Técnicas de Palco | Entrevista com a maquinista e contrarregra teatral Paloma Neves

Publicado em: 25/07/2016

Frequentadores mais assíduos de teatro conhecem o contrarregra como aquele profissional que aparece no palco, no meio das cenas, para mexer no cenário ou fazer algum ajuste necessário para a apresentação. Mas a função do contrarregra vai além disso.
 
Para entender um pouco melhor o ofício, conversamos com Paloma Neves, que concluiu o Curso Regular de Técnicas de Palco em 2012 e, hoje, é contrarregra no Teatro Municipal de São Paulo.
 
Última apresentação da ópera “La Bohème”, no Teatro Municipal, com integrantes da equipe técnica. Foto: Valéria Lovato
 
Jeniffer Yasmine: Qual a importância da atividade do contrarregra no teatro? 
 
Paloma Neves: A função do contrarregra, dentro das artes do palco, é marcada pela extrema sutileza e discrição. O cuidado com os objetos de cena e a atenção ao momento exato de seu uso. Preparar pequenos efeitos, dar segurança ao ator que porta o objeto… O contrarregra ajuda a contar uma história e é incumbido de garantir que todos os pequenos detalhes estejam plenos para o funcionamento da cena. 
 
JY: Pessoalmente, há algum trabalho de contrarregragem que tenha te marcado?
 
PN: Cada trabalho é único, cada espetáculo nos deixa marcas eternas. O mais belo, sem dúvidas, foi o momento final do segundo ato da ópera “Thaïs” (2015, Theatro Municipal de São Paulo, direção de Stefano Poda), quando uma espada era lançada do alto do regulador de boca e caía em estaca no piso do proscênio. Havia um coro com 60 vozes, solistas, bailarinos e figurantes em cena, todos congelados, fechava-se um blackout e abria um foco de luz no ponto onde a tal espada precisava cair fincada na base. Era muito perigoso e emocionante, e a beleza do movimento se consistia em fincar a espada verticalmente, 12 metros em queda livre, respeitando o tempo musical. Era magnífico.
 
Momento da ópera “Thaïs”, quando a espada é lançada e cai no palco
 
JY: Antes de ser aprendiz da SP Escola de Teatro, você já tinha algum contato com o teatro? Como decidiu fazer o curso de Técnicas de Palco?
 
PN: Comecei a estudar teatro aos 11 anos. Eu sempre soube que era disso que eu gostava. Cheguei a escrever uma peça para o grupo de teatro da escola, depois fiz oficinas nos centros culturais da minha cidade, tudo bastante amador. Aos 17 anos, voltei a estudar o teatro como atriz, fazendo curso técnico. Prestei o processo seletivo da SP Escola de Teatro e passei para Técnicas de Palco. Optei por Técnicas porque, no descritivo do curso, falava-se muito na falta de profissionais na área e a demanda de trabalho. Eu era auxiliar administrativo e estava disposta a migrar definitivamente para o teatro.
 
JY: Como foi sua trajetória profissional depois que você concluiu o curso na Escola? Você acha que sua formação contribuiu para sua carreira a partir dali?
 
PN: Os dois anos de curso foram fundamentais para a minha vida. Todo o universo que me foi aberto, os profissionais ilustres, as experiências de troca com os colegas dos outros cursos, todas as portas que se abriram durante esse período foram de extrema importância. Antes da Escola, a ópera era um universo que eu desconhecia por completo, afinal, não é algo popular no Brasil.
 
É uma instituição incrível, onde você aprende que é dono do seu caminho. Você tem total apoio para questionar o mundo e buscar as respostas para todas as suas questões existenciais enquanto artista. Não é uma trajetória fácil, a vida no teatro é tudo, menos fácil. São infinitos nãos, na maior parte do tempo parece que as coisas não vão dar certo. Eu passei em alguns ateliês, como o do Serroni (coordenador do Curso Regular de Técnicas de Palco), o do Jorge Ferreira (formador na área de marcenaria cênica), do Luiz Rossi (formador na área de adereços), do Juvenal Irene (formador na área de pintura de arte). Experimentei muito com os colegas, com os grupos de trabalho. As parcerias que dão certo dentro da Escola e se estendem para a vida. O curso de Técnicas te prepara para isto: ser polivalente, ser “pau pra toda obra”, estar pleno para os bastidores.
 
Segundo Paloma, no universo do contrerregra a persistência é a chave para alcançar os objetivos
 
JY: Atualmente, você trabalha no Teatro Municipal de São Paulo, onde há, essencialmente, óperas e grandes eventos. Para você, qual foi o aprendizado mais significativo nessa experiência?
 
PN: Estou como contrarregra no Municipal há um ano e quatro meses. Todos os dias eu aprendo que a parte mais difícil, na nossa área, é lidar com pessoas. São muitas pessoas envolvidas no projeto de uma ópera. São muitas guerras de ego, e isso é exaustivo. Sabe aquela história de processo não hierárquico que a gente aprende na Escola? Então… Em um teatro grande, as hierarquias são enormes. No palco, a equipe de contrarregras é justamente a base da pirâmide: estamos subordinados a todas as outras equipes, desde a equipe de criação e direção cênica da ópera até as equipes técnicas. São muitas ordens incisivas e verticais para obedecer.
 
JY: Você também faz trabalhos como maquinista. Você acha que essa área permite uma abertura para as mulheres trabalharem, ou há, ainda, muita resistência?
 
PN: As áreas técnicas são extremamente masculinas. Acho que a função mais atrelada à cenografia na qual existe uma presença forte de mulheres é a de aderecista. Para as outras funções, é raro ver meninas. No Municipal, diretamente no palco, somos apenas três mulheres, entre 30 técnicos: duas contrarregras e a chefe da equipe de Iluminação (Valéria, que também foi aprendiz na SP Escola de Teatro). 
 
A presença feminina nas equipes sempre vai depender muito do perfil do líder. Nós, mulheres, somos capazes de tudo, somos competentes, somos bastante úteis ao criar estratégia de trabalho, acalmamos os ânimos, somos mais cuidadosas e detalhistas, mas, na maquinaria especificamente, o trabalho é sempre muito bruto porque há de se carregar muito peso, operar varas manuais, contrapesar cenário, montar pisos, painéis, dobrar cortinas. Por essa razão, acabam optando por homens fortes.
 
JY: Atualmente, como você sente que está o mercado de trabalho para quem quer seguir carreira nos bastidores do teatro, como contrarregra, maquinista, ou qualquer função responsável pela operação de um espetáculo? 
 

PN: Nós, técnicos que “fizemos escolinha”, temos o desafio de abrir nossas próprias portas. A tradição teatral, para as áreas técnicas, sempre foi de pai para filho. Ainda existem as famílias de contrarregras, famílias de maquinistas. E a gente que começa do zero, não conhece ninguém. Cada oportunidade de trabalho tem que ser encarada como “A oportunidade”, porque é na raça que você vai, com o tempo, construir um nome. O mercado é uma grande panelinha, tudo funciona por indicação. São os amigos que vão te colocar nos lugares. Se o objetivo é trabalhar nessa área, é a persistência que te levará até lá. Não é fácil, estes seis anos de bastidores não foram fáceis, e os próximos também não serão, mas é na dificuldade que mora o prazer inesgotável do fazer teatral. 

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