Dia do Orgulho LGBTQIA+: 7 artistas que fazem a diferença com sua diversidade

Orgulho LGBTQIA+ na SP Escola de Teatro: Annelize Tozetto, Dandara Ferreira, Divina Nubia, Divina Valéria, Florydo Fogo, Marcia Dailyn e Thiago Mendonça – Foto: Edson Lopes Jr

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos Edson Lopes Jr.

A data de 28 de junho é celebrada em todo o mundo como Dia do Orgulho LGBTQIA+. Afinal, foi neste dia, há 52 anos, que esta comunidade se rebelou em 1969. Após chorarem o funeral da lendária atriz Judy Garland (1922-1969) no bar gay Stonewall Inn, em Nova York, os frequentadores sofreram violência policial. Pela primeira vez, não aceitaram a maldade e reagiram com pedras e socos, dando início à luta por direitos civis para pessoas não-heterossexuais em todo o Planeta e às Paradas do Orgulho, cuja maior do mundo é realizada em São Paulo.

Para comemorar efeméride tão especial e fruto de tanta luta contra o preconceito e pela diversidade de corpos, amor, gêneros e sexualidade ao longo das últimas décadas, a SP Escola de Teatro apresenta este Ensaio Especial do Orgulho LGBTQIA+, realizado em sua sede do Brás seguindo os protocolos vigentes, com 7 artistas que fazem a diferença quando o assunto é diversidade e representatividade. Respeitando o tempo de luta de cada uma, apresentamos por idade estas incríveis personalidades. Veja só quanta força, história e beleza em Divina Valéria, Divina Nubia, Marcia Dailyn, Thiago Mendonça, Florydo Fogo, Annelize Tozetto e Dandara Ferreira.


DIVINA VALÉRIA
@divinavaleriaoficial
Divina Valéria, 78, é uma das mais importantes artistas LGBTQIA+ da história do Brasil. Da era de travestis lendárias que enfrentaram a perseguição da ditadura civil-militar com muita garra, coragem, arte e talento nos palcos, ela conquistou lugar de respeito junto das Divinas Divas, registradas no obrigatório documentário de Leandra Leal. Grande cantora, já se apresentou internacionalmente na França, Japão, Argentina e Uruguai, entre outros lugares do mundo onde mantém séquito de fãs. Desde quando surgiu em 1964 no Les Girls ao lado de Rogéria, transformou-se em uma lenda dos tablados, sempre com sua voz precisa e aveludada, além de marcante interpretação. Em 2020, viveu momento icônico no espetáculo Divinas Divas, no Theatro Municipal de São Paulo, ao lado das veteranas Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos, Camille K. e as da geração seguinte, Divina Nubia e Marcia Dailyn. Foram ovacionadas e venceram o Prêmio Arcanjo de Cultura. Em 2019, ganhou o Kikito no 47º Festival de Cinema de Gramado por sua atuação no curta Marie. Vivendo entre Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, ela se concentra na finalização de sua biografia fartamente ilustrada com os coautores Alberto Camareiro e Alberto de Oliveira, que deverá ser lançada no segundo semestre por meio de uma campanha de financiamento coletivo que arrecada fundos para a impressão do tomo de 176 páginas. “Finalmente vou poder eternizar a minha história”, diz.

DIVINA NUBIA
@divinanubia
Do signo de Gêmeos, a paulistana da Bela Vista Divina Nubia, 57, é um verdadeiro ícone no transformismo no Brasil. Já mostrou seu talento incontestável nas casas noturnas mais lendárias da metrópole, como Nostromundo, além de ter brilhado por diversas vezes no Show de Calouros do SBT, na época um avanço de visibilidade para a comunidade LGBTQIA+, então chamada ainda de GLS. Com 41 anos de trajetória artística que merece respeito, ela lembra que o 28 de junho foi quando “através do amor pela perda da atriz Judy Garland, os gays enfrentaram a polícia, e assim passamos a comemorar o dia do Orgulho Gay”. Para ela, o ensaio na SP Escola de Teatro foi momento de “encontrar pessoas queridas e amadas e também pessoas novas, como novas ideias e posicionamentos, que é sempre agregador”. Nubia ainda celebra a estreia da série Manhãs de Setembro na Amazon Prime Video, na qual dá vida a Verônica, amiga da protagonista Cassandra, interpretada por Liniker. “No futuro, tenho muita vontade de fazer o que Deus tiver reservado para mim”, avisa a fã de “música francesa, latina, árabe e americana”. E recorda com carinho o fato de ter feito a apresentação de Divinas Divas no Theatro Municipal de São Paulo no dia 29 de janeiro de 2020: “Foi o melhor que me aconteceu neste ano de tanta tristeza”. Ao enumerar avanços para a comunidade, como o nome social para pessoas trans, recorda que ainda há o que melhorar: “A falta de memória dessa geração nova que hoje se casa, anda de mãos dadas e trocam carinho nas ruas”. E reforça o motivo. “Fomos nós e as pioneiras que, mesmo na ditadura, não desistiram de ser quem eram, mesmo correndo muitos riscos”, recorda. “Deixamos um legado”.

