Técnicas de Palco | A direção de cena e os desafios do artista que gerencia o espetáculo

Publicado em: 11/07/2016

Por Erika Curto
 
O diretor de cena é um dos ofícios que mais geram dúvidas dentre as funções que um técnico de palco pode exercer. Isso porque, diferentemente da direção teatral mais focada na parte artística, a direção de cena engloba todo o funcionamento de um espetáculo, desde o planejamento e a organização, até a operação, montagem e desmontagem – mas sempre estando atento às questões estéticas. Esse profissional é, portanto, uma espécie de coordenador geral de todas as atividades no backstage. No exterior, a função recebe o nome de stage manager, profissional do teatro que comanda toda a equipe de um espetáculo. No entanto, no Brasil, essa ainda não é uma profissão muito reconhecida.
 
Equipe durante a entrega do prêmio Bibi Ferreira em 2015
 
Giovanna Kelly Matias Gonçalves, que se forma no curso de Técnicas de Palco da SP Escola de Teatro em 2016, descobriu essa carreira ainda muito jovem, quando cursava o Ensino Médio. “Como eu sempre dancei, quando eu estava no Liceu (de Artes e Ofícios, em São Paulo), eu participava de um projeto da escola que tinha apresentação de alguns musicais uma vez por ano”, diz. “Mas essas apresentações eram muito bagunçadas e aquilo me incomodava tanto que eu me propus a organizá-las, só que mais ou menos do meu jeito.” No ano seguinte, Giovanna decidiu fazer o curso de Stage Manager com Leslie Pierce, um dos principais nomes da direção de cena no Teatro Musical brasileiro. “Percebi que tudo que eu aprendi nesse curso era o que eu tinha feito no Liceu, ainda que do meu jeito, e isso me empolgou bastante. Depois de conhecer a função, eu vi que era isso que eu queria fazer, estar no backstage, na organização do espetáculo”, conta. 
 
Em razão dessa experiência, ela se interessou pelo no curso de Técnicas de Palco. “O stage manager, ou diretor de cena, precisa conhecer todo o processo, os materiais, o tempo de execução de cada coisa, para entender o que está fazendo e, assim, poder fazer a gestão de tudo isso”, diz Giovanna. A principal característica do diretor de cena é entender a importância da participação ativa de toda equipe durante todo o processo de criação e temporada de uma produção, uma vez que é esse o profissional responsável por dar as deixas para os efeitos de luz, som, maquinaria cênica, entradas de atores e bailarinos em cena, assegurando-se de que cada profissional cumpra sua função no momento exato. Portanto, é essencial que ele tenha um entendimento geral das áreas do teatro. 
 
Giovanna em ação no espetáculo ‘100% São Paulo’
 
Apesar de iniciante, Giovanna Kelly já passou por alguns momentos marcantes como assistente de direção de cena. Ela relembra dois grandes eventos: o prêmio Bibi Ferreira, em 2015, no qual trabalhou como assistente de Leslie Pierce, e o espetáculo “100% São Paulo”, durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, em 2016, como assistente da diretora de cena Raquel Balekian. “Tanto o Bibi como o ‘100%’ foram super marcantes para mim, pois pude me colocar profissionalmente em ambos, já que tive bastante autonomia para exercer meu trabalho e resolver os problemas que surgiam. Minhas duas chefes confiaram em mim, delegando funções decisivas, o que foi muito gratificante”, lembra.
 
Questionada se, como mulher, ela sente uma certa resistência no trabalhando na área, Giovanna é enfática: “Certamente é uma área muito machista. As mulheres que já possuem uma trajetória como diretoras de cena, tiveram que passar por um caminho difícil até conquistarem seu espaço. Um diretor de cena precisa ter o grupo muito unido, e, às vezes, os homens não respeitam o trabalho de uma stage manager, ignorando as ordens por ser uma mulher quem está no comando.” 
 
Curiosamente, nos dois maiores trabalhos que realizou até hoje, Giovanna teve contato com diretoras de cena mulheres. Para ela, as mulheres precisam criar um tipo de trabalho específico para gerir a equipe. “Percebo um certo esforço para elas conquistarem a equipe no início, o que não acontece no caso dos homens, que já chegam comandando. Ser mulher no teatro é um ato de constante resistência, pois você precisa sempre mostrar que uma mulher pode fazer tudo o que qualquer homem faz”, afirma. 
 
Com Raquel Balekian em primeiro plano, ao fundo, Giovanna e equipe do ‘100% São Paulo’
 
Sobre o curso de Técnicas de Palco da SP Escola de Teatro, Giovanna diz que pôde conhecer profissionais que são referência no teatro e que possuem métodos de trabalho diferentes, o que, segundo ela, a faz crescer cada vez mais profissionalmente. A artista também reforça que é durante os experimentos que ela consegue visualizar esse trabalho total com a equipe. “Entender tanto a minha área, como o trabalho do iluminador, do cenógrafo, é importante para mim. Preciso saber como cada profissional trabalha para analisar se aquilo está zelando pela qualidade do espetáculo, para que ele seja sempre perfeito para o público.” 

Em relação às dificuldades da profissão, Giovanna acredita que o caminho para o reconhecimento do diretor de cena é difundir informação, para que todos tenham conhecimento dessa função. “Se é difícil até para nós, que somos da área, nomear essa profissão, imagina para quem não é.” Ela conta que muitas das pessoas que já exercem essa função nos teatros brasileiros não conhecem a nomenclatura. Traduzindo literalmente do inglês, o stage manager seria um gerente de palco, mas o que parece tão óbvio, no cotidiano se mostra o contrário. O trabalho vai além, incluindo desde a logística de um espetáculo até o gerenciamento das relações interpessoais. Giovanna reforça ainda que “o diretor de cena deve estar presente desde o início do processo teatral, para que ele encontre seu papel também de criador, e não somente de operador”. 

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