SP – Um Prédio Tomado por Infindas Poéticas*

Publicado em: 10/12/2012

*Por Evill Rebouças

No sábado (8), sob sol escaldante, as salas de aulas e o pátio do prédio utilizado pela SP – Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no bairro do Brás, ganharam novas possibilidades de uso. Ali, aprendizes do Módulo Amarelo preencheram esses espaços com seus experimentos cênicos.

Enquanto observador – com “direito” a papel e caneta na mão – pude notar questões ímpares no campo metodológico e pedagógico, a partir das poéticas apresentadas. Não se trata apenas de cenas que, geralmente, estudantes de teatro são obrigados a mostrar para receber uma avaliação, mas de uma radiografia potente enquanto processo de criação.

Se dissecados, os experimentos primam por uma relação direta entre produto e processo estético. Isso porque a metodologia privilegia a criação autoral e no momento do processo de criação há espaço para o intercâmbio de áreas da encenação, ou seja, qualquer uma das áreas estudadas pelos aprendizes pode trazer discursos potentes à cena. Por outras palavras: a luz, além de iluminar, mostra que, ao ser manipulada por fios à vista do espectador, sugere leitura para determinada cena; o figurino não apenas veste, pois os detalhes contemporâneos/futuristas ampliam a discussão do assunto mostrado; as palavras ultrapassam o sentido exato do que é dito, dada a jocosidade e ironia de determinadas interpretações; os materiais cênicos ultrapassam o caráter de adereços, já que suas porosidades, texturas, cheiros ou mesmo o calor escaldante de alguns ambientes significam nas situações mostradas. Temos aí o que denominamos conceitualmente de dramaturgias, isto é, todas as áreas da encenação podem suscitar potências discursivas/narrativas e, consequentemente, proporcionar uma participação ativa de todos os integrantes da equipe criadora.

Os exemplos citados apontam para algo determinante: temos um conjunto de proposições estéticas – o texto, a partitura física, a luz, o figurino, os deslocamentos de espaço, as sonoridades, as videoprojeções, as sensorialidades etc – que resultam em uma encenação. Para problematizar a questão, pensemos então em algo que venha contrapor a ideia de encenação enquanto forma, em detrimento do conteúdo. De que modo as escolhas formais constroem ressonâncias ao assunto tratado? Em que medida tais escolhas encobrem o conteúdo dos assuntos ou abafam determinadas áreas do espetáculo – dentre elas, o ator – para apresentar um resultado estético enquanto encenação?

Como se trata de um processo pedagógico em que privilegia dramaturgias em processo, creio que a apreciação torna-se elemento balizador para essas questões, pois determinadas teatralidades – ainda que belas e encantatórias – podem se tornar apenas artifícios cênicos. Por exemplo, as projeções utilizadas em determinados experimentos potencializam o conteúdo do assunto ou se sobrepõem enquanto expediente de metalinguagem? A escolha por uma atuação visceral ou simplesmente o jogo, sem um texto fixo, valoriza ou empobrece o que é dito enquanto texto? Essas são algumas questões que só encontrarão respostas se forem discutidas, levando em consideração o tema, a forma e o conteúdo.

Amparado por uma temperatura escaldante, pois o sol e o calor não davam trégua, tive um dia ímpar. Os experimentos cênicos privilegiam a vivência do aprendiz enquanto sujeito propositor de discursos. Como resultante, temos uma produção estética que está pautada no risco: a SP se arrisca a caminhar na contramão, pois diferentemente de outras escolas de teatro, os processos pedagógicos estão longe de comungar com objetivos mercadológicos ou reproduções estéticas consagradas – já que seu objetivo principal é preparar o aprendiz como sujeito estético, capaz de articular pensamentos poéticos e políticos por meio do teatro.