Terceiro Experimento do Módulo Azul, por Alexandre Dal Farra

Publicado em: 02/07/2013

Por Alexandre Dal Farra*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

O que se pode dizer depois de acompanhar, durante um dia inteiro (sábado, 29 de junho), oito experimentos, bastante diversos entre si, todos eles complexos porque, no mínimo, plurais do ponto de vista das técnicas e das linguagens envolvidas? Muito possivelmente nada, ou tudo. Muito, ou muito pouco. Vou procurar aqui me ater ao aspecto criativo – buscando me manter do lado de cá da criação. Por isso escolhi não interpretar as obras, discorrer sobre os seus possíveis sentidos, etc. Acho que isso pode ser feito, mas preferi me manter o mais próximo possível dos problemas ligados à criação artística. Estou considerando essas obras enquanto obras. Embora eu saiba que são aberturas de processo, creio que tratá-las como propostas com certo acabamento pode ajudá-las mais a se desenvolverem. O texto que procurei escrever é, sobretudo, destinado aos aprendizes, e espero que consiga levantar questões que possam ser úteis à continuidade do caminho artístico a que estão se propondo. Vou primeiro falar de um aspecto que acho que, de certa forma, pertence a todos (ou a quase todos) os experimentos que vi, depois passarei a alguns breves (e absolutamente sinceros) comentários sobre cada um deles.

Alegoria e símbolo

Existem experiências teatrais que dependem constantemente da minha leitura das cenas. O que é apresentado, nesse caso, precisa ser constantemente decodificado, e, do contrário, fica sem vida, estático. Nesse caso, a operação que a cena propõe está em parte fora da cena. Não ocorre ali, depende da referência a coisas externas para ocorrer, depende de que saibamos que tal elemento cênico (uma bandeira vermelha, por exemplo), se refere a tal coisa (simboliza a luta, digamos), e que, se ela é usada como um roupão de luxo, isso é para causar um curto-circuito de sentidos – e isso aponta para uma posição sobre a luta, que é tratada como luxo, deve fazer o público pensar, etc. No entanto, como se trata de teatro, essas alegorias colocadas em cena precisam gerar algum tipo de linha de força que transforme a postura do ator.

Ou seja, tão importante quanto a dita bandeira, é o ator que se utiliza dela em cena, do contrário, nos distanciamos do teatro e partimos para outras áreas (na medida em que nada de particular ocorre no contato do público com aquele material e com a sua utilização no aqui e agora da cena). Se essas imagens são simplesmente sobrepostas e não geram jogo para os atores, perdemos o acontecimento presente e, nesse sentido, perde-se o sentido da própria presença dos atores. Este parece ser o maior risco dessa tendência alegórica – que a cena emane significados, mas não traga vida e tensão no aqui e agora do contato com o público.

Existem outros dispositivos e recursos cênicos que criam um tipo de obra que não depende de uma decodificação para existir. O acontecimento cênico, nesse caso, dá conta de si mesmo, não depende de referências externas. Nada que está em cena precisa ser lido, os elementos estão ali por obedecerem a uma ordem interna à própria cena, que gera um objeto vivo, porém, fechado em si mesmo. Esse outro caminho de construção de uma obra traz outro tipo de risco. Creio que, quando essa obra não chega a se tornar um todo orgânico, capaz de sustentar-se, ela tende a ganhar um certo ar abstrato – e, por vezes, ela corre, então, meio perdida, para os conceitos, buscando significados externos para si mesma, pois que não está se sustentando. Só que a natureza da sua constituição foi inteiramente feita de forma auto-referencial, então, os significados externos não são bem-vindos ali, e tornam-se como que decalcados, corpos estranhos.

Evidentemente, esses dois aspectos, o alegórico e o simbólico, na maioria das vezes se cruzam e aparecem misturados. No caso do Território Cultural que presenciei, creio que existiu certa oscilação entre esses extremos (obra fechada em si mesma – obra voltada para fora), chegando aos extremos e passando por misturas desses elementos.

Leia sobre os núcleos 7, 4, 1 e 5

Leia sobre os núcleos 6, 3, 8 e 2

*Alexandre Dal Farra é dramaturgo e diretor.