Técnicas de Palco | Entrevista com o mascareiro Wander Rodrigues

Publicado em: 18/07/2016

Para mergulharmos no fascinante universo das máscaras, convidamos o aprendiz egresso do Curso Regular de Técnicas de Palco Wander Rodrigues a compartilhar um pouco de suas experiências ao longo de sua carreira como mascareiro.
 
Visionário, Rodrigues deve expor suas setenta máscaras e as etapas de seu processo criativo em breve, em São Paulo.
 
Em viagem a Crato, no Ceará, Wander utilizou cascas de bananeira e penas de galinha para confeccionar máscaras junto a crianças da comunidade local
 
Jeniffer Yasmine: Antes de ser aprendiz da SP Escola de Teatro, você já tinha interesse por máscaras?
 
Wander Rodrigues: Minha primeira formação foi em artes cênicas, então, como ator, eu já tive essa proximidade superficial. Meu contato mesmo com máscaras foi na Escola, por meio da Helô [referindo-se a Heloísa Cardoso, formadora do curso de Técnicas de Palco que dá aulas de construção de máscaras). Eu tive cerca de seis aulas com ela. Era para cada um fazer uma máscara e eu fiz duas. Eu já gostava, mas esse contato me despertou o interesse pela pesquisa das máscaras.
 
JY: Você procurou o curso de Técnicas de Palco pelo seu interesse em lidar com materiais?
 
WR: Sim. Minha segunda formação foi em artes plásticas, e ali já se tem muito de cenografia, de instalações cenográficas, etc. Eu tinha esta dificuldade: como eu vou montar minha instalação? Como eu vou descobrir a alternância dos materiais? A Escola foi muito boa nesse sentido. Mesmo não sendo minha formação total, ela foi um complemento muitíssimo rico, pelo qual aprofundei meus interesses. 
 
Wander faz performances como exercícios e experimentações com as máscaras. Foto: Silvia Rodrigues
 
JY: Para criar uma máscara, quais tipos de informação o artista precisa ter a respeito do espetáculo ou do personagem que vai utilizá-la?
 
WR: A primeira coisa é acompanhar as leituras de texto, a decupagem, conhecer o personagem, assistir aos ensaios, respeitar as informações da direção. Por exemplo, se terá um arlequino no texto, o diretor deve informar se esse arlequino será o “tradicional” ou será uma releitura mais contemporânea. A partir daí, o mascareiro inicia suas pesquisas.
 
JY: E para o ator se adaptar à máscara, para que sua utilização ser algo natural em cena, depende de quê?
 
WR: Do treinamento. Se o ator numa escola de teatro ou um curso já tivesse um acesso contínuo a máscaras como uma ferramenta de trabalho, assim como tem com figurinos e adereços, ele não encontraria dificuldade na utilização. Seria algo mais orgânico, fluiria melhor.
 
JY: Você ministra oficinas de máscaras produzidas a partir materiais que são sobras do cotidiano. Como começou esse trabalho?
 
WR: Eu gosto muito de trabalhar com o que a natureza nos oferece, com os resíduos e também com novas possibilidades. Fugir do habitual, do previsível. Assim, criei uma oficina de máscaras feitas a partir de embalagens de amaciantes, caixas de sabão em pó e sapato, etc. É uma oficina direcionada a crianças a partir de oito anos, por ser mais fácil de trabalhar com ela. É uma máscara que se faz em quarenta minutos. Essa iniciativa é, também, um alerta ao consumo desenfreado e a questões ambientais.
 
Exemplo das performances de Wander com máscaras. Foto: Silvia Rodrigues
 
JY: Quando alguém te pede para produzir uma máscara, ainda existe a dificuldade de entender que a confecção é um processo demorado?
 
WR: Existe, sim. Sempre tenho que explicar o processo para o cliente. Tem gente que não tem nem noção que existe um molde de um rosto para iniciar o processo de execução da máscara, que eu tenho que moldar o rosto na argila primeiro. Também existe essa dificuldade de entendimento do processo de secagem das inúmeras camadas de empapelamento necessárias, dos recortes, do arame que se coloca, da pintura de arte, enfim. A compreensão do processo e a valorização do mascareiro se dão de fato quando há essa explicação e à medida que a pessoa me vê trabalhando.
 
JY: De que forma você acha que sua formação na SP Escola de Teatro contribuiu para sua carreira como mascareiro?
 
WR: O fato de se ter uma boa estrutura que possibilite exercitar a teoria, os materiais e ferramentas que a SP disponibiliza, os formadores sempre muito generosos com os aprendizes. Isso tudo contribuiu muito para eu me tornar um profissional melhor. Hoje eu arrisco mais, experimento mais as novas possibilidades.
 
O mascareiro Wander Rodrigues
 
JY: Atualmente, como você enxerga o mercado de trabalho para quem deseja seguir a profissão de artesão de máscaras?

WR: A máscara não tem um mercado de trabalho comercial que renda dinheiro para o artista. Mas ela vai abrindo portas, nos workshops, na possibilidade de ministrar oficinas. É possível disponibilizar máscaras para serem alugadas para espetáculos, o que acaba dando ao artista mais reconhecimento no mercado. Ao mesmo tempo, este esquema é mais viável para a companhia de teatro, que nem sempre pode comprar uma máscara. 

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