O que ‘Angels in America’ nos ensina sobre pandemia?

Este texto reúne trechos da crítica “‘Angels in America’ e a refreável volta do mundo”, publicada na Revista Continente (jun. 2019), e da dissertação de mestrado “Masculinidades na Cena do Grupo Magiluth de Teatro” (2019).

 

Cena da série ‘Angels in America’, lançada em 2003 pela HBO. Foto: Divulgação

POR MATEUS ARAÚJO*
A crítica “‘Angels in America’ e a refreável volta do mundo” foi escrita em parceria com Paulo Malvezzi

“Essa doença será o fim de muitos de nós, mas não de todos, e os mortos irão comemorar e lutarão ao lado dos vivos, e nós não vamos embora. Nós não morreremos mortes secretas nunca mais. O mundo só gira para frente. Nós seremos cidadãos. A hora chegou.”

Esse trecho, que encerra a peça “Angels in America”, é uma fala de Prior Walter, personagem central da obra de Tony Kushner, lançada no início dos anos 1990 nos Estados Unidos e adaptada para série de TV, em 2003, com Meryl Streep, Emma Thompson e Al Pacino no elenco. Apesar de parecer tão atual  — e em muito se assemelhar ao contexto da covid-19—  a “doença” à qual Prior se refere é a Aids. No entanto, dadas as circunstâncias e relativizados os tempos, o texto de Kushner, um dos mais marcantes do teatro da virada do século, fala  — e muito —  sobre o que vivemos hoje. Melhor dizendo: ensina-nos, pela metáfora, a refletir o agora.

“Angels in America” está inserida num fenômeno do teatro mundial chamado por pesquisadores de Aids Drama. Com a pandemia da síndrome imunológica que devastou sobretudo a comunidade gay nos anos 1980, dramaturgos passaram a retratar tal temática em textos que se tornaram símbolos de uma era.

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Na trama ambientada em 1985, Prior, jovem gay infectado com o vírus HIV, é abandonado pelo namorado Louis, judeu e dito progressista. Enquanto convalesce com dores e marcado pela “mancha”, como ele mesmo se refere às lesões da pele causadas pelo sarcoma de Kaposi, o rapaz recebe a visita do Anjo que o anuncia como “mensageiro” da boa-nova. O que parece alucinação serve, na verdade, como dispositivo narrativo a aproximar os diversos personagens que se cruzam em sonhos ou nas ruas e parques de uma Nova York babilônica.

Política, direitos humanos e religião se intercruzam nas discussões articuladas por Tony Kushner na dramaturgia.

O drama de Prior, comum a muitos outros gays daquele período, se interliga a um tempo marcado pelo moralismo conservador nos Estados Unidos, àquela época governado pelo republicano Ronald Reagan  — correligionário de Donald Trump. Eis que o jogo político  — diretamente influenciado pela religião —  torna-se a primeira barreira para a cura. Apoiado por uma base eleitoral de cristãos fundamentalistas, Reagan ignorou o fato de uma epidemia de Aids assolar seu país, preferindo associar tal síndrome a um “castigo” divino à sodomia.

O retrato distópico da era Reagan feito por Kushner soaria tão anacronicamente atual como no Brasil de 2020: governado com a crença de que o bem e o mal existem e o poder é um desígnio divino; uma nação chamada a jejuar, enquanto tantos esperam a mínima ajuda financeira para comprar comida, em meio à crise sanitária; um país no colapso da saúde, e com as minorias políticas e sociais assombradas pela desesperança, pelo estigma e pela sombra da morte.

IMPACTO NOS PALCOS BRASILEIROS

A Aids mexeu com estruturas sociais no mundo inteiro. Foi “homossexualizada”, como afirma João Silvério Trevisan, no livro “Devassos no Paraíso”, e despertou o discurso conservador pregador da monogamia e culpabilizante aos gays.

No teatro brasileiro, a síndrome foi transformada em “provocação para a comunidade gay, solicitando organização e posicionamento”, escreve o dramaturgo Newton Moreno, no artigo “Máscara Alegre: Contribuições da Cena Gay para o Teatro“, pesquisa sobre o teatro e homossexualidade no Brasil.

Mas as influências da Aids como temática na dramaturgia nacional não se ativeram, porém, apenas a uma abordagem direta sobre a fatalidade ou uma narrativa da evolução da pandemia. Ao lançar luz ao homoerotismo, respingou em leituras por campos poéticos e, sobretudo, numa dura investida contra o conservadorismo preconceituoso que tentava silenciar a realidade, abraçando outros assuntos.

É o caso da religião, em “O Livro de Jó” (1995), do Teatro da Vertigem, escrito por Luís Alberto de Abreu, com direção de Antônio Araújo, considerada por João Silvério Trevisan o “auge do impacto da Aids no teatro brasileiro”. A montagem apresentada em um hospital abandonado de São Paulo questionou o sagrado através de uma estética extremamente realista, a ponto de causar desmaios na plateia.

“A Aids fazia vítimas sem perspectiva de ser contida, e Jó era o homem nu, coberto de chagas e sangue, diante daquilo que não controlava e que surgia como uma punição sem porquê”, escreveu o crítico Nelson de Sá, em texto publicado pela Folha de S.Paulo, em 1999. “Levada ao extremo da poesia bíblica, a peça resultava numa investigação profunda sobre a fé, então sob foco do teatro todo.”

‘Angels in America’ foi adaptada em 2019, no Brasil, pela Armazém Companhia de Teatro. Foto: Mauro Kury/Divulgação

A FEBRE QUE NÃO PASSA

Mas a contemporaneidade de “Angels in America” está também em outra perspectiva do texto: a democratização da morte. Além de Prior, o narrativa resgata a figura histórica do advogado macarthista Roy Cohn, retratado por Kushner como um homossexual enrustido e assolado pela Aids.

Embora igualados na condição de soropositivos, Conh e Prior ocupam lugares opostos em perspectiva subjetiva. Enquanto o profeta luta pela sobrevivência, apesar dos pesares, o advogado encara sua doença como mais um dos seus lobbies de poder.

A Aids é, na peça, uma das metáforas de um mundo ciclicamente em desintegração, governado por uma plutocracia hipócrita e corrupta. Daí que diante do colapso iminente do mundo, o Anjo revela a Prior que a humanidade deve deter a marcha do seu progresso. Não avançamos; atropelamos –produzindo novas desgraças e afastando o divino da sua própria criação.

“Angels in America” dialoga com o universal e com o momento presente ao questionar a própria humanidade diante de tempos sombrios.

É verdade que aquela doença foi o “fim de muitos de nós, mas não de todos”, como disse Prior, o jovem rapaz que, na assembleia diante dos anjos, deu o testemunho de resiliência, graça e esperança de incontáveis bichas que, sobrevivendo ou padecendo, enfrentaram a morte e o sofrimento de frente. E aí compreenderemos que ali o gay portador do HIV é o profeta dos novos tempos, a anunciar outras ordens sociais possíveis.

“O mundo só gira para frente. Nós seremos cidadãos. A hora chegou.”

 

MATEUS ARAÚJO é analista de Comunicação da SP Escola de Teatro. Jornalista, pesquisador, crítico de teatro e mestre em Artes Cênicas pela Unesp.




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