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Tania Brandão fala sobre Alberto Guzik

Publicado em: 09/06/2011

Ah, eu adorava trabalhar com o Guzik. Nossa convivência, na verdade, foi pequena, mas foi intensa, pois estávamos juntos em comissões de prêmios, editais para financiamentos, festivais, debates e conferências sobre teatro brasileiro, coisas do gênero. Naquele tempo, os anos 1980, os prêmios eram vários. E havia um burburinho na arte por conta de vetores fortes: o fim da ditadura, a crise do modelo nacional-populista de teatro, a falência de antigas formas associativas na arte, a emergência de novos formatos de grupos, a expansão do universo de contestação individual, o sonho de um teatro grande (do tamanho do Brasil!) capitaneado pelo SNT.
 

E a presença do Guzik era forte, alentadora, pois ele estava sempre presente por inteiro, alerta e destemido. A esta entrega, aliava alguns coloridos de personalidade substantivos – transparência, inteligência, lisura, elegância, objetividade, altivez. Pensar um assunto era uma aventura a dois – ou mais, dependia do grupo… – em que o foco era mesmo aquilo que estava em pauta, sem vaidades, competições tolas, narcisismos infantis. Havia ainda nele uma curiosidade de criança que deseja conhecer o mundo, uma bisbilhotice sadia, surpreendente. E irreverente. Este tom fez com que eu ficasse surpresa com a sua escolha de pesquisa de mestrado: estudar o TBC.  Logo o TBC, o grande templo do teatrão. Mas, quando a pesquisa virou livro e pude ler, entendi a atração – a sua obra provou que entender o TBC é fundamental para o estudo do teatro de nosso tempo. E até hoje o seu livro é parte da bibliografia essencial do estudo do teatro brasileiro.
 

Fomos críticos contemporâneos e eu sempre fiz questão de ler o que ele escrevia. Por tudo isto, não me espantei quando ele pulou a cerca e virou o rumo da carreira – passou de pedra a vidraça, como se costuma dizer. Não acompanhei de perto a sua carreira de ator, autor, eu própria tendo me distanciado da crítica. Mas as vagas notícias que recebia de suas peripécias me fizeram sorrir sempre, pois ele seguiu coerente o seu caminho, inquieto, questionador, em busca de uma arte intensa, que fosse capaz de atribuir um sentido maior à vida, que não fosse uma ocupação descartável. Fazia arte, em todas as acepções da palavra, inclusive sem medo da noção de erro. Esta forma inquieta de ser, penso, foi a sua melhor lição, a herança boa, o que ele queria mesmo deixar ficar como lembrança de si.