Terceiro Round

Publicado em: 19/11/2010

Na manhã quente e ensolarada dessa quinta-feira (18) o público lotou as apresentações do Experimento. Novamente, o encontro foi na antiga Fábrica da Ferla, onde os aprendizes do curso de Atuação realizaram uma experiência cênica repleta de símbolos baseados no texto “Santa Joana dos Matadouros”, de Bertold Brecht.
 

A sonoplastia evocava a atuação e a atenção do público nos toques do tambor ritmado do aprendiz Alex Fradico da Silva, em cima do Viaduto do Largo da Concórdia, e foi naquele local, presos entre um muro e um portão em uma rua sem saída, que os espectadores passaram a assistir às primeiras cenas do espetáculo.
 

Enquanto isso, aprendizes pichavam os portões da antiga fábrica e, empurrados em um carrinho de supermercado, atores apareciam para a cena. Ao abrirem os portões do local, quase todo o espaço dessa antiga fábrica passou a ser dominado por “Santa Joana dos Matadouros”.
 

O público então foi convidado a atravessar uma parede quebrada onde nascia um mundo inferior repleto de lúxuria, fome, tortura, tristeza e guerra. Assim, os espectadores caminhavam por uma sala fétida, suja e úmida, em um ambiente de pesadelo que, em cada canto obscuro, revelava a história que se construía com o revezamento das personagens entre os atores.
 

O desfecho dessa tragédia se deu com a emocionante atuação do aprendiz Vinícius Guarilha que, em um presépio tenebroso, cantava a música “Drume Negrito”, de Mercedes Sosa, enquanto bonecas eram destruídas por fogo, em uma cena de beleza singela estonteante.
 

A outra parte do dia de apresentações do Experimento revelou o trabalho de aprendizes capazes de dominar, ler e fazer um recorte seguro do texto. O dramaturgo Bertold Brecht dizia que é preciso se divertir para se comunicar e tal pensamento norteou o exercício cênico baseado na rapsódia “Macunaíma”, de Mário de Andrade, protagonizado por atores do curso de Humor.
 

Aglomerados na porta do abrigo “Arsenal da Esperança”, localizado próximo à estação Bresser do metrô, o público aguardava a abertura dos portões quando, de repente, surgi um bando de bufões emporcalhados. Juntas, essa trupe fazia muitas estripulias para tentar abrir a porta do abrigo.

 

O “Arsenal da Esperança” é a antiga Hospedaria do Imigrante, local que acolhe homens que se encontram em dificuldades, na maioria das vezes, por falta de trabalho, casa, alimentação e saúde, ou seja, migrantes e imigrantes que perderam e almejam recuperar suas “muiraquitãs*”, na capital paulista, como a personagem-título da obra.

 

Após cair na mentira de que seriam cristãos praticantes, o responsável pelo local abre as porteiras para a trupe que, em troca desse abrigo, começa a encenar um espetáculo que conta a história do menino Macunaíma.

 

Nascem então, do ventre de um homenzarrão, Saci-Pererê, Caim e Abel e, finalmente, Macunaíma, o rei do Brasil, índio negro nascido no fundo da mata virgem. O anti-herói dessa história traz consigo um espetáculo mergulhado nas metáforas que Mário de Andrade eternizou em seu texto.

 

Baseados na estrutura do reisado e de outras danças da cultura popular brasileira e tendo a música como elemento propulsor da criação, a trupe que representou esse espetáculo, demonstrou domínio em todos seus recursos circenses e de bufões.

 

O público fluía no compasso alegre dessa rapsódia e, direcionados a uma lona de circo, se divertia com as palhaçadas dessas personagens que se perguntavam “a máquina é o que manda nos homens ou os homens é que mandam na máquina?”. Para, em seguida, desfalecerem no chão tomadas pela preguiça que os dominava só de pensar em “trabalhar para comer”.

 

•Muiraquitã é um artefato talhado em pedra (esp. jade, pela cor esverdeada) ou madeira, representando pessoas ou animais (rã, peixe, tartaruga etc.), ao qual são atribuídas as qualidades sobrenaturais de amuleto.