MARCIA DAILYN
@marciadailyn
Com a força do signo de Leão, Marcia Dailyn, 42, atriz e bailarina travesti, foi a primeira artista trans da história do Theatro Municipal de São Paulo. Natural de Jales, no interior paulista, ela hoje é paulistana da Bela Vista, e atua como diva da praça Roosevelt e da Cia de Teatro Os Satyros, além de musa do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, do Bar da Dona Onça e da boate The Week. Para a estrela, 28 de junho é “dia que mostra que cansamos de sofrer, assim como Josephine Baker”, e lembra que Judy Garland consagrou a efeméride. “É uma data de lembrar de lutar todos os dias dando voz e continuidade. Sendo artista, brasileira e travesti. Sorrindo como resistência”, pontua. Colaboradora da SP Escola de Teatro, na qual é assistente da diretoria e está à frente do projeto SPTrans Visão, ela se sentiu em casa durante o ensaio. “A SP Escola de Teatro é um espaço de acolhida de todos os corpos e corpas, de todas as cores e bandeiras. É um prazer dividir essa aquarela com outras cores tão vivas”, poetiza a artista, que define como momento mágico ter sido a primeira artista travesti a participar da abertura da Copa do Mundo no Brasil. De olho nos avanços, recorda o que ainda precisa evoluir: “O que falta melhorar é a união. Todes se amarem, saber que cada uma tem sua história e conquistar seu espaço com trabalho e tempo. Tudo que é plantado é colhido, seja o bem ou o mal. Eu planto em minha vida referências como Jane Di Castro, Phedra D. Córdoba, Rogéria… Planto amor, planto cultura, fazendo meu legado e mantendo vivo o legado das minhas divas, das minhas velhas”, conclui.

THIAGO MENDONÇA
@thiagomendoncaoficial
O ator Thiago Mendonça, 40, é carioca do signo de Virgem radicado em São Paulo, onde mora na praça Roosevelt, coração do centro. Mas gosta de se definir mesmo geograficamente como brasileiro. Com quatro décadas de carreira artística, já que não dissocia sua arte de sua vida, ele vê o 28 de junho como um dia “para celebrar a resistência dessa comunidade diversa e reverenciar ancestrais que muito lutaram para que hoje possamos (r)existir mais livremente”. Ator conhecido do grande público por novelas como Duas Caras, Em Família e Carinha de Anjo e filmes como Somos Tão Jovens, no qual deu vida ao roqueiro gay Renato Russo, ele celebrou o encontro no ensaio da SP Escola de Teatro. “Depois desse longo e quase eterno período de isolamento, foi um privilégio reencontrar amigues tão querides que há tempos não via e estava junto; e ainda mais, como bem lembrou a nossa grande Divina Valéria, no dia da passagem de Judy Garland, já que as fotos foram feitas no dia 22 de junho, que foi a data de sua morte em 1969. Para o futuro, pretende “seguir vivo (nesse país onde muitos de nossa comunidade são mortos de forma brutal) e celebrar essa dádiva a cada dia, da melhor maneira possível, sempre com muita arte”. Eclético no gosto, indo de Wanderléa a Strauss e de Teatro Oficina a Friends, “diverso como nossa comunidade”, o que lhe deixa feliz é “ser reconhecido por um trabalho realizado”.

FLORYDO FOGO
@florydofogo
Artista não-binaerie natural de São Paulo e do signo de Aquario, Florydo Fogo, 35, já tem a arte como ofício há 12 anos. À frente da Núclea de Pesquiza Tranzborde, considera o 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, uma data “para firmar o rito e celebrar as existências: as nossas e de nossas transcestrais”. Em sua visão, participar do ensaio especial do Orgulho na SP Escola de Teatro foi o “encontro com a pluraridade de corpas e experiências”, que “alegra o coração, esquenta a alma e nos aproxima”. E lembra: “Ainda há uma lista enorme de urgências, como garantia de direitos básicos, preparo de profissionai de saúde de modo a não serem violentos com as existências trans, inserção no mercado e trabalho e na educação e políticas públicas que aproximem toda a população das pautas, não como se fossemos alienígenas, mas como dignes de existência”. Para ouvir, vai desde tradicional, passando por batidão e eletrônico, além de músicas imersivas. Já no audiovisual, o que faz sua cabeça é “cinema não-europeu que traz temáticas transviadas e de gayzagen”. Um momento especial na carreira? “Quando fui selecionado para a mostra Diversa 2017 no Museu da Diversidade Sexual. Foi a primeira vez que um espaço artístico legitimou minha identidade de gênero. Foi um momento crucial de autopercepção e de valorização”.

