“Thalassa: vinda do mar” e afogada como cânone 

Publicado em: 07/12/2020

Por Joyce Salustiano, especial para a SP Escola de Teatro

 

Thalassa: vinda do mar, com idealização, texto e direção de Heloísa Nogueira e Letícia Rodrigues, questiona padrões de beleza no corpo da mulher. A peça começa com a imagem das quatro atrizes, cada uma numa tela, Ana Iost, Heloisa Nogueira, Letícia Rodrigues e Luiza Caetano, com um figurino todo branco olhando seus corpos de um possível espelho. Achei bem impressionante que na grande maioria das peças que vi, o diálogo com a própria imagem é evidenciado por este recorte de identificação e reflexo, talvez por estarmos mais tempo conosco por conta do isolamento e termos como objeto de mediação a câmera – seja do celular ou computador. Estamos falando com a gente o tempo inteiro, porque ao ligar a câmera, nos vemos primeiro; e quando falamos com o outro, estamos nos vendo. É um duplo acesso, aquilo que sou em presença do outro e aquilo que vejo quando me vejo. Há alguns meses estamos recebendo essa mensagem diante de nossos olhos – essa/esse sou eu (?).

 

A peça Thalassa se inicia com muitas mensagens deste tipo: é a encenação de conversas entre amigas pela plataforma Zoom, além de conversas expostas do WhatsApp e postagens de fotos – tudo evidenciando uma insatisfação com o próprio corpo e questões de auto imagem. Confesso que nessa parte da encenação fiquei um pouco dispersa, pois me parecia irrelevante fomentar padrões de beleza a serem alcançados em detrimento de imagens tão poderosas que essas atrizes tinham em cena. 

 

Depois de um tempo recebendo essas mensagens de limitação, passamos para os depoimentos pessoais das atrizes. Neste momento, nos sentimos mais conectados com a realidade e os motivos que as levaram a construir este momento conosco. A peça termina com uma afirmação de estima pelo processo artístico relacionado aos seus corpos e com uma performance que utiliza tinta azul e água, simbolizando os afogamentos e renascimentos no mar. Há uma música que abre e fecha a peça: a canção “Triste, louca ou má” da banda Francisco, el Hombre.

 

O mar, assim como no texto, explora a ideia desta mulher nascendo, como a deusa Thalassa – talvez a primeira ocorrência entre os gregos de uma deusa mulher. Sinto que há uma provocação do que seria o nascimento de uma nova Thalassa, que não se enquadra nas expectativas da sociedade sexista que estamos inseridas, numa sociedade em que vivemos a ação e a reprodução do machismo o tempo todo, e apesar dos sofrimentos causados pelo outro quem vai lidar com a dor somos nós mesmas. 

 

Este tema é um tema urgente e difícil também, já que nos coloca dentro e fora das circunstâncias; vivemos e discutimos em tempo real as opressões que nos afetam. Nesse tempo e desse tempo, aponto perguntas: como a arte pode superar o modelo imposto pelo homem? Como podemos nos negar a ser e existir como uma imagem – miragem?

 

Do mar ou do inferno criaremos nós mesmas.

 

um beijo mulheres

* Joyce Salustiano é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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