Reinaram por um longo período e foram recalcados. Isso se deu – Freud nos ensina – na passagem que levou o homem à postura ereta.

 

De quatro, o odor é tremendamente mais presente. A bipedalidade fez com que o esquecêssemos! Quando um homem cai, dizem, a humanidade cai com ele. Milênios e degraus de evolução escoam por água abaixo. Isso faz com que alguns riam daquele que caiu. Quando alguém erra no verbo, também: há quem gargalhe em descontrole dos enganos e tropeços que denunciam nossa origem animal.

 

Quando o primeiro humano se levantou, afastando-se do chão, e caminhou irreversivelmente para frente com suas duas pernas, a sexualidade sofreu uma notável transformação. Não podendo mais depender dos odores do cio, o sexo acabou se tornando um propósito em si. Espaço lúdico de experimentação e de prazer. As fêmeas – se quiserem – são receptivas o ano todo, em qualquer estação, não mais apenas no período fértil. Nesse ponto, sexo e procriação se separaram para sempre.

 

Daí em diante, somos livres para copular com quem quisermos, como quisermos, quanto quisermos, quando quisermos, se quisermos! Novas categorias de sexualidade colorida, que a contemporaneidade multiplica, florescem. Há de tudo, para todos os gostos. Inclusive grupos que se autodenominam “Fuck Sex”: eles não querem fazer sexo! Muito justo! Faz quem quer! Isto é exatamente o que define o conceito de desejo. Donde se conclui: a sexualidade humana “des-naturaliza” o homem, num caminho sem volta.

 

5- Numa ditadura da imagem visual, como esta em que vivemos imersos, os registros nascidos de outros sentidos do corpo – que não apenas a visão – ficaram em posição coadjuvante. O aspecto visual eclipsa as outras sensorialidades. Audição, tato, paladar, olfato… – dispositivos que também nos servem para revelar o mundo – estão em segundo plano.

 

Quando pequeno, fiquei impressionado com um cego que trabalhava de caixa numa loja no centro de São Paulo. Através do tato, ele sabia o valor de cada nota que recebia e não errava no troco. Impedido de enxergar, seus outros sentidos de decifração se hipertrofiaram. No clássico do cinema alemão “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931), é também um cego quem identifica o assassino. Ele o localiza através da audição, captando a melodia de Grieg que o bandido assobia!

 

Cegos de nascença dominam as linguagens não visuais. Em seus sonhos, supõem-se, há uma plasticidade que inclui imagens acústicas, sonoras, gustativas, olfativas… outras mais. Quais?!

 

6- Volto ao olfato. O olfato é o sentido menos domesticado, menos humanizado, menos aculturado de que dispomos. Ainda não tivemos tempo de amestrá-lo. Ele é, por isso, não catequizado! Mais selvagem que os demais, fonte maior de mistério. Guarda o antigo conhecimento do tempo das primeiras amebas e o saber próximo ao início da vida e ao antes-de-tudo. Habitado por línguas novas e línguas velhíssimas, a serem decifradas, assopra interrogações, com hálito estrangeiro.

 

Haverá o dia em que iremos, por exemplo, à Sala São Paulo assistir a uma audição de odores, desfile de cheiros eruditos! Outros preferirão uma roda de olfatos populares, num boteco, batucando narinas numa caixa de fósforos!

 

Em tempo: talvez um pouco pela submissão à hegemonia do aspecto visual dessa nossa era, Freud não parecia achar a menor graça nas representações maravilhosas de Salvador Dali. Fascinado pela Psicanálise, o pintor catalão substancializa o inconsciente em suas telas. Aprisionando-o numa imagem… visual! Noutras palavras, ele “resolve” depressa demais uma equação indecifrada!

 

7- O campo das artes tem por desafio ressuscitar esse tempo perdido, anterior à postura ereta. Desafio de fazer um sonho de cego! Despertar as memórias olfativas marcadas no corpo da espécie. Traduzi-las, inaugurando linguagens que expressem sua porção – ainda, felizmente – animal. Nessa operação, a arte manifesta toda a sua potência, jogando a humanidade novamente de quatro.

 

A propósito, oportuno relembrar, sempre de novo: reconhecendo a superioridade das artes sobre as ciências na decifração da alma, é Freud quem diz. A poesia chega flutuando ali onde a ciência só alcança mancando…




 

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