ANNELIZE TOZETTO
@annelizetozetto
A fotógrafa e jornalista Annelize Tozetto, 34, é “Peixes com ascendente em Áries, Lua em Sagitário e Vênus em Capricórnio”. Nascida em Ponta Grossa, no interior do Paraná, mora em São Paulo há dois anos após temporada em Curitiba. Com 13 anos de carreira artística, na qual se destacam as belas imagens que contam parte da cultura e da sociedade brasileira neste ainda jovem século 21, ela se define como uma pessoa bissexual e sempre luta pela visibilidade e respeito às pessoas da letra B na sigla LGBTQIA+. “É um dia de luta pela nossa existência. De reafirmar quem somos no mundo, de resistir”, diz a fã de samba e música popular brasileira. Para a fotojornalista, participar do ensaio do Orgulho na SP Escola de Teatro foi um desafio. “Nunca estou frente à câmera. Sou a pessoa por trás das lentes. Então, adorei essa troca, e o Edson Lopes Jr. faz um trabalho maravilhoso. Para além disso, estar, ainda que por um breve momento, junto com outras pessoas LGBTs é sempre maravilhoso. Você aprende, dá risada, melhora como ser humano”, avalia ela, que faz pós-graduação em Fotografia como Suporte para a Imaginação e atua como assessora parlamentar na mandata da deputada estadual Isa Penna (PSOL). Leva como momento da vida o dia em que fotografou Fernanda Montenegro no Festival de Curitiba, onde atua há mais de uma década no time de fotógrafos oficiais. “Pro futuro?…. Bem, futuro é sempre uma caixinha de surpresas, mas tenho pensado em exposição e livro”, confidencia. E comemora o fato de a comunidade LGBTQIA+ ocupar mais os espaços. “Mas ainda falta muita coisa como políticas públicas que façam diferença na vida das pessoas, que garantam emprego, casa, comida, saúde. Somos o país que mais mata LGBTs no mundo. É urgente demais”, lembra.

DANDARA FERREIRA
@dandara___ferreira
Nascida em São Paulo e moradora da cidade vizinha de Mogi das Cruzes, Dandara Ferreira, 19, é uma drag queen em ascensão desde que ganhou o Miss Francisco Morato 2019 que a colocou como concorrente do Miss São Paulo e ainda venceu o Drag D’Água 2021. Do signo de Libra, é artista há quatro anos, dos quais por três utilizou o nome Madame Satã, “por causa do filme, que junto da arte drag me salvou da depressão”, recorda. Fã de Mariene de Castro, Ilê Aiyê, Carlinhos Brown e Pabllo Vittar, considera o 28 de junho, “além de ser comemorado o dia do orgulho LGBTQIA+ em geral, um dia em que se dá mais visibilidade para nossa comunidade”. E reforça que não é só festa. “É dia de relembrar as pessoas que morreram para que nós pudéssemos ocupar os lugares que ocupamos. A luta é todos os dias, mas 28 é uma celebração de orgulho. Um dia de luta, resistência e empoderamento”, afirma. Estar no ensaio especial na SP Escola de Teatro é importante por “mostrar nosso rosto e nosso trabalho na mídia”. E reforça. “Por isso a importância de eu me mostrar como negro, de quebrada, que sou resistente”. Nesta temática, desenvolve o projeto Falas Afro, no qual pretende entrevistar artistas negros LGBTQIA+: “seja em live ou em televisão, que é meu sonho”, avisa.


Ficha técnica
Ensaio do Orgulho LGBTQIA+ 2021 na SP Escola de Teatro
Artistas convidades: Annelize Tozetto, Dandara Ferreira, Divina Nubia, Divina Valéria, Florydo Fogo, Marcia Dailyn e Thiago Mendonça
Idealização: Miguel Arcanjo Prado e Ivam Cabral
Fotos: Edson Lopes Jr.
Texto: Miguel Arcanjo Prado
Edição: Luiza Camargo e Miguel Arcanjo Prado
Produção e reportagem: Rodrigo Barros
Assistência administrativa: Margarete de Lara
Assistentes de produção: Edson Rocha e Paloma Assunção
Figurinos e acessórios: Walério Araújo e Lavish by Tricia Milaneze

Arte gráfica: Tomaz Alencar e Henrique Mello
Locação: SP Escola de Teatro – Sede Brás – Ensaio realizado de acordo com os protocolos de segurança vigentes.
Parceria de mídia: Blog do Arcanjo




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