Três Vidas, um Ator

Publicado em: 18/09/2012

“Parece muito simples. Mas com a iluminação se torna mágico”, comentou o ator Mario Vedoya durante a preparação do cenário de “O Clube da Tragédia”, espetáculo que fez uma apresentação exclusiva ontem (17), às 20h, na sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

 

E ele tinha razão: além da iluminação, apenas uma cama, uma cadeira, uma mesa e um telão, que exibia a tradução do texto para o português, serviram como suporte para o ator, radicado na Espanha, entreter e fascinar o público por mais de uma hora e meia com seu monólogo. Cenas comoventes, em que angústia e humor andam quase lado a lado, revelam um texto caprichoso e que busca a diversão em um âmbito mais profundo. 

 

A peça é dividida em três partes, cada uma mostra personagens distintas. Na primeira, vive um ex-boxeador argentino que, já bem debilitado, passa todos seus dias em uma cama de hospital, acompanhado de perto pelas dores, insônia e uma tosse persistente. Enquanto fica ali, com a luva e o uniforme que o consagraram, relembra momentos especiais de toda sua carreira: seus adversários, os melhores nocautes, as derrotas mais dolorosas. 

 

Depois de encarnar o ex-atleta, Vedoya troca de figurino rapidamente, veste social e parte para a próxima: um poeta que publica seus sonetos em um jornal e recebe, semanalmente, várias cartas – especialmente de jovens. Algumas lhes escrevem sem um motivo aparente, outras encantadas com suas palavras, outras com mensagens obscenas. Um dia, passa a receber poesias de uma beleza que nunca vira antes, então marca um encontro com a escritora – que, apesar de talentosa, é extremamente feia – e tenta fazê-la desistir de escrever, ou ele próprio logo perderia espaço. 

 

Vedoya em cena como o poeta da peça (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Depois de uma nova e breve pausa para cuidar do figurino, a última história apresenta o relato de um fazendeiro idoso que residia em Chernobyl na ocasião do acidente nuclear na cidade, em 1986. Vestido todo de branco e com uma touca, ele recorda, em tom quase poético, as primeiras semanas após a explosão, as deficiências que começaram a surgir nas pessoas da região, a forma como os militares e cientistas os tratavam. Ao final, desliga seu gravador e as luzes se apagam. E Vedoya é aplaudido pelo público que lotou o espaço teatral do prédio. 

 

Fabrício Silva Santos, aprendiz de Direção que assistiu à peça, elogiou o trabalho do ator. “O ator é incrível, o trabalho corporal dele é muito bom. Achei que a construção dramatúrgica tinha uma organização de signos muito clara. Dá para observar a diferença entre cada papel. Esse tipo de peça é arriscado, porque o ator pode cair em uma repetição de cada texto. É para poucos atores”, comentou.

 

O espetáculo tem uma atmosfera tensa, às vezes preparo as personagens, outras vezes deixo que elas ajam por si mesmas. E ontem foi uma noite assim”, avaliou o ator.

 

Vedoya estava em visita pela Escola desde a semana passada. Hoje (18), o artista faz suas malas e segue seu caminho, mas deixa grandes elogios à Instituição: “A SP Escola de Teatro tem uma concepção de teatro que me atraiu. Eu nunca vi uma ideia pedagógica e a maneira como é organizada a transmissão de conhecimento como aqui. Isso acrescenta para os alunos e para a cidade. Me sinto feliz em poder mostrar meu trabalho num lugar como esse”, finalizou.

 

 

 

Texto: Felipe Del

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