Teatro Em Domicílio na Satyrianas

Publicado em: 29/11/2010

O projeto “Ouvi Contar”, uma ousada experiência de teatro em domicílio, parceria da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco com a “Satyrianas – Uma Saudação à Primavera”, levou atores e dramaturgos iniciantes para realizar leituras dramáticas na residência de onze moradores da Praça Roosevelt, entre os dias 25 e 28 de novembro.
 

Idealizada pelo fundador da Cia. Os Satyros, Ivam Cabral, e pela dramaturga e também coordenadora do curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, Marici Salomão, o projeto contou com a participação dos aprendizes do curso de Dramaturgia Alex Araújo, Angela Belei, Aninha Terra, Bruno Feldman, Daniel Graziane, Dias Filho, Dione Carlos, Emerson Alcalde, Geraldo A. C. Neto, Maria Shu e Paulo Pereira.
 

Os textos teatrais, selecionados por Marici Salomão foram criados durante a prática do exercício “Deus Locutor”, realizado no primeiro semestre de 2010, no componente “Técnicas de Enredo e Personagem”, dentro do curso de Dramaturgia.
 

Para o exercício, Marici propôs fundamentalmente a criação de textos curtos, balizados pela presença de características de um teatro dissociado das formas convencionais dramáticas. Além disso, elencou-se, em primeiro plano, a presença de traços ou figuras, no lugar de personagens; de espaços não definidos e tempos não lineares, no lugar de cenários ou do uso do tempo real; da presença de diversas vozes narrativas que podem se cruzar, no lugar dos diálogos tradicionais emitidos por personagens definidos; da presença do narrador direto ou indireto, no lugar do drama autônomo.
 

Como deuses onipresentes e oniscientes em seus próprios textos, os autores foram convidados a acompanhar/escrever as cenas de diversos ângulos e pontos de vista, em textos com aparência de monólogo em que o(s) ator(es) fosse(m) atravessado(s) por um sem número de vozes e personagens. 

 

Na sexta-feira (26), quem abriu o projeto foi o aprendiz Daniel Graziane com o texto “Hoje Vou me Dedicar ao Idiotas”, que conta a história de um menino, seu aniversário, sua relação com a avó e a mãe, a galinha no seu quintal e sua paixão por bombas e por duas irmãs gêmeas dançarinas de jazz.
 

Na sala de um enorme apartamento em reforma, mesas repletas de material de construção contrapunham com o deslumbrante horizonte que se avistava das janelas empoeiradas do local.
 

Sem energia elétrica e iluminação, eram as luzes dos apartamentos vizinhos e da torre da Igreja da Consolação que auxiliavam na leitura realizada por Dione Carlos, Barbara Melo, Maressa Galvão, Luan Maitan, Lara Hassum, Dias Filho e Airá Fuentes, todos aprendizes da SP Escola de Teatro. 

 

Após a apresentação de “Sua”, texto de autoria de Emerson Alcalde, a aprendiz Aninha Terra ocupou a sala de um apartamento no Copan junto as aprendizes Dione Carlos e Juba Mendes e com a participação especial de Emerson Alcalde e Fernando Matraga, para a leitura de seu texto “Histerectomia”. 

 

“Foi minha primeira vez e a primeira vez a gente não esquece, certo? A leitura aconteceu no 11º andar de um apartamento num edifício símbolo de São Paulo, com ambiente intimista e cheio de possibilidades. Escutar o texto reverberando pela primeira vez em público foi algo inefável, que marcou minha trajetória de artista. O processo de participação na Satyrianas foi importante para compartilhar os nossos processos de criação e a nossa experimentação dramatúrgica. Durante a leitura, senti que o teatro deve e pode ser democrático e que há espaço para todas as manifestações. Hoje, penso que já sou uma iniciada dramaturga, um dos meus primeiros passos foi essa leitura no projeto ‘Ouvi Contar’”, revela Aninha.
 

O projeto “Ouvi Contar” contou ainda com as leituras dos textos “Coma”, de Dias Filho; “Amargo”, de Geraldo A.C. Neto; “Giz”, de Maria Shu; “Cinco”, de Alex Araújo; “Cartas Sobre o Fim”, de Bruno Feldan; “Acerto”, de Angela Belei; “Samba do Ary”, de Paulo Pereira; e “Mátria”, de Dione Carlos.
 

Ao comentar sobre a primeira experiência desse projeto na Satyrianas, Gustavo Ferreira, coordenador geral do evento, afirma que um dos objetivos da Satyrianas é agregar artistas que estão começando dentro dessa programação e o “Ouvi Contar” é um exemplo dessa ideia. “Ver esses novos trabalhos, que surgiram dentro de salas de aula na SP Escola de Teatro, fora a possibilidade inovadora de participar dessas apresentações dentro dos apartamentos dos moradores da Praça Roosevelt, é fantástico. E quem não gosta de ouvir histórias ao pé do ouvido?”, conclui.
 

Fotos: Ricardo Lisboa | FotoMix 2010 e Renata Forato