Artista premiada e presidente do conselho de administração da SP Escola de Teatro, Maria Bonomi revela detalhes de sua mais nova obra no Memorial da América Latina

Artista plástica premiada internacionalmente e presidente do conselho de administração da SP Escola de Teatro, Maria Bonomi revela em entrevista ao site da Escola detalhes da sua mais nova obra, Requiem aos Tombados, exposta desde outubro no Memorial da América Latina, na capital paulista.

A instalação está em frente ao Auditório Simón Bolívar, que representa o momento contemporâneo e todo o sofrimento que vitimizou milhares de cidadãos dos 23 países latino-americanos durante a pandemia da Covid-19. Artista com mais de 65 anos de carreira, Bonomi também reflete sobre a importância do Memorial para o continente: “Foi pensado por Oscar Niemayer e Darcy Ribeiro para privilegiar e divulgar nossa arte e cultura, espelhando a verdade para o povo que o frequentasse”.

Com uma extensa carreira como gravurista, escultora, pintora, muralista, cenógrafa, figurinista, curadora e professora, a artista tem grandes destaques em suas trajetória profissional. Os principais são as obras Elas: mulheres artistas, no MAB-Faap, em São Paulo; Gráfica Latinoamericana y del Caribe, em Beijing, China; Southern Hemisphere International Exhibition “Passage”, em Seul, Coreia do Sul; Popessuara, composta para o álbum comemorativo dos 100 anos da Pinacoteca de São Paulo; Peças em aço inox recortadas a laser. Também é de sua autoria o troféu da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA), figurinos e cenários para peças de teatro, assim como outras exposições em importantes centro culturais como Sesc e CCBB.

Além de grande destaque entre os críticos de arte e em renomados espaços brasileiros, outro grande momento do legado de Bonomi ocorreu em 2009 com a exposição individual levada à Galeria 32, de Londres, apresentada por Marcelo Araújo, assim como a sua participação na Biennale Internazionale Dell’Arte Contemporanea di Firenze, pela qual recebeu grandes prêmios. Suas obras já foram expostas na França, Espanha, Suíça e outras países. A artista nasceu em Milão, em 1935, mas veio para o Brasil ainda pequena, em 1943, quando sua família fugiu da Segunda Guerra Mundial. Sua mãe era brasileira, já seu pai era um engenheiro militar italiano.

Réquiem para os Tombados pela Covid-19 na América Latina

O trabalho, em forma de triângulo, com duas mãos postas em oração, contém em sua superfície 23 mapas vazados dos países: Antilhas Holandesas, Argentina, Aruba, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Haiti, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Uruguai e Venezuela.

A obra possui duas placas com alturas de 6m e 4m por 2,40m de comprimento, ocupando uma área de mais de 5m, e representa a cicatriz e dor das famílias que perderam seus entes queridos para a Covid-19. O projeto é de autoria do Atelier Maria Bonomi, arquitetura de Rodrigo Velasco e realização de Diran Garabed Topalian e contou com o apoio do Governo do Estado de São Paulo.

Além desta obra, o Memorial abriga outra peça importante produzida pela artista: Etnias – Do Primeiro e Sempre Brasil, que fica em sua entrada e homenageia os povos originários latino-americanos.

Confira!

Qual é a pulsão artística que a conduziu esse processo de criação?

A angústia represada (sim, porque não é politicamente correto você manifestar apreensão) me explodiu para definir o que eu via e sentia para registrar o que está acontecendo. Foi uma materialização de ideias quase prontas, registro dessa realidade dilacerada dos 23 países latino-americanos largados à própria sorte, adoecidos, contaminados, moribundos, caídos fora dum contexto de esperança sólida. Seu “locus” ficou vazio, do contexto da vida entre “duas mãos em postura de prece”… Seu espaço vital vazado pelas contingências politicas e sociais comuns a todos mesmo se com precárias variedades…

Qual o diálogo da obra com as ideias de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro que criaram o Memorial da América Latina?

Há uma profunda ligação de significados e buscas por contar a nossa História como ela é nesse espaço que foi pensado pelos dois para privilegiar e divulgar nossa arte e cultura, espelhando a verdade para o povo que o frequentasse. O painel Etnias do Primeiro e Sempre Brasil na entrada nº1, debaixo da terra, retrata a aventura da “Invasão” (Descobrimento) e o embate com os indígenas vitimizados, a “Futura Memória”, no Anexo dos Congressistas, relata como se deu a Imigração no Continente, as origens e a supremacia e permanência dos mitos em toda sua extensão e, finalmente, o “Requiem aos Tombados” fala do momento contemporâneo e todo o sofrimento que vitimizou os 23 países. Antilhas Holandesas, Argentina, Aruba, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Haiti, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Uruguai e Venezuela

Como vê os novos movimentos artísticos e o futuro dessa nova geração?

Vejo muito preocupada o que está ocorrendo. Claro que há muitos jovens competentes e lúcidos que resistem às “regras” gerais, mas de certo modo até os lugares de ensino (salvo raras exceções) incentivam o puro entretenimento para se tornar conteúdo dos movimentos artísticos contemporâneos. Para obter reconhecimento e retorno material deve ser banida qualquer procura individual de risco, seja pela linguagem como pelo falar da realidade nua e crua, nada de revelação do nojo ao status quo, nada que não seja bem-humorado e alienado, nada de comprometimento com a revelação da sordidez e ganância reinantes no sistema de comércio de arte…  Há caminhos, mas são muitos raros penosos e difíceis. Hoje em dia existem pouquíssimos espaços independentes da mídia e pouca especialização.

Qual seriam os conselhos ou dicas que uma artista tão premiada daria para a nova geração?

Resistir aos atalhos (não existem atalhos), trabalhar muito e se aprofundar cada vez mais nos estudos e nas próprias pesquisas. Perseguir seriamente o ideal que o emociona fugindo das imitações ou “importações” de soluções alheias. Ter muita curiosidade e perseverança. Ser incansável e viver para o que pretende, mas não esperar viver do que pretende. Esclarecendo: para poder se desenvolver não submetendo seu trabalho, mas praticar uma atividade paralela que o sustente para que ela possa fazer o que gosta sem se comprometer na sua essência. Com o tempo se chega lá. Mas desde que se tenha talento…

Serviço:

Requiem aos Tombados – Maria Bonomi – Memorial da América Latina

Terça a domingo, das 10h às 17h, grátis

Próximo ao Terminal, Metrô e CPTM Barra Funda

www.facebook.com/atelier.bonomi
www.instagram.com/ateliermariabonomi
http://br.linkedin.com/pub/maria-bonomi/79/a03/358/

Por Rodrigo Barros e Leandro Lel Lima

Edição: Luiza Camargo

 

 




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