Um Divã de Três Pernas por Jorge Louraço Figueira

Publicado em: 01/10/2012

O dramaturgo português Jorge Louraço Figueira acompanhou o primeiro Experimento do Módulo Vermelho da SP Escola de Teatro  – Centro de Formação das Artes do Palco, no último sábado (29), e relatou suas impressões. Leia abaixo:

 

 

Formas

“Se essa rua fosse minha” é um daqueles versos imediatamente reconhecíveis de ambos os lados do mar da língua portuguesa. Atravessou o espaço e o tempo, passando de boca em boca e de geração em geração até os nossos dias. O teatro brasileiro desenvolveu e apurou a técnica de usar temas da cultura popular para comentar a realidade. Outras formas de contar histórias – além das canções e modinhas populares – sobrevivem aos tempos e se reproduzem no teatro de São Paulo com maior ou menor facilidade, por via espontânea ou por via erudita: os quadros e figuras do Teatro de Revista, os ritmos e passos das religiões afro-brasileiras, as atrações e números de circo. Algumas destas formas foram usadas nos Experimentos do último sábado. Outras formas: o folhetim televisivo, nas suas várias encarnações de seriado, sitcom, telenovela, todas vivendo de um certo estilo de diálogo; o enquadramento cinematográfico, com uma voz em off se sobrepondo a uma imagem quase fixa ou uma ação lentamente executada; a narrativa documental fragmentada, colando amostras da vida real de personagens existentes. As formas mais surpreendentes dos Experimentos decorreram deste último tipo de narrativa documental: a apresentação de eventos mediados pela internet, num caso, a visita à Bienal de São Paulo, e sem nenhuma mediação; no outro, o susto de um espectador. Ambos foram previamente roteirizados, claro.

 

Histórias

Que histórias contaram os experimentos? Entre testemunhos originais e ficções inéditas, houve espaço para mitos, contos e fábulas reconhecíveis. O processo de gentrificação em curso no centro de São Paulo, de que a Praça Roosevelt e a SP Escola de Teatro são parte, foi um dos temas recorrentes, contado ora de modo mais farsesco ora de modo mais dramático. A identidade brasileira foi focada pela referência aos supostos mitos de origem do povo brasileiro, por um lado, e às ditas características típicas do cidadão paulistano, por outro, mostrados de maneira mais impressionista, ou mais cômica. As tensões entre crescimento urbano e construção imobiliária, por um lado, e cultura tradicional e meio ambiente, por outro, parecem ter sido as maiores preocupações. A solidão individual no meio de grandes aglomerados populacionais (expressa pelos medos, frustrações e egoísmos individuais) foi o modo de falar desse grande tema do ponto de vista de personagens particulares. A alter-globalização, porém, ficou à porta.

 

Espíritos

Os espíritos da sátira, da farsa e do melodrama prevaleceram sobre os espíritos da tragédia e da comédia; e o jeito da performance art parece ter permitido uma saída de emergência, de quando em quando. A maior dificuldade parece ter sido cruzar temas gerais, coletivos e nacionais, com temas particulares, pessoais e subjetivos, ou, dito de outra maneira, a maior dificuldade foi criar personagens arquetípicas. A comédia foi o melhor meio de cruzar esses dois lados da mesma moeda, mesmo sem sair da caricatura, isto é, das personagens-tipo. Prevaleceu um certo maniqueísmo, a visão a preto e branco do que é o bem e do que é o mal, e de quem são os bons e quem são os maus. Os artistas, em particular, os próprios autores dos experimentos, aliás, estiveram quase sempre do lado dos bons, fazendo a denúncia do mal. Um certo moralismo, portanto, e uma suposta neutralidade associada, para não dizer puritanismo, ressaltou das propostas e do modo de estar oficial dos proponentes. Digo oficial porque todos sabemos que “é debaixo dos pano / que a gente esconde tudo / e não se fica mudo / e tudo quer fazer”. (“Por Debaixo Dos Panos” – Ney Matogrosso)

 

Um divã de três pernas: formas, histórias, espíritos

A condição para alçar as formas, os temas e o espírito das obras aos gêneros maiores (de maior dimensão, mais ricos, mais diversos, mais complexos, mais intemporais, mais universais) da comédia e da tragédia (se é que tal ainda é possível) é precisamente entender as contradições das personagens que retratamos e interpretamos. Ou seja, entender as nossas contradições. A performance art: jogar as biografias pessoais em cena e o momento pelo momento pode ser uma boa tática; mas sem uma estratégia de mediação pela arte, a objetividade e universalidade da experiência particular correm o risco de não ser materializadas perante o olhar alheio. O impulso de produzir um olhar original sobre a realidade conduz boa parte da criação artística. Imaginar outra globalização não é possível sem imaginar outra maneira de ver o mundo. O artista distingue-se pela forma como organiza a realidade nas suas obras, e concorre contra essa mesma realidade (ou talvez a favor dela). “Se esta rua fosse minha”… o que faria cada um de nós? 

 

 

Curiosidades: 

Se Esta Rua Fosse Minha, dos O’questrada – http://appex.blogspot.com.br/2010/06/se-esta-rua-fosse-minha-oquestrada.html

FITEI 2010 http://www.ruadebaixo.com/joshua-sofaer.html

Por Debaixo dos Panos http://365cancoes.blogspot.com.br/2010/09/270-por-debaixo-dos-panos.html