Técnicas de Palco | Entrevista com o cenotécnico Alício Silva

Publicado em: 13/06/2016

por Erika Curto
 
O cenotécnico é o profissional especializado na construção e montagem de cenários e objetos de cena. Trabalha ao lado do cenógrafo, sugerindo as melhores alternativas para viabilizar qualquer projeto cenográfico. Ele está em constante atualização quanto a técnicas e ferramentas, para agilizar e enriquecer o trabalho de construção cênica. 
 
A SP Escola de Teatro conversou com o Alício Silva, que foi aprendiz de Técnicas de Palco da Instituição, é formado em Design e trabalhou no Espaço Cenográfico como cenotécnico durante cinco anos. Nessa entrevista, ele falou mais sobre sua profissão e sobre o Curso Regular de Técnicas de Palco
 
Erika Curto: Como você definiria a função do cenotécnico no teatro?
 
Alício Silva: Eu vejo o cenotécnico como aquela pessoa que realmente entende da caixa cênica, isso falando do teatro convencional, de palco italiano. Porém, quando esse profissional que constrói e que tem uma boa bagagem vai a um espaço alternativo, consegue fazer qualquer ideia funcionar. Ele faz uma peça acontecer não só em locais onde há todo o suporte para receber um espetáculo, um ambiente com varas, urdimento, quarteladas, fosso, mas também em um lugar que não é necessariamente dentro do teatro, pois ele saberá compor esse espaço. Enfim, o cenotécnico é o profissional completamente ligado ao fazer teatral. 
 
EC: Como surgiu seu interesse por construção cênica?
 
AS: Surgiu durante as aulas do Curso Regular de Técnicas de Palco [da SP Escola de Teatro], onde me destaquei nessa função e, então, foram me chamando [para os trabalhos]. Meu primeiro trabalho foi com o Serroni [JC Serroni, cenógrafo e coordenador de Cenografia e Figurino e Técnicas de Palco da SP Escola de Teatro], como aderecista em “A Dama do Mar”, “A Falecida” e “Boca de Ouro”, três trabalhos que ocorreram juntos. Foi bastante corrido, porém aprendi muito com uma equipe que sabia lidar bem com esse aspecto da construção. Assim, fui me direcionando. 
 
A experiência no Espaço Cenográfico me proporcionou uma boa base, porque eu trabalhava bastante com a parte estrutural, mas também havia o tempo para pensar em acabamentos, em pintura, na parte artística. Depois disso, fui convidado quase que exclusivamente para trabalhar com construção cênica, até pela grande demanda de trabalho e pela falta de profissionais nessa área. Eu costumo falar que trabalhar nessa área não foi bem uma escolha minha, apesar de ser muito gratificante. 
 
Alício Silva: “O cenotécnico é o profissional completamente ligado ao fazer teatral”
 
EC: Antes da Escola, você já exercia alguma função dentro do teatro?
 
AS: Não, eu não era do teatro. Eu tenho um irmão que fez o Curso Regular de Humor na Escola. Ele me apresentou a Instituição e me orientou a fazer o curso de Técnicas de Palco, pois eu sempre tive habilidade com os materiais. Nessa época, eu morava em Franca, no interior de São Paulo, e, junto ao meu irmão, fazíamos, sem técnica nenhuma, alguns objetos e pequenas construções. No começo, tive uma resistência porque eu não entendia o que era o curso já que eu nunca tinha ouvido falar dele. A princípio, eu queria fazer Cenografia e Figurino, porque, para mim, era o cenógrafo que tinha essa função [de construir]. Na verdade, o cenógrafo não deixa de ter a função, mas o curso de Cenografia já é bem extenso, ficando esta parte destinada a Técnicas de Palco. 
 
EC: O curso de Técnicas de Palco é bastante amplo, aprende-se muita coisa e é possível se especializar em vários caminhos. Você acha que a falta de entendimento dessa área é o que fez você e faz outras pessoas terem uma resistência em procurar o curso?  
 
AS: Eu me intitulo construtor cênico, porém o curso não abrange apenas esta área. O que aconteceu foi que eu me direcionei a trabalhar só com construção.  Geralmente, o curso de Técnicas de Palco é procurado por artistas plásticos e pessoas que se interessam em trabalhar com diferentes materiais. Na minha turma aconteceu algo interessante: muitos dos que entraram na Escola comigo se inscreveram para Cenografia e Figurino, mas o Serroni e a Viviane [Ramos, formadora do curso de Técnicas de Palco] entenderam que o foco dessas pessoas era outro. Até hoje o curso de Cenografia e Figurino é muito procurado, e o de Técnicas não tem tanta procura, apesar de ser um dos cursos onde os aprendizes mais conseguem trabalhar. Talvez a nomenclatura muito abrangente não deixe claro o propósito do curso. 
 
EC: Desde que você começou a trabalhar com construção cênica, algum trabalho em especial te marcou por algum motivo especifico?
 
AS: Eu me recordo de dois trabalhos que me marcaram de maneiras diferentes. O primeiro é “Il Trovatore”, no Teatro Municipal, porque mesmo eu já tendo uma boa experiência naquela época, trabalhando anteriormente com o Serroni, foi durante esse trabalho especificamente que eu percebi que a seriedade do que eu estava fazendo. Até então, os grandes cenários de teatro que tínhamos feito tinham cinco, seis metros, e era algo que uma equipe de três pessoas dava conta em pouco tempo. Já uma ópera tem outra proporção, só os carros que apareciam em cena, e se movimentavam com todo o elenco em cima, tinham 12 metros de altura e cerca de seis toneladas. A responsabilidade da cenografia era a de projetar e pensar nas questões estéticas, já a responsabilidade do cenotécnico era outra. Quem constrói o cenário precisa se preocupar com diversas questões, e é sua responsabilidade a questão da segurança de todos em cena. Além disso, tem o lado desafiador da profissão, pois muitas vezes passamos até do limite do que pensamos que é possível. 
 
O segundo trabalho me marcou mais por uma questão afetiva e que mais se aproxima do momento da Escola. Foi “A Volta do Parafuso”, que teve o diferencial de ter sido todo produzido e executado por técnicos da SP Escola de Teatro. Também era uma ópera e havia cenografias enormes e uma grande demanda de objetos. Ao todo, éramos oito aprendizes de Técnicas de Palco. Trabalhávamos como estagiários coordenados por um cenotécnico, e tudo aconteceu da melhor forma possível. Nesse trabalho, eu era maquinista de construção cênica, mas os demais aprendizes trabalharam em diversas áreas como pintura de arte, produção de objetos e adereços.  
 
Cena da ópera “l Trovatore” 
 
Processo de construção da cenografia de “A Volta do Parafuso”, que teve temporada em 2013
 
EC: Como você mescla a criatividade artística com a parte técnica da cenotecnia?
 
AS: Eu não diria que a questão da criatividade seja uma inquietação constante de todo cenotécnico. Isso é algo que depende de cada profissional, mas eu conheço vários que se interessam por pesquisar materiais e tecnologias. No meu caso, a questão criativa vem mais por ter um problema e precisar resolvê-lo, então eu vou pesquisar o material, porque eu gosto e tenho curiosidade. Muitas vezes nosso tempo para construir é restrito, e temos que saber fazer as melhores escolhas para errar o mínimo possível e não precisarmos refazer o projeto. Isso é difícil porque, além de criatividade, demanda um conhecimento que você não adquire nos livros, só na prática. 
 
EC:  Atualmente, como você enxerga o mercado de trabalho para quem deseja seguir a carreira de cenotécnico? 
 
AS: Nós estamos vivendo um momento atípico no país, com o investimento cultural baixo, há pouco dinheiro. Mas sou bem otimista e acho que a área de construção cênica necessita urgentemente de renovação. A SP Escola de Teatro proporciona uma oportunidade muito boa para isso.  Eu não sei como era há uma década, mas os técnicos formados pela Escola são capazes de conversar, no mesmo patamar, com o cenógrafo ou com qualquer outro profissional do teatro, conseguindo criar e pensar junto, principalmente em teatro de grupo. Há oportunidade, e inclusive faltam muitos profissionais nas áreas de marcenaria cênica e adereços. Quem se direcionar a essas áreas, com certeza não vai parar de trabalhar, e, diferente do que muitos pensam, essa não é uma área exclusivamente masculina. Em muitos lugares do mundo, há equipes inteiras formadas por mulheres. A construção cênica está muito ligada ao pensar, e não somente ao fazer, pois o mais importante na cenotecnia é viabilizar a maneira correta e mais inteligente de se executar um trabalho. 
 
Alício (dir.) ao lado do cenotécnico e formador convidado do curso de Técnicas de Palco, Jorge Ferreira